dança, destaque

essa palavra-nome tão bonita

carta de amilton de azevedo para Andreia Pires, que cria e dança Clemente.

Andreia,

essa é a primeira vez que anuncio para uma destinatária que vou escrever uma carta pra ela. isso deixa tudo meio diferente – não sei se por isso que demorei uma semana pra começar, ou se foram outras coisas. sempre tem muita coisa acontecendo, sempre tem alguma ausência nos cercando. sabia pouco de Clemente antes de assistir. sabia que tinha algo de luto. leio no programa que o desejo da criação nasce da passagem de sua mãe, Ivoneide Clemente. penso no tanto que tenho sido nesses últimos meses, desde a passagem de meu pai, Amilton Monteiro de Oliveira. 

você, ao lado do Vinicius, fez essa linda e estranha dança para – ou a partir – de sua mãe; eu, desde janeiro, carrego no meu olhar e nas minhas palavras o que fica do meu pai. talvez, mais diretamente, tenha escrito para ele um texto/crítica que chamei de procurar, perder. e é um caminho meio tortuoso, o do texto, o da sua dança, esse de fazer convocar escavar mover a vida que fica.

não ia começar a carta assim, mas aconteceu. gosto de escrever como se fosse a punho, deixando a mão passear pelas palavras e sem voltar muito pra edições, talvez uma ou outra reescrita como quem rasura o papel, mas seguindo. há muitos meios de criar movimentos, alguns até estáticos. gosto de como você está distante de nós no início de Clemente. há toda uma escuridão até a sua posição naquela sala. algo de hipnótico então nos seus gestos, o seu corpo vai se desenhando outras formas, perco um pouco os contornos da minha visão e desisto de tentar entender; abandonar um pouco a lógica, abrir espaço para um incerto. braços sem cabeça, corpo se fazendo geometria. a distância distancia, nos faz testemunha, e então os sons a respiração as sonoridades – súplicas suplícios lamúrias lamento clemência. clemência. clemência. clemente.

Clemente, esse nome-palavra tão bonita.

lento e subitamente o surgimento da pá. escavar é questão de equilíbrio e você se torna em vários ângulos uma figura totêmica; ao longo do todo da obra olho ali para os gestos como quem vê alguém operando dentro de um transe, no sentido em que percebo o quão preenchida cada ação, o tanto de sentido que há a cada instante ainda que eu não o capture. a pá me parece totalmente imaculada no momento que é feita de espécie de coroa, uma pá que nunca viu terra, mas depois quando ela está no chão parece gasta pelo tempo. talvez tenha sido pelo próprio tempo em que você a equilibra. em Clemente escava-se o ar, a luz, fragmentos de tempos coisas vidas imagens.

e você se aproxima, você cavalga, você búfalo, avançando somente entre recortes, incapturável, entre afiadas lâminas da luz do Jimmy, e a cenografia da Aurora, esses reflexos que não me soam como espelhos mas como matéria telúrica, cobre, metais, terra, um fundo uma coluna um céu.

me peguei pensando na volumetria das coisas. da densidade de um cubo feito de luz. de uma trilha sonora cujo silêncio me demoro a perceber. de chapas reflexivas. de um figurino. de um espaço vazio. de um corpo. de um corpo espaço vazio. de um corpo de luz. de um corpo sonoro. de um corpo reflexivo. o volume da ausência, do que vibra como o semear e pulsa como a falta.

já meio distante no tempo, remexo as memórias por entre minhas anotações. “você sumiu e te quis de volta aí te ouvi”, escrevi para lembrar, e lembro dessa imagem sem muito contexto, um desvio para a escuridão e quase levantei um braço desejando puxar você de volta ao mundo do visível – aí te ouvi, acalmei. Clemente é onde você também se faz falta(r). plantio e repouso / trabalho e cansaço / espera e ação / viver e morrer –nesse soterramento se fazem desses binômios acúmulo. um longo cabelo, um infindável tecido: você opera materialidades que revelam e (se) ocultam, e nos espaços do espaço habitam invisíveis que se fazem também vazios.

Clemente é todo tempo outro, e nesse sentido foi estranho para mim o depois. no final da apresentação de estreia foi interessante ver seu contorno na contraluz, como que uma travessia de retorno ao ordinário, ao cotidiano. então saímos pela porta e pegamos os elevadores do Sesc Av. Paulista, e – ainda que bastante prazeroso – subir para o coquetel foi um contraste, creio que não estava preparado para o ruído da vida seguindo. Clemente me pediu um silêncio, e talvez até por isso eu tenha me tomado esta semana até escrever para você. tem algo que mexeu aqui que acho que nem consegui dizer neste texto, alguma matéria sutil, vamos ver como ela se move.

por aí, que a pá siga escavando fundo neste instável equilíbrio.

beijos,

amilton

serviço
Clemente
com Andreia Pires

Data: de 17 a 26 de abril de 2026.
Quinta a sábados, às 20h30. Terça (21/4) e domingo, às 18h
Acessibilidade: audiodescrição dias 19 e 21/04.
Local: Sesc Avenida Paulista (Av. Paulista, 119) – Arte II (13º andar)
Duração: 60 minutos
Classificação indicativa: 16 anos
Ingressos: R$ 50 (inteira), R$ 25 (Meia) e R$ 15 (Credencial plena).

ficha técnica
CLEMENTE

Direção: Vinicius Arneiro
Criação e performance: Andreia Pires
Trilha Sonora: Tom Monteiro
Figurino: Zé Filho
Iluminação: Jimmy Wong
Cenografia: Aurora dos Campos
Foto: Nicolas Gondim
Técnica: Tina Reinstrings
Produção: Corpo Rastreado – Keila Maschio