uma declaração turva de algum amor
amilton de azevedo escreve uma carta para Matheus Macena, diretor, dramaturgo e ator de Edson.
Matheus,
uau.
em Edson você começa hesitando, apostando em uma autointerrupção, dando a ver o desejo de chegar em uma certeza sobre a primeira palavra a dizer, sobre como começar. por mais que eu não tenha tido dúvidas em torno de qual seria a minha – porque é difícil não soltar uma interjeição de espanto diante de seu trabalho – eu espero que essa minha carta também hesite, que mantenha um desejo de poucas certezas, que dance com as palavras escritas como seu corpo faz com as ditas.
o Byung-Chul Han, no Sociedade do Cansaço, chama o computador de burro porque “lhe falta a capacidade para hesitar”. eu não ia fazer isso, mas vou colocar uma citação dele aqui, acho que soma na conversa (e ele é um autor que parece que tá sempre conversando com mil pensamentos, né, eu às vezes me perco se ele tá concordando ou discordando de algo):
“É bem verdade que o hesitar não representa uma ação positiva, mas é indispensável para que a ação não decaia para o nível do trabalho. Hoje, vivemos num mundo muito pobre de interrupções, pobre de entremeios e tempos intermédios. No aforismo ‘A principal carência do homem ativo’, escreve Nietzsche: ‘Aos ativos falta usualmente a atividade superior […] e nesse sentido eles são preguiçosos. […] Os ativos rolam como rola a pedra, segundo a estupidez da mecânica’. Há diversos tipos de atividade. A atividade que segue a estupidez da mecânica é pobre em interrupções.”
o que me fez pensar no Han quando penso em Edson é precisamente que sua obra é riquíssima em interrupções. se a precisão dos teus gestos, da coreografia que se desenha do primeiro instante – quando você emerge das sombras – até o final – quando o chão se eleva e uma armadura te faz uma espécie de herói aprisionado de outros tempos –, pode fazer ver algo de mecânico, há você habitando todas as moléculas do teu corpo.
mas ao longo de Edson essa precisa hesitação vai dando lugar a algo de muito certo, parece, para você, do que você opera ali. tenho certa dificuldade em precisar o que é. são como quadros, algo como um caminhar por uma grande exposição onde a curadoria – aqui, sua direção e dramaturgia – criou uma tessitura que conecta cada momento mas aos olhos mais incautos é a primeira palavra que permanece: turvo. Edson é todo turvo, que é uma palavra-imagem linda, alguém certa vez (acho que em um Boteco Crítico) usou essa expressão e eu gosto, gosto porque costumo pensar na opacidade que o Glissant propõe, mas o turvo não é opaco.
o turvo é incerto, o turvo é hesitante, o turvo é a visão de um barqueiro em uma noite enevoada. o turvo não se opõe à transparência, nem à opacidade, o turvo dança. dança como você, Matheus, com tremenda beleza. o turvo também cria ilusões e impressões, partituras que se repetem, paisagens que são outras mas parecem as mesmas e vice-versa. não sei bem por onde navegar em Edson. mas navego.
há ali, sem dúvidas, uma premissa que me parece central: a possibilidade artística, aqui teatral, de fabular singularidades. de amalgamar o extraordinário ao ordinário. por isso, entendo o porquê do nome, Edson, e do desejo de contar essa história. um mártir sobre o qual pouco se sabe, cuja importância para a história é a morte, uma morte que pelos relatos parece até acidental, parece que poderia ser outro, mas não foi, foi Edson Luís de Lima Souto, foi dele o corpo carregado por manifestantes até a ALERJ, assim como poderia ser outro mas foi Benedito Frazão Dutra o segundo assassinado pela Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro naquele fatídico 28 de março de 1968, dois dos tantos mortos e desaparecidos pela violência de Estado durante a ditadura militar brasileira, dois dos tantos mortos e desaparecidos pelo projeto genocida da Polícia Militar.
então, o teatro, o teatro e sua missão primeira de contar histórias, de dar a ver histórias, de uma ou mais pessoas diante de uma ou mais pessoas cujas presenças são literais e também representações, fantasmagorias de outras presenças. ecos turvos da história. na fabulação de Edson o que permanece pra mim é precisamente isso: um eco turvo. conhecemos, pela sua imaginação, pelo seu corpo, pela sua encenação (e pela música de Pedro Nego, pela luz de Gabriel Prieto, pelo figurino e cenografia de Bidi Bujnowski), algo de Edson Luís, mas aqui é Edson, também e fundamentalmente o seu Edson e isso implica muita coisa. inclusive dúvidas – permanecemos sem saber quem foi Edson Luís. quem foram seus pais, quem foi Benedito, e talvez não seja sobre saber precisamente, sim, é verdade, mas aí então por que essa a história escolhida, por que o tema da ditadura como pano de fundo (fiquei com a impressão que ela surge como sutil demais, em que pese toda a violência, óbvio, o horror, que sustenta o todo da narrativa).
