destaque, reflexões, teatro

subir a montanha, descer a montanha

carta de amilton de azevedo para Elisa Band, diretora de DODÔ, da Ser em Cena – teatro de afásicos.

Elisa, querida. 

quando eu vi todo o elenco de DODÔ no palco, no momento dos aplausos, só pensava em uma coisa:

quanta tarefa.

e aí você pegou o microfone para falar, para avisar o público que encontraria o elenco do lado de fora – mais uma tarefa! caramba, muita coisa, muita coisa.

quando eu falo de tarefa, e foi essa exata palavra que me veio à mente, uso no sentido stanislavskiano, talvez, (confesso que esses estudos já estão um pouco distantes de mim) do que antes era traduzido como objetivo – da personagem, da cena, da peça. tarefa, aqui, escrevo como tudo o que engloba os desejos, intenções e realizações que envolvem DODÔ. o papel do processo para a vida daquelas pessoas, o papel do processo enquanto momento poético, de criação de linguagem, de proposições cênicas, de discurso ético, de discurso estético.

é evidente que não há nada de simples ou trivial na feitura, na apresentação, nas apresentações de DODÔ. fiquei pensando neste tanto que se mistura nesse fazer, nesses quereres; quanta tarefa. conheço muito pouco a Ser em Cena, agora visitei o sítio eletrônico, li um pouco, pesquisei afasia que é algo que já tinha ouvido falar mas na verdade não entendia direito (escrevi entender e lembrei do Manoel de Barros: ‘entender é parede: procure ser árvore’). 

fico pensando neste tanto, nesse lugar entre a reabilitação das pessoas, a integração social, a criação teatral. nas funções dos teatros, nas funções de um teatro, nas funções de DODÔ. corruptela de Godot, pássaro endêmico extinto, obra que parece gestar um novo bioma na cena. jogar com “um certo Samuel” Beckett, artífice da linguagem como linguagem, da espera como gesto, como quem brinca com o tempo; distúrbios da comunicação, distúrbios do tempo. DODÔ se faz lenta em suas entradas e saídas – aliás, não lenta, se faz em outros tempos. e não me parece ser “apenas” por necessidade (as aspas são porque se fosse por isso já seria o suficiente para sê-lo) mas por uma escolha estética.

nesse tanto de tarefas que me pego aqui pensando enquanto te escrevo. o trabalho da Ser em Cena tem o teatro como ferramenta de reabilitação, integração, sensibilização; é artístico, sim, mas é razoável afirmar que o pensamento é antes ético do que estético.

pausa aqui: estou tentando escrever essa última frase há alguns minutos, apagando e reescrevendo; antes ia colocar “a ética deveria preceder a estética em todos os processos artísticos” antes de falar sobre essa hierarquia que me parece pertinente nos casos de trabalhos teatrais com funções sociais. talvez eu esteja falando bobagem em dizer que é “antes ético do que estético”, talvez isso caminhe junto, talvez este seja um contexto (entre muitos) onde ética e estética são indissociáveis (deveria ser sempre assim?)

assim, a partir desta (minha) suposição, surpreende muito perceber DODÔ em sua elaboração formal. não me parece cabível lançar mão de análises que se fariam sobre espetáculos profissionais, visto não se tratar de um espetáculo profissional; há ideias mais interessantes do que outras, propostas que funcionam e outras que nem tanto, momentos divertidos, momentos bonitos, momentos e momentos. não vou desdobrar situações – realmente me parece absolutamente desimportante. 

tive desde o início a percepção de que estava diante de uma obra que dialoga com nossos tempos não apenas a partir de seus temas e questões de fundo mas especialmente por escolhas e riscos que tem povoado teatralidades contemporâneas – não-atores e corpos com deficiência em cena são “pressupostos” da criação por seu contexto; falo aqui das dramaturgias que se desenrolam nas cenas, falo aqui da encenação, seus tempos e movimentos. uma certeza maior em torno disso me veio quando, para repousar a escaleta, entra em cena uma tábua de passar roupas (e a partitura em uma estante tradicional). “ah, pode ser o que tinham na hora”, “talvez tenha sido a logística mais simples” – prefiro deixar justificativas de lado e assumir que foi uma escolha deliberada e buscar então o que isso comunica (uma palavra delicada, aqui, né?). e eu não sei dizer. mas sei que amplia minha estranheza diante de DODÔ

uma expressividade que permeia a encenação de modos diversos – uma cabeça que se vira espantada para a plateia ao som da trilha (e que trilha deliciosa do Peri Pane!); um homem carregando um pano para truques de mágica de sumiços e aparecimentos que se curva em reverência ao público, que aplaude a cena anterior. a expressividade dos corpos, de suas cicatrizes ocultas e das marcas que se veem no caminhar, no parar, no ser-estar.

