destaque, performance

agouros, miragens, mirações

amilton de azevedo escreve para Novíssimo Edgar e Wagner Antônio, criadores de URUTAU, primeira obra desenvolvida dentro do VÉRTICE, programa anual de residências artísticas do Instituto Capobianco.

para Wagner, Edgar e toda sua Novíssima companhia

uma máscara na luz que se move me convida a olhar para a fonte emitente e não para seu resultado, pois o feixe que ilumina os recortes de olhos e boca não resulta em interrupções do círculo que desenha nas paredes. URUTAU. uma coisa híbrida com nome de pássaro que é agouro de vida ou de morte é uma coisa de vida e morte. tudo se camufla enquanto se revela diante de nossos olhos.

a primeira imagem que me chega é a de uma pajelança juremeira na aurora boreal. todas as materialidades, passadas e presentes, vivas e não-vivas, existentes e ainda por existir, estão ali. composições – sonoras, imagéticas, sensoriais – se sucedem sem se anular ou buscar vínculos diretos. nada se dissolve num amálgama, cada momento traz seu mistério e suas chaves, mas cabe a nós encarar as esfinges e talvez escolher não decifrá-las. a realidade dá um tapa na sua cara, Edgar, e ela é soberana em URUTAU mas vocês sabem, e compartilham conosco, que ela é muito mais do que o que nos circunda, é muito mais do que a ordem do visível.

um entregador de terno brinca na miniramp atende um orelhão se veste para a guerra. o que URUTAU tem de beleza tem de violência, também. lembro de novo de Mateus Fazeno Rock, quando ele diz essa porra não tem pausa, escrevi isso pro Matheus Macena quando falei de Edson e uma beleza incansável que nos exaure. no final de URUTAU agradeci a você, Wagner, pelos blecautes breves quando luz e som eram tão intensos como um sol que não se aguenta olhar diretamente. me pego pensando num desejo de silêncio, não recordo de um instante de silêncio, parece que o tempo todo as sonoridades não dão trégua – eu queria evitar termos bélicos, não quis falar de bombardeio, mas já falei guerra e agora falo trégua

Wagner, o seu trampo eu acompanho tem um tempo. te falei que é incrível ver como suas instalações ganham qualidades totalmente diferentes; URUTAU não é da ordem do sono, do sonho, do onírico; é do psicodélico, da miragem, da miração. as fontes de luz, a materialidade do que emite, não seu resultado em si. é bem complexo mas ao mesmo tempo simples ali – as tubulares de um lado, as ribaltas, aqueles painéis de led que não sei o nome certo, três ou quatro ou não sei quantas moving lights; poderia ser mais, você já fez trabalhos com outros recursos, outras tecnologias somadas, e imagino que aqui não seja nada trivial mas ao mesmo tempo tem uma aposta no que as coisas são em si. não só na luz, mas nas outras matérias da cena. um pedaço de miniramp, dois pianos, um orelhão. não te conhecia, Edgar, e te conheço nesse encontro com o Wagner, com esse Novíssimo arranjo de tanta gente interessante, cada um se fazendo presente de um modo.

as presenças em URUTAU dançam conforme os desejos, e algumas vezes os corpos eram menos físicos do que a densidade da luz. pianos que dançam sozinhos ainda que em diálogo com performers, e então manobras sobre eles como se fossem skates; passei na frente de uma vitrine recentemente que tinha um boné escrito o skate é um pretexto e penso na rampa ali, e de repente ela está ao contrário e agora é um pequeno palco mas antes também já era um palco.

a capa do programa dessa primeira edição do Vértice do Instituto Capobianco nomeia URUTAU como uma investigação sonora dentro de uma instalação de luz. é um jeito, uma tentativa de apresentar. mas o que realmente parece interessar é da ordem do inenquadrável. quando escrevi sobre A Bailarina Fantasma, onde você, Wagner, assina encenação e instalação cênica, falei da incapturabilidade como vingança. aqui, em URUTAU, a incapturabilidade é inerente ao caráter absolutamente instável da obra. o trabalho é um kickflip em pleno ar. um kickflip de pianos.