e, novamente, uau. é lindo, Matheus, como você se coloca à serviço desta obra. seu trabalho de intérprete é singular – e talvez eu devesse ter dito isso antes, não nos conhecemos, acho que nunca conversamos, mas te vi em Guanabara Canibal num domingo de pré-carnaval anos atrás, escrevi uma crítica chamada os muitos nomes de um machado; também te vi em Veias Abertas 60 30 15 seg, e aí meu texto tem no título vertigem e delírio. e aí leio que este é teu primeiro solo, e um solo é um espaço de muitos desejos, né? acho que Edson manifesta muito do que você pensa e trabalha nas artes da cena. um corpo que também diz, cada movimento pensado como as vírgulas colocadas na palavra falada, um diálogo direto com a plateia, um campo aberto para a fruição passear e se perder.
no que nos perdemos, enquanto público, você também talvez se perca um pouco, não digo isso como algo ruim, mas penso nos desígnios artísticos tantos deste trabalho, no que se desenvolve e no que se repete, no que estende a corda, no que afrouxa, no que rompe. Edson é impressionante e ele permanece em nós, e o que permanece vai além da narrativa fabulada de um jovem de dezoito anos assassinado pela PM do Rio de Janeiro durante a ditadura. você parece também ensejar debater inclusive os regimes de representação, penso nisso quando uma personagem pede passagem e a cena se interrompe para um momento onde você discute consigo mesmo, se faz personagem-boneco de si, e um boneco está a serviço, e você está a serviço, e como você diz e isso é lindo e importante, a vida é maior do que o teatro. e o teatro é imenso em Edson. o investimento na teatralidade é brutal, até, e pode até chegar a incomodar.
quando no escuro surge um manto de luzes nas cores da bandeira nacional, sinto algo em mim. ao mesmo tempo que é das coisas mais belas que já vi, parte de mim – e olha que loucura dizer isso – pensa que já é demais. é muita beleza. o refinamento de cada cena de Edson é absolutamente singular, coisa rara mesmo, e isso não vem impune, eu queria um respiro. e talvez seja mesmo sobre não dar nenhum respiro, talvez esse seja teu desejo, Matheus, o que é totalmente genuíno. mas, nossa. ufa. uau. lembrei de uma música, ela no todo não tem nada a ver com Edson, mas o artista leva teu nome e eu lembrei de uma frase, vou colocar aqui, o Mateus Fazeno Rock, no final de Feito um porco indo pro abate, diz “não tem pausa, essa porra não tem pausa” e ele tá falando isso no final de um desabafo violentíssimo, do horror, de viver na merda, uma realidade que não é a minha e também não é a atmosfera de Edson, e eu penso se deixo esse trecho aqui enquanto escrevo essas palavras porque parece não ter muito sentido, parece não ter nada a ver, mas vou manter; é tipo “não tem pausa, esse encanto não tem pausa” e eu fico ali, uma hora e dez minutos, meio embasbacado com cada novo movimento, cada composição que chega, cada recorte de luz. as interrupções, as quebras, também me dão um baque, acho algumas transições de luz intensas demais, meu olho demora a se reacostumar, mas logo que o faz, o olhar tá de novo capturado, maravilhado. não tem pausa.
você fala em um determinado momento em uma declaração de amor. eu não anotei exatamente, mas essa ideia ficou aqui. teu Edson, Matheus, é todo ele uma declaração turva de algum amor. ao Edson Luís, ao teatro, à imaginação, à arte, ao próprio amor. uma declaração turva de algum amor que não consigo precisar, mas está lá. é uma declaração. é turva. há amor, há muito amor. faz dois dias que vi teu trabalho, ainda vejo tua voz, ainda escuto teu corpo. pesquisei na internet sobre o Edson Luís, vi a foto do corpo dele na assembleia legislativa, as pessoas ao redor, e aí parece que minha retina sobrepôs essa imagem à tua, ascendendo de armadura sobre aquela brilhante almofada de ar, os Edsons assim se fazem um, irmanados no real e no fabulado por tua declaração turva de algum amor.
escrevi essa carta para tirar de mim essas tantas palavras, fazer algo com o que tem passado em mim desde que te vi em cena, e também para agradecer por um trabalho que me preenche de dúvidas e incertezas.
com carinho,
amilton
serviço
Edson
Temporada: 09 de maio a 06 de junho de 2026
Horário: Quartas e quintas-feiras às 20h*; e sábados às 18h**
*04/06 - feriado, às 18h
**20/05 - sessão com audiodescrição, Libras e com Bate-papo "Boteco Crítico" às 19h30
Ingressos: R$ 15 (credencial plena) | R$ 25 (meia-entrada) | R$ 50 (inteira)
Link para compra do Ingresso: https://www.sescsp.org.br/programacao/edson/
Local: Teatro Sesc Vila Mariana / Sala Corpo & Artes (Torre B - 6º andar)
Endereço: Rua Pelotas, 141 - Vila Mariana - São Paulo
Tel.: (11) 5080-3000
Classificação Indicativa: 16 anos
Duração: 75 minutos
Instagram: @edson.espetaculo
ficha técnica
EDSON
DIRETOR, DRAMATURGO E ATOR: Matheus Macena
FIGURINISTA E CENÓGRAFA: Bidi Bujnowski
DIRETOR TÉCNICO E ILUMINAÇÃO: Gabriel Prieto
DIRETOR MUSICAL E MÚSICO: Pedro Nego
PROJETO GRÁFICO: Nina Bruno Malta
FOTOGRAFIA: Lucas Nogueira
ASSESSORIA DE IMPRENSA: Marrom Glacê Comunicação
PRODUÇÃO: Corpo Rastreado
