movediço
crítica de Eu, minhas convicções e um moleque preto com arma na mão, com texto de Evandro Cruz Silva, direção de Lucas Mayor, arte sonora de Gustavo Rocha, produção de Maisa Castro e atuação de Rafael Cristiano.
“Você se parece comigo, por que me vê como alvo?” (Baco Exu do Blues, Sinto Tanta Raiva…)
Publicado na edição #44 da revista serrote, em 2023, o ensaio Eu, minhas convicções e um moleque preto com arma na mão traz um relato em primeira pessoa de Evandro Cruz Silva a partir de um assalto sofrido por ele – “um escritor e acadêmico negro” – perpetrado por um moleque “muito preto e muito magro com uma cicatriz no pescoço”. No texto, Cruz Silva compartilha suas reações, sensações e reflexões, habitando as complexidades de um choque que fricciona raça e classe, sobretudo na experiência brasileira e nossos contextos sociais das últimas décadas. Dos Racionais MC às cotas nas universidades, o autor entremeia à sua experiência o pensamento de Florestan Fernandes e pesquisas coordenadas por Gabriel Feltran. Um ensaio profundo, honesto, violento e bonito.
Cartaz no Espaço Garganta em maio de 2026, Eu, minhas convicções e um moleque preto com arma na mão tem direção de Lucas Mayor, arte sonora de Gustavo Rocha, produção de Maisa Castro e Rafael Cristiano corporifica as palavras de Cruz Silva, fazendo de si a primeira pessoa do relato. A dramaturgia textual – as paisagens de Rocha são também dramaturgia, sonora – é o ensaio; antes dela, há outra primeira pessoa. Cristiano fala de si, de sua infância, da polícia, de moleques pretos com armas na mão, de enquadros. Conta entre sorrisos, doce, sem diminuir a gravidade do que se fala, mas sem se distanciar de quem ele é. Não é evidente que se trata de um prólogo até que ele anuncia que, depois, agora, irá começar. Antes desse prólogo, há uma imagem. Um vulto por trás de uma porta de vidro com detalhes em serralheria, iluminado no contraluz. Do outro lado do espaço, próximo à janela, há uma cadeira. Uma porta, um ator, uma mochila, uma cadeira, alguns spots, duas caixas de som. A direção de Mayor faz de cada um desses poucos elementos lugares movediços de pensamento, representação e ação.
O Espaço Garganta, pequena sobreloja na Vila Buarque, tem vinte e oito lugares, alguns spots de luz amarela ao longo da sala, um espaço cênico que se faz estreito, quase um corredor, uma grande janela para a rua e uma bonita porta de serralheria para os fundos, onde há um banheiro e uma área feita camarim improvisado. Nomeado a partir de Impressões do teatro, poema de Wisława Szymborska, faz dessa inspiração sua missão: não há cortina mas ao fim de toda apresentação, uma mão invisível cumpre o seu dever de apertar a garganta de cada pessoa do público.
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Eu, minhas convicções e um moleque preto com arma na mão, ainda que tenha como material principal um ensaio escrito por outra pessoa, traz a assinatura do Garganta, capitaneado por Mayor e Marcos Gomes. Há nas produções do espaço uma fé no teatro, uma fé em sua força em princípios básicos: o público, um ou dois ou três intérpretes, a palavra. Pode-se pensar também nas circunstâncias, na precariedade, no que é possível, e então há de se assumir que há uma fé no possível.
O gesto artístico aqui parece ser uma aposta na assunção da representação como forma viva, uma teatralidade continuamente assumida para fazer brilhar a singeleza de encontros. Sob a direção de Mayor, Cristiano interpreta uma personagem que se percebe angustiada pelo nó que não pretende afrouxar, mas sim tensionar diante da própria dificuldade em desatar, e o faz com precisão, conduzindo o público por suas dúvidas e dores. Ao mesmo tempo, faz isso com um quê de leveza que talvez seja do ator, talvez seja da intenção de como dar a ver o que se coloca em debate sem consensos, sem respostas fáceis.
Alguns dos parágrafos de Eu, minhas convicções e um moleque preto com arma na mão, o ensaio, surgem como gravações da voz do próprio Cristiano em Eu, minhas convicções e um moleque preto com arma na mão, a peça. A escolha por distanciar a fala do corpo em ação talvez enseje que esse deslocamento faça com que a atenção do público se dê de outro modo para o que é dito. Algo se perde e algo se ganha nessa escolha que cria duas linhas de foco – a presença de Cristiano, as ideias sendo expostas; não há cisão, mas um certo risco de dispersão, e então é como se os pensamentos se enevoassem, como se a densidade do discurso se traduzisse na densidade da massa sonora da obra.
Nesse movimento, a voz do ator integra-se à arte sonora de Rocha, que opera o tempo todo com um desenho que pode parecer flertar com uma polifonia, mas resulta como superposição, acúmulo, amálgama. No trânsito entre as duas caixas, ruídos que podem ser interpretados de maneiras diversas e o preenchimento do espaço com citações sonoras e músicas mais ou menos reconhecíveis. Eu, minhas convicções e um moleque preto com arma na mão faz de sua encenação ensaística também um jogo de sampleamento – Capítulo 4, Versículo 3, ou Slippin’ into Darkness? – para além da trilha, com referências como uma entonação vocal de Cristiano que, em certo momento, parece evocar Me Gritaron Negra, de Victoria Santa Cruz no gesto de repetir a palavra “negro” de um trecho do texto. 1960, 1964, 1971, 1997, 2005, 2023, 2026: o que se reconfigura no tempo e como habitar terrenos movediços entre convicções e contradições?
A proximidade de Cristiano com o público é a proximidade de Cruz Silva com a situação – não só pelo vivido no momento do assalto, mas pelo vivido e pesquisado e politicamente articulado até aquele momento e depois, e além – e toda a plateia se vê implicada ali, diante de um homem negro, de uma cadeira vazia, de um policial negro, de uma porta iluminando um caminho sem fuga, de um moleque muito preto, de toda a história deste país. Diante de uma teatralidade política negra contemporânea que se faz no movediço, no incerto, no que se suspende, no espanto. No espanto diante de espelhos cujos reflexos são múltiplos, entre raça e classe das pessoas feitas personagens vividas, narradas, e das pessoas feitas espectadoras, testemunhas, partícipes.
serviço
EU, MINHAS CONVICÇÕES E UM MOLEQUE PRETO COM ARMA NA MÃO
07 a 28 de maio, quintas-feiras, 21h
4 ÚNICAS APRESENTAÇÕES
50 minutos
28 lugares
INGRESSOS SYMPLA - https://www.sympla.com.br/produtor/espacogarganta
Espaço GARGANTA
Rua Doutor Cesário Mota Júnior, 277 (sobreloja) - Vila Buarque
ficha técnica
EU, MINHAS CONVICÇÕES E UM MOLEQUE PRETO COM ARMA NA MÃO
Texto: Evandro Cruz Silva
Direção: Lucas Mayor
Com: Rafael Cristiano
Arte Sonora: Gustavo Rocha
Produção: Maisa Castro
Identidade Visual: Rafael Cristiano
