dança, destaque

esgotar o inesgotável (tenho estado meio triste)

amilton de azevedo escreve uma carta para Marcela Levi & Lucía Russo e todas as pessoas envolvidas na criação de I Míssil, da Improvável Produções.

Marcela & Lucía e todas as pessoas envolvidas na criação de I Míssil,

não conheço vocês; meu nome é amilton de azevedo, eu sou crítico das artes da cena (às vezes falo das ‘artes vivas’) e ontem, terça, dia catorze de abril, fui ver I Míssil. confesso que não estava no meu radar – meu foco principal é a cena teatral de são paulo e, bem, aí já tem bastante coisa, né – mas vi algumas pessoas postando stories comentando que tinham assistido. sou curioso e foram pessoas cuja opinião respeito, então me planejei e fui ver. em poucos minutos eu estava quase chorando.

vejam, eu tenho estado meio triste. agora há pouco, chegando em casa, em um desses relógios de rua apareceu uma mensagem assim:

“ARTE:

um hub de oportunidades”

(quando fui escrever, comecei a digitar ‘possibilidades’ no lugar de ‘oportunidades’) eu odeio a palavra ‘hub’. odeio especialmente porque eu nem sei o que isso quer dizer. demoliram o teatro de contêiner e o pulha do prefeito falou que seria um “hub de moradia”. um “hub de moradia” não seria… um prédio? enfim. ARTE: um hub de oportunidades. I Míssil me deixou triste porque toca profundamente na angústia desses tempos, ao menos eu percebi assim.

é preciso dizer que eu já andava meio triste desde antes. na segunda-feira, durante um Piquete (encontro para leitura e debate de dramaturgias em processo que a URGIA/plataforma de ações da palavra – que eu integro – propõe toda semana na Casa Farofa), um amigo querido, artista sensível e generoso, Diego Cardoso, falou sobre como aquele texto (da Muvuca de Teatro) levava para a cena algo que ele sentia falta: a desesperança da geração z, dessa geração, desse tempo; tipo aqueles memes da saquinhodelixo, melted, obqdc, enfim, e aí comentou algo tipo “é isso, o mundo tá assim, então eu vou fumar meu cigarro, tomar meu monster e ficar rolando o tiktok”. pedi a palavra na sequência e disse “Diego, você me deixou triste”. 

não conhecia o trabalho da Improvável Produções, então vou correr brilhantemente o risco de falar muita bobagem aqui, relevem o que é relevável. mas fiquei pensando no que fazer com o que fazemos. com o que não fazemos. com o que esperamos. com o que vimos. com o que vivemos. e senti bastante coisa, acho que senti mais do que pensei. senti um desespero, senti um desconforto, nunca tinha sentido tanto tempo só o meu lado esquerdo escutando, por exemplo. é incrível essa assimetria, aliás. a rotunda na lateral, o piano ali, quase a obra inteira no terço esquerdo do palco, a luz que vai banhando espaço vazio, a luz de serviço, a luz por trás da rotunda; como se estivesse tudo perfeitamente desbalanceado.

a caixa de som caiu bem em cima de mim, mas eu meio que já tinha visto ela ali e sacado que ela ia cair. bombas, guerras y lives de NPC. que porra de mundo é esse, né? assim, acho que toda época olha pra si e se acha muito maluca, singular e tal, mas essa nossa… caralho! ah, esse desbalanço todo me incomodou – e me incomodei por ter ficado incomodado – porque parece que nesses tempos escolher um lado do palco não é neutro. está tudo a esquerda. a suspensão, a repetição, o entretenimento, o vazio e o que se tenta preencher (de vazio).

aliás, vazio. curiosa demais essa escolha de só um quadrado no centro da imensa plateia do Paulo Autran. é porque é pra ver muito muito de frente? só de perto? não acredito muito nisso, pra ser sincero. quando a luz de serviço reacende e estão três performers posicionades no palco, vejo essa dimensão de uma plateia “cheia” mas vazia. o fora do palco é parte da cena, e tava lendo o que o Renan Marcondes escreveu no lá . textos para danças (a análise dele é foda, aliás, sei que vocês já leram) e ele diz que na sessão dele tinha alguém no celular no escuro e aí lembrei de quando vi O que fazer daqui pra trás? do João Fiadeiro e entre as cheganças no microfone, especialmente nas primeiras rodadas que corriam mais longe e demorava mais tempo, as pessoas conversavam na plateia como se ali nada estivesse acontecendo e fosse um tempo morto. 

impressionante que I Míssil mesmo no seu desgraçado esgarçamento não me parece ter um instante que alguém poderia ler como tempo morto – ok, algumas pessoas saíram no meio (eu amo quando isso acontece porque nos lembra que sim, podemos fazer isso) e devem ter suas razões, e suspeito que as razões estão ligadas com a proposição mesmo da obra. eu mesmo saí dizendo que não gostei. não gostei, fiquei triste (tô me repetindo né), é desesperador; e exatamente por essas minhas sensações digo tranquilamente que o trabalho é muito bom, sim, é interessantíssimo. mas penso sobretudo nessa tentativa de esgotar o inesgotável. scrolls infinitos. brainrot. novos emojis a cada mês. criador de figurinhas do whatsapp. sabrinas carpenter dançando juntas no fortnite. gifs, gifs, gifs. nada mais tem contexto, tudo é a síntese da síntese da síntese e não para nunca.

