destaque, teatro

da xepa

crítica de Nitrido ou a dramaturgia de CAVALO, do Cavalo Teatro, com direção e dramaturgia de Laís Cafari, apresentada na 7ª Mostra de Teatro Heliópolis

Um cavalo é, antes de tudo, um cavalo. Animal quadrúpede, domesticado para servir de transporte de gente, de carga; feito servil por humanos no mundo do trabalho. Charretes eram mais comuns, e seguem sendo em determinados contextos – rurais, periféricos – para estes vários usos. Seu relinchar, algo de sua possível liberdade selvagem, e uma existência orientada pela exploração de sua força e capacidade, assim como suas misérias, inspiram Nitrido ou a dramaturgia de CAVALO, do Cavalo Teatro, capitaneado por Laís Cafari na direção e dramaturgia e Trinity na produção artística, cercadas por mulheres na equipe técnica e criativa e um elenco inteiramente masculino.

Nitrir é sinônimo de relinchar; a palavra flerta com nutrir em sua sonoridade, o que vai de encontro com desejos temáticos de Nitrido. Dentre uma série de assuntos, talvez emerja como central a perspectiva da alimentação e o caráter socioeconômico da fome, que surge na cena enquanto problema político. A dramaturgia de CAVALO faz do teatro xepa de feira e da xepa, teatro. O coletivo, formado por artistas residentes no Jardim Romano (renomeado Ururay, em operação contracolonial de retomada indígena), aponta para a diferença na qualidade de frutas e verduras que se vê nas manhãs e aquelas, vendidas mais baratas, já próximo à desmontagem das barracas. 

Há a realidade e há alegorias na encenação, e aqui já se pode ler uma delas: diante do sucateamento de políticas públicas culturais vivenciado atualmente na cidade de São Paulo, é como se às periferias restasse a xepa dos recursos. A escassez se impõe, e diante dela, artistas e grupos encontram suas tecnologias próprias para existir e dar a ver as formas de existência, representação e criação frente às circunstâncias que se apresentam. Assim, Nitrido é fruto de tradições de lógicas de produção criadas à contrapêlo do neoliberalismo e do mercado, com artistas de trajetórias distintas, mas muitas delas ligadas ao sujeito histórico teatro de grupo. Simultaