dança, destaque

voltar pra esse espanto

carta de amilton de azevedo para Renan Marcondes sobre A Primeira Dança, criado pelo artista para o Caixa de Dança – Coreografias no entretempo (Sesc Ipiranga).

Renan, querido,

enquanto via “A Primeira Dança”, lembrei de uma memória que não tenho. minha mãe me contou – e pedi, na noite de ontem, que ela me contasse novamente – sobre a primeira vez que ela me viu dançar. coloco em itálico, mas é precisamente o dançar, mesmo, da forma que você coloca de alguma maneira na palestra-performance: um movimento não-utilitário. quando ela estava descrevendo o momento, ela usou a mesma expressão. bem, ela é da dança, do corpo, né? enfim.

eu tinha um ano. caminhava no corredor da casa de uma tia, a cozinha à minha direita. para entrar nela, girei para a esquerda, 270 graus, e segui em frente. “fiz um bailarino”, mamãe conta que pensou. acabei não enveredando por aí, mas contando isso me faz achar que gosto da ideia de que meu olhar dança sobre as coisas – isto é, as vê para além de suas utilidades.

(nessa época que tudo é conteúdo e viralizam coreografias de tiktok, realmente, o que é a dança, né. eu mesmo sigo um cara que é um senhor que se grava dançando músicas das mais variadas, gosto muito. será que ele monetiza isso? espero que não, mas também espero que se possa viver disso, de dançar.)

também me lembrei, quando você fala de sua memória da bailaora no restaurante, de quando vi uma cena num museu que descrevi assim em um stories de instagram: “na galeria de pinturas francesas, uma criança no carrinho grita de forma contínua e estridente. eu a entendo completamente, é tudo espanto e assombro”. acho que tem algo disso em “A Primeira Dança”, não tem? de voltar pra esse espanto, pra um não-saber diante do que se vê, do que existe, do que se faz, do que pode fazer nosso corpo, do que já fez nosso corpo, do que não fará mais nosso corpo.

a infância, a velhice, esse entretempo (pra usar o subtítulo do Caixa de Dança) que é a vida. dançar como criar asas, o salto do Nijinsky, a colagem do Matisse, seus arquivos pessoais: é muito, muito bonito como você articula os materiais, Renan. e, quando dança, efetivamente performa o que palestra (acho que só decidi escrever essa carta pra fazer esse jogo de palavras). está tudo ali, sim, o tanto que você já pesquisou e pesquisa, na teoria e na prática, as técnicas que invariavelmente não deixam de habitar um corpo que as apreendeu, mas o brincar, o gesto de resgate, o pisar o mais forte possível. gosto que você não salta, ou ao menos não ficou na minha memória da sua dança ali você saltando. é chão, de algum jeito como era “Reconhecer e Perseguir” (2025), você e a Cacá, vocês da Pérfida Iguana e esse percurso tão interessante de pensar e construir chãos para dançar, trazer a história como possibilidade de performance e de crítica, eu escrevi isso quando falei de “Fantasias Brasileiras” (2024), fazer da obra também mediação; é generoso e é importante, gosto tanto das escolhas feitas a partir dessa proposta.

aliás os usos das imagens me lembraram um pouco uma coisa que você falou quando conversamos depois que escrevi sobre “Reconhecer e Perseguir”, sobre seu interesse no filme do Farocki por uma dupla exposição de imagens, duas coisas distintas ali coabitando o mesmo campo de olhar. em “A Primeira Dança” você faz outra coisa, o dado de palestra-performance enquanto estrutura, o diálogo mais direto entre o que sua presença, sua fala, está comunicando e o que vemos nas telas. ao mesmo tempo, quando você dança, entrando e saindo do enquadramento da filmagem, um Matisse com um fundo mal ajambrado, essa tentativa, depois de ter mostrado a pintura como fundo de sua tela, essa tentativa, algo de ingênuo, algo de deboche, um gesto de rompimento com a seriedade, talvez, não sei. e tantas vezes os vídeos trazendo corpos sem rostos, tanto o seu quanto na hora do passo da inveja (adoro esse nome, que maravilha essa ser uma “primeira dança” registrada), fico pensando nas pessoalidades, no que um corpo traz de assinatura que prescinde de um rosto, talvez, não sei.