acho que enquanto eu escrevo esse texto deve ter uma música brasileira de putaria viralizando numa trend fofinha no leste europeu, sabe? até onde vai esse esgarçamento possível desses gestos, dessas composições? lembrei de algumas outras obras vendo I Míssil, tipo Grand Theft Hamlet – ali eles tão literalmente dentro do jogo, e a “interpretação” é limitada pelos gestos disponíveis em GTA Online, o que é bizarramente massa. mas em I Míssil esses corpos na minha frente se limitam deliberadamente de forma tão precisa que até o maluco vestido de alienígena que recita o alcorão no teste praquele Hamlet fica mais humano, vocês entendem? é incrível como I Míssil atravessa o vale da estranheza nesse sentido. De cara lembro do Felca fazendo live de NPC, essas coisas meio fora do lugar, acho que tem que fazer as coisas soarem meio fora do lugar.

numa hora eu lembrei da primeira temporada de Westworld, adoro a primeira temporada, abandonei a série depois, preciso voltar talvez, mas lembrei por causa do piano. quando o piano começa a tocar sozinho, eu dei uma risada alta. depois, me irritei com essa espécie de fantasmagoria. aí lembrei de Westworld porque me deu vontade que alguém desse um tiro no piano – ou o contrário. é incrível a capacidade desse trabalho de mover essas sensações. eu não aguentava mais, mas queria ver pra onde ia.

uns dois anos atrás, vi uma galera canadense, Project Alterdogs, apresentando uma performance duracional estruturada/improvisada numa praça em Montreal. chamava ALTERMUNDI e era uma pira: as duas performers eram avatares, e ficavam correndo em círculos, compondo imagens, vestindo figurinos, enfim, tinham uns universos pré-definidos e o que ficou muito forte pra mim ali é que elas usavam essas viagens do virtual pra construir mundos. esse lance de worldbuilding é muito forte, especialmente em comunidades online (mas não só né, tá todo mundo vidrado em Pokopia, que pelo que saquei é um minecraft com pokemon meio animal crossing e tudo é uma copy of a copy of a copy?).

aí me veio na cabeça o Roblox. eu não manjo direito, mas me fascina profundamente. tem terreiro no Roblox. tem briga de torcida no Roblox. eu realmente não sei o que não tem no Roblox. então, é o virtual, é limitado (agora ainda mais, ‘Felca devolve meu chat’ e etc.), mas tem um espaço gigante, absurdo, pra dentro desses contornos, construir as coisas mais inacreditáveis.

cada vez mais eu não sei o que a gente, gente das artes da presença, das artes vivas, faz com isso que nos cerca – essa espera pelo fim do mundo, por um futuro que tá vindo e não vem, essa virtualidade atroz, de velocidades inimagináveis e que vão ocupando nossos dias, mentes e corações. vocês, Improvável Produções, fizeram algo. algo que me deixou desesperado, algo que me deixou meio triste. tentativas. eu não gostei, mas que bom que assisti. é um baita trabalho, I Míssil. nessas articulações entre repertórios, criações, o que se fixa e o que se move, que entre adesão e rechaço a gente siga buscando encontrar (ou perder) alguma outra coisa.

um prazer conhecê-las sendo público em uma plateia quase-vazia,

amilton.

p.s. eu pretendia também falar de outras obras que mobilizam as relações entre feed e palco, digital e artesanal, scroll infinito e a suspensão da cena, acabou não entrando mas deixo aqui como referências que também povoaram a minha cabeça durante e depois da fruição. o Veias Abertas 60 30 15 seg como uma experiência que busca aderir a uma lógica e simultaneamente critica-la e, talvez, os trampos do Teatro da Matilha que parecem vir buscando dialogar com essa “dissolução festiva” da geração z – a Heloisa Sousa tem um textaço a partir de Foda-se eu onde ela desdobra coisas sobre o grupo; Tadzio Veiga, o diretor/coreógrafo da Matilha, foi um dos que postou nos stories que viu I Míssil e me fez ter vontade de ver (ou eu simplesmente fantasiei isso).

serviço
I MÍSSIL

Temporada: 01 a 16 de abril
Terça a Quinta, às 20h
Local: Teatro Paulo Autran - Sesc Pinheiros (Rua Paes Leme, 195)
Ingressos: R$ 50,00 (inteira) | R$ 25,00 (meia) | R$ 15,00 (credencial plena)
Classificação: 14 anos
Duração: 50 min

ficha técnica
I MÍSSIL

Concepção e direção: Marcela Levi & Lucía Russo
Performance e cocriação: Clara Alves, Lucas Fonseca e Martim Gueller
Assistência: Lucas Fonseca
Desenho de luz e direção técnica: Laura Salerno
Desenho de som: Levi, Russo e Gueller
Sonorização: Eduardo Joly e Felipe Arantes
Cenografia: Camila Schmidt
Iluminadores assistentes: Léo Souza e Andressa Pacheco
Cenotecnia: Paulo Miguel de Souza Filho
Montagem e apoio técnico: Matias Arce e Dara Duarte
Assistência de produção e divulgação: Morgana Olívia Manfrin
Apoio: Centro Coreográfico da Cidade do Rio de Janeiro / Secretaria Municipal de Cultura
Produção e realização artística: Improvável Produções