é verdade que se olharmos individualmente para cada estação (movimento, cena, composição, instante) podemos construir algo de uma organização, de uma leitura mais estrita. mas é no todo que se manifesta a beleza e a violência destes agouros de vida e morte, destas tantas miragens inacreditáveis, destas mirações de um transe. vamos tentando consolidar o que estamos vendo, ouvindo, sentindo, e é bonito como URUTAU nos permite levitar entre o novo e o reconhecível; como solapa expectativas. quando vi as camisetas onde se lia INOCENTE e o reflexo líquido que se movia no teto com o som, já as vislumbrei manchadas de sangue. mas não. é água. é lavagem.

mesmo nos momentos mais violentos e insuportáveis, ruídos que nos levam a acreditar que há outros modos de existir: enquanto um corpo tombava e um trabalho incessante o cerceava de smartphones velhos, um músico aguardava pacientemente o seu momento. sentado ali, com um interessante instrumento de cordas que eu, leigo, não sei o nome, apenas observava. e então tocava, e então cantava, e o pássaro que se camufla irá também voar e se alimentar em pleno voo. bocas abertas para o vento e tudo que ele traz em seu sopro.

escrevo isso para agradecer, Edgar, agradecer pela possibilidade de fruir algo que não consigo muito bem nem dar contorno ao que gerou em mim. saí movido, absolutamente movido, por essas perspectivas possíveis, por esse milagre – e gosto de pensar em milagre nos termos que Hannah Arendt propõe, um milagre é uma improbabilidade estatística – que é a arte que se faz no encontro, no risco, num não-saber coletivamente. pianos que dançam e das marteladas fazem sinfonias, um mundo que se marca com pregos, luzes mais densas que a matéria, coisas tantas que se fazem coexistir em grau de igualdade nas diferenças. muito que reverbera, que permanece, e também o infinito que me escapa, que escapa, que se permite escapar.

serviço
URUTAU
com Novíssimo Edgar e Wagner Antônio
Temporada: De 07 a 30.08
Sexta e sábado | 20h
Domingo | 19h
Ingressos: R$30 inteira | R$15 (meia)
Instituto Capobianco | www.institutocapobianco.art.br
R. Álvaro de Carvalho, 97 – Centro Histórico de São Paulo, São Paulo – SP

ficha técnica
URUTAU

CONCEPÇÃO Novíssimo Edgar
DRAMATURGIA, ENCENAÇÃO E INSTALAÇÃO CÊNICA Novíssimo Edgar e Wagner Antônio
DIREÇÃO MUSICAL Novíssimo Edgar
DIREÇÃO DE PALCO Isabel Wolfenson
DIREÇÃO DE COREOGRAFIA Augusto Trainotti
REALIZAÇÃO E PRODUÇÃO Instituto Capobianco
PRODUÇÃO EXECUTIVA mútua – Mathilde Rousseaux
COORDENAÇÃO DE PROCESSO PEDAGÓGICO Isabel Wolfenson e Wagner Antônio
ELENCO Máximo Wassu, Sandra-X, Barbarelli, Eduarda Ayumi, Renanzeth, Augusto Trainotti, Novíssimo Edgar, William Kimura, Ricardo Kazvmba, Ruy Rascassi, Melifona, Farshad e Luana Almeida
PRODUÇÃO DE CAMPO Mathilde Rousseaux e Luana Almeida
CENOTECNIA Eduardo Magliano e Phillip Marinho
OPERAÇÃO DE SOM João Vitor Monteiro
FOTOS Helena Wolfenson
ASSISTÊNCIA DE FOTOGRAFIA Yuri Reuters
AGRADECIMENTOS Rafaela Barbosa