e aí tem aquelas coisas outras que também ficam com a gente, lado a lado com as outras coisas. saí com a impressão de que você cita o capacitismo de um pensamento onde a dança começa com “o passo” sem se isentar disso, o que é interessante. fica um certo ruído, uma contradição no ar; tanto do que é falado é desenvolvido e isso, pelo menos na minha fruição, na minha memória da fruição, fica ali, um dito, um apontado. aí me reverbera quando você decide que seus giros de joelho sobre a cama ainda não são sua primeira dança, será que tem a ver? ao mesmo tempo, vai na direção de sua agência em torno de como você quer escolher ter debutado, que primeira dança é essa que te apresentou pra esse mundo, pra esse mundo tão belo. 

e então o copiar e colar, a imitação, um tentar-sem-entender, fazer incompleto, um quê de fracasso no emular com exatidão. e aí é linda a primeira dança de “A Primeira Dança”, que é meio que a única dança, onde tudo se conecta entre silhueta transe brincadeira bater forte no chão técnicas indescoláveis ali foi uma macarena? matisse criança nijinsky velhice beleza horror sol bombas fogo sangue. parece que “A Primeira Dança” é uma obra que você poderia ter esperado décadas pra fazer o exercício do resgate – do pensamento, do corpo – mas ao mesmo tempo faz todo sentido ela ser feita agora, para seguir dançando em tempos de guerra, dançando além do pensamento, dançando além do corpo.

calhou de eu ser a primeira pessoa a entrar, e você está ali, recebendo o público, arrumado, lindo, cheiroso, cheio de vida, me abraçou, que maravilha. no final, você está ofegante, cansado, suor no rosto, um outro tempo para falar pela necessidade de respirar, os pés descalços, as pernas cruzadas em uma leve diagonal que deixa o par de sapatos flamencos em destaque na luz do Cauê (tão sutil e tantos recortes ali naquele auditório!), sentado no chão… a organização, o cansaço, uma história que se conta uma história que se move. ficou comigo uma imagem da última dança. e tem uma coisa aí, Renan: eu quero ver “A Primeira Dança” daqui uns sessenta, setenta anos. você vai ter que fazer de novo.

com amor,

amilton

serviço
A Primeira Dança, de Renan Marcondes

Apresentações: 10 a 12 de abril de 2026
Na sexta-feira, às 21h30, e no sábado e domingo, às 18h30
Sesc Ipiranga - Auditório - Rua Bom Pastor, 822, Ipiranga, São Paulo
Ingressos: R$50,00 / R$25,00 / R$15,00
Vendas online no site sescsp.org.br e presencial em qualquer unidade do Sesc São Paulo.
Classificação: 12 anos.
Duração: 50 minutos
Acessibilidade: espaço acessível a cadeirantes e pessoas com mobilidade reduzida

ficha técnica
A PRIMEIRA DANÇA

Concepção, direção, texto e performance: Renan Marcondes
Assistência de direção e coreografia: Carolina Callegaro
Trilha sonora, desenho de luz e operação técnica: Cauê Gouveia
Aulas e colaboração coreográfica: Ale Kalaf e Bibi Vieira
Cenotecnia: Matias Ivan Arce
Produção e fotos: Tetembua Dandara
Assessoria de imprensa: Pombo Correio
Registro em vídeo: Bruta Flor Filmes
Agradecimentos: Ana Teixeira, Artur Kon e Chico Lima
Produzido dentro do polo de criação Pérfida Iguana, nos anos de 2025 e 2026.


O projeto Caixa de Dança tem curadoria do técnico de programação Cléber Tasquin e curadoria convidada de Ana Elisa Mello e Samya Enes.

Sobre o projeto Caixa de Dança
A segunda edição do “Caixa de Dança – Coreografias no Entretempo" aprofunda a investigação sobre corpo, espaço e tempo na dança contemporânea, deslocando o foco para múltiplas temporalidades – cronológicas, simbólicas, ancestrais e espirais. Entre espetáculos, oficinas e conversas, o projeto propõe o tempo como matéria coreográfica, afirmando a dança como prática crítica, sensível e capaz de reinventar modos de perceber o corpo, a memória e o mundo.