na cena do discurso, uma senhora em uma cadeira de rodas apenas suspira. discurso. um suspiro. discurso. um suspiro. discurso. também um susto. discurso. um suspiro. discurso. um gato preto; um déjà-vu – eu nunca tinha visto nada assim. alguma parte de mim me levou pros trabalhos do Jérôme Bel, tipo Gala ou Disabled Theater; lembrei também do Hamlet do Teatro La Plaza, que veio pro Mirada 2022, dirigido e escrito pela Chela de Ferrari. e não porque eles se parecem com DODÔ, aliás eles não se parecem em nada. lembro quando vi o Bel (só vi em vídeo) que pensei sobre a exposição, e como lidar com a exposição. vendo a obra da Ferrari, pensei muito sobre como olhamos para obras dessas tessituras.

recentemente, durante a MITsp, acompanhei a PERFORMA12h; na minha crítica, tentei falar um pouco sobre uma sensação que tive – do deslocamento de certas manifestações artísticas e culturais para a programação de um festival de teatro contemporâneo, dentro dessa perspectiva da performance – mas acho que meu texto nem deu conta disso (vou deixar o link aqui, chama manifestar o (in)visível dos tempos) e é algo que eu ainda preciso elaborar melhor. trago esse exemplo porque hoje, vendo DODÔ no Teatro Sabesp Frei Caneca, pensei sobre as expectativas da fruição diante dessa obra. é algo que tá além da feitura, mas me parece integrar o processo como (bom) problema também.

(aliás, pensei nisso vendo algumas peças do circuito paulistano; como que artistas refletem sobre a articulação de seus discursos considerando quem irá efetivamente assistir?)

porque entre as muitas funções do teatro, existe a transformação social. existe o reconhecimento do igual e o reconhecimento do desigual. a percepção do outro. um caráter pedagógico. entretenimento. muitas, muitas funções, e elas se sobrepõem, coexistem, se misturam, se aproximam e se afastam, enfim, há espaço para tudo desde que esse tudo tenha um mínimo de ética e respeito (eu ia dizer “tenha bom senso” e aí pensei que seria uma escolha péssima de palavras porque “bom senso” é um negócio bastante em disputa).

muitas pessoas na plateia estavam lá para ver parentes, amizades, afetos, colegas, e isso faz parte e é bonito. outras pessoas, pelo que notei, vieram de escolas, ouvi de uma turma de EJA, reconheci alguns rostos que creio serem estudantes de teatro. assim faz-se um público heterogêneo – que alegria, né? – e estamos todes diante de uma obra que não é simples. aliás, nesse sentido, adorei o jeito que você escreveu o texto do programa, Elisa, o jeito que você apresenta brevemente “um certo Samuel”, um gesto de mediação importante ali, especialmente para o público mais acostumado com certas convenções teatrais, narrativas lineares, personagens, diálogos, histórias com começo meio e fim, e em DODÔ estaremos com o não-saber-o-que-fazer-agora o tempo todo. 

assim, uma obra já traz consigo expectativas. uma obra que é resultante de oficinas teatrais já traz consigo expectativas. uma obra que é resultante de oficinas teatrais gratuitas já traz consigo expectativas. uma obra que é resultante de oficinas teatrais gratuitas voltadas para pessoas afásicas já traz consigo expectativas. e o quanto que esperamos é teatro? o quanto desse Godot que não chega e se faz DODÔ é recebido pela sensibilidade da fruição de um produto artístico?

