destaque, teatro

graus de indeterminação

amilton de azevedo escreve uma carta para Monalisa Silva, dramaturga e performer de Tdezesseis, com direção de Tarina Quelho e codireção de Castiel Vitorino Brasileiro.

Monalisa,

que bom que finalmente consegui ver TDEZESSEIS. acompanhando a plataforma no instagram, e também suas publicações, memes e reflexões, estava curioso pra esse solo. acho que só tinha te visto em cena nos Estratagemas Desesperados, e me parece que é um trabalho que de alguma forma se irmana a esse TDEZESSEIS. fabular o horror na cena é uma estratégia tão rica para abordar questões dos nossos tempos. pra pensar mulheres, raça e classe, e eu achei divertido que foi o primeiro livro da Angela Davis que pensei quando vi o retrato dela, e é um que você não cita, quer dizer, não diz o título, mas é isso que perpassa toda a encenação.

de onde se veio e onde se está: o nome TDEZESSEIS, tomado da linha de ônibus que você tanto habitou, anuncia essa filiação à sua trajetória, e o solo se faz algo de biográfico, sutil e inevitavelmente biográfico, mesmo com a soturna ficção que se constrói a partir desse pouso. lembrei enquanto escrevia esse parágrafo de uma passagem do Michel de Certeau, acho que no Invenção do Cotidiano, que diz que “na Atenas contemporânea, os transportes coletivos se chamam metaphorai. Se você quiser se deslocar através da cidade, deverá fazê-lo a bordo de uma metáfora – um trem ou um ônibus”. a bordo de uma metáfora, o tanto que se mobiliza na proteção da cena, da imaginação, dos desejos mais legítimos e terríveis, de vândalas vinganças, redistribuição brutal de violências.

teu solo carrega graus de indeterminação desde o início, desde antes do início, desde você abraçando o público que chega e dizendo “não é personagem, sou eu mesma” e no prólogo que constantemente fala do que vai começar, e evidente que ali já começou, elementos e fragmentos de histórias que você coloca ali são dispositivos, chaves de compreensão para o que se discute. 

TDEZESSEIS é um trabalho pandêmico, de algum modo, né? não sei se a estreia foi online, mas entendo que passou por isso. penso no que fica desse momento histórico, de quando você fala de prisão, de ficar em casa, de aprender a fazer tranças e um tempo depois com uma tremenda agilidade irá trançar seu próprio cabelo.

essa você-personagem não está presa, há ali o tapete, mas a ação não se prende a ele, você transita por assentos da plateia, cruza mancando a cena (e você avisou, reiteradamente, que não é um signo, mas… preciso dizer que ele agrega sentidos: um cansaço – de muita coisa – que se revela na corporeidade, numa dor a ser contida, numa dor esquecida quando você dança), e fala conosco como quem sabe que já conhecem sua história. lembrei do Mateus Fazeno Rock, tem uma música que ele canta que “pra ver a história toda tem que pagar mais caro”, e você na verdade queria contar outras partes da história, mas é essa que queremos ouvir, é isso que você faz de nós, plateia, os interessados na brutalidade, na violência, e é esse o mundo que vivemos.

aqui é importante demarcar que eu provavelmente estou muito mais próximo deles do que de você. de quem comete a violência da pergunta, não de quem está exausto de fazer da vida resposta à ela, de quem está sempre precisando dizer algo a eles. você não nomeia o recorte, mas ele grita, e aqui vale também como demarcação que eu diga: nós, brancos, indivíduos privilegiados e responsáveis pela manutenção dos pactos da branquitude. você não nomeia. você conta a história, uma parte da história. até que dança, como que podendo parar de responder por um instante e então ser agente. Angela Davis escreveu uma autobiografia aos 28 anos porque o tempo de vida de uma mulher preta, pensadora, ativista, se conta de modos que escapam a relógios e giros em torno do sol.

há uma expectativa de um julgamento se colocar ali, de olharmos nos seus olhos enquanto você fala, com crueza, das dificuldades de quebrar um osso ou algo assim. quando você, Monalisa, monta um altar que parece vincular-se à violência, a faca diante da vela compõe uma cruz que se completa com velas de festa, e permanece então no ar o que chamei de indeterminação; você conta a história, mas não nos entrega o juízo. não tem moral, não tem aprendizado – além de leia o livro, porra, leiam os livros, vamos estudar, vamos pensar.

é lindo o brilho nos seus olhos quando você conta do sorriso de uma desconhecida-irmã no xerox, e como seus olhos estão tomados de outra coisa quando você relata a pergunta, a pergunta feita hoje, que vai se repetir em alguns meses, a inação dos brancos. você mesma interrompe a cena, sai, vai ao banheiro, interrupções e anúncios, não sei nem se era necessária a descrição exata do ocorrido, na sua tessitura dramatúrgica os acontecimentos vão se encadeando entre a compreensão literal das ações e as camadas do simbólico. pergunta meio nada a ver, mas você chegou a ver O Motociclista no Globo da Morte? ele tem algumas coisas em comum com seu trabalho – o contar depois, o campo que se abre para o público imergir – ao mesmo tempo que há em TDEZESSEIS o que senti falta lá: uma localização das violências, que não existem no ar, não são etéreas, da ordem do “humano”, mas atravessadas por séculos e séculos de crueldades várias com agressores e vítimas muitas vezes bem definidos; e também a indefinição. é muito bom sair sem saber exatamente o que aconteceu conosco na fruição.

é interessante o código do figurino, a sobriedade inicial, depois uma cor que resolve atravessar, uma peça de roupa quase solta em teu corpo, não entendo muito bem mas faz sentido. e teu espaço cênico é dúbio, contraditório, um cômodo quase-confortável, as plantas na água e os tantos abajures, como que um desejo de contar à meia-luz, mas ao mesmo tempo um geralzaço fixo iluminando tudo, desde antes de começar até depois de acabar. você sai, a música segue tocando, ninguém aplaude, fica evidente que terminou, mas parece estranho aplaudir – acho isso um mérito, um final demarcado não necessariamente precisa ser espetacular, e a recepção pode se demorar a assentar e compreender que agora voltamos à realidade. 

ficou muito marcada em mim a imagem da figurinha holográfica. de cara fui levado a uma obra do Vilanismo que integrava a instalação Os meninos não sei que juras fraternas fizeram, parte da 36ª Bienal. até tentei buscar o nome do artista, não fotografei quando visitei, não encontrei na página referente às obras no site da bienal mas tem uma foto dela lá, enfim, não sei se você viu. mas eram retratos com um tratamento holográfico, criando uma espécie de dupla exposição simultânea-não-simultânea, com documento e fabulação coexistindo, tudo dependendo do ponto de vista. colocar as coisas no tabuleiro e, no trajeto do TDEZESSEIS, enxergá-las em movimento. que bom que assisti teu trabalho, Monalisa. espero que em breve ele encontre outras paragens. é curioso que você fala que gosta de coisas de pendurar na parede para fazer seus os espaços, e o quadro de Angela Davis fica só apoiado em uma cadeira. é tudo transitório no teatro, né?

com carinho,

amilton

ficha técnica
TDEZESSEIS

Monalisa Silva: Performance e dramaturgia | Tarina Quelho: Direção geral | Castiel Vitorino Brasileiro: Codireção | Fernanda Selva: Figurino | Lucas Brandão: Luz.