DODÔ habita muitas linhas tênues, eu acho, e você, Elisa, não é uma equilibrista. essas linhas de fios de diferentes cores, gramaturas, extensões são todas cerzidas nessa colcha toda imperfeita, com buracos e sobreposições, e por isso tanto está lá, com delicadeza e força.

e são muitas as pérolas.

a insistente resposta afirmativa seguida da repetição de um compasso de espera: sim, mas ainda é cedo e segue sendo cedo, troca-se a interlocutora, sim, mas ainda é cedo, essa já não tem tanta paciência, sim, mas ainda é cedo, e enquanto se cruza o palco, sim, mas ainda é cedo, e se recruza o palco, sim, mas ainda é ced… que chatice! e se quebra a suspensão que acabava de ser operada. é bonito isso de ser profundo mas saber não se levar a sério.

um homem canta enquanto desliza-flutua por todo o espaço em sua cadeira de rodas, e vibra, e recebe aplausos em cena aberta, e isso não o faz parar de cantar, de se mover, porque o tempo não é o do espetáculo, ele se dobra, se esgarça, o tempo é de cantar enquanto se quer cantar. dissolver a ideia de ápices, fugir do show de talentos, ser em cena, afinal, nos sons movimentos gestos palavras.

depois da morte deve ser muito ruim e DODÔ é de aproveitar aqui, mesmo quando tá difícil. em meio aos distúrbios de comunicação emerge outra comunicação. essa fala que se organiza de outro modo faz poesia, cria mundos em suas possibilidades. quase koans, que não se respondem; os sentidos são de outra ordem de compreensão.

algo entre o ser árvore de Manoel de Barros e o zen do budismo: antes do zen, montanhas são montanhas; enquanto se estuda o zen, montanhas não são montanhas; após o zen, montanhas são montanhas. e tem uma música do BIKE que chama A Montanha Sagrada, ela tem sete minutos mas só três frases compõem a letra toda:

subi a montanha para ficar mais perto do céu

subi a montanha para ficar mais alto que o céu

desci a montanha para voltar para perto dos meus

DODÔ, pássaro endêmico extinto, Godot que chegou mas não sabe direito o que fazer agora. e quem é que sabe. subir a montanha, descer a montanha. 

acho que era isso que eu tinha pra dizer (e olha que você nem perguntou), querida. desde o começo dessa escrita pensei em ser uma carta pública, mas não sei se publico. o que você acha? falei alguma bobagem que preciso corrigir? não faz sentido nenhum subir pro ruína acesa? me diz – aliás, só se quiser dizer algo.

beijo,

amilton

00:13 – comecinho da sexta-feira da paixão; 03 de abril de 2026

p.s. a Elisa comentou que não entendeu direito, que ficou sem saber sobre meu uso da palavra tarefa; então, nessa manhã de sexta, logo antes de publicar este texto, eu adicionei um parágrafo. é o que eu falo do Stanislavski.

ficha técnica
DODÔ

Direção: Elisa Band
Codireção: Nicholas Wahba
Dramaturgia: Elisa Band e Nicholas Wahba
Produção Executiva: Cláudia Niemeyer e Cássia Navarro
Coordenação de Produção: Igor Armucho
Figurino: Bia Rivato e Clarisse Valadares
Iluminação: Carlos Aleixo
Trilha Sonora: Peri Pane
Técnico de Som: Caike Carvalho Souza
Projeto Gráfico: Marcelo Xys
Divulgação: Igor Armucho
Elenco: Aida Kazue, Amanda Felicio, Ana Maria do Nascimento, Ana Matteucci, Ane Bona, André Mariano, Angelita Conteno, Camila Cerqueira, Carol Coelho, Carmelita Júlia, Ciro Felix, Claudemir Chimato, Cleyton Caldeira, Cyntia, Daniel Marques, Dagmar Sidinéia, Eduardo Yonamine, Érika Basso, Flávia Mazetto, Fernando Nascimento, Fúlvia Maroni, Gabrielle Cardim, Irlanda Semeão, Ivone Alves, Janaina dos Santos, José Nelson, Juliana Vesco, Leonardo Zenon, Louise Moura, Lúcio Augusto, Luís Sandoval, Luíz Alberto, Marcelo Sena, Maria Gracinete, Matheus Lombardi, Neusa Moratore, Nicolas Garcia, Paula Petrucci, Quelli de Andrade, Ramon Vinas, Reginaldo Almeida, Reinaldo O. Da Silva, Renato Gomes, Ricardo Yoshi, Ruy Fernando, Rute Brigante, Sandra Barroso, Sandro Coimbra, Sandro Correa, Sérgio Damari, Silvana Faion, Simone Martins, Suelen Martins, Tânia Matsumoto, Victor Hugo.
Realização: Ser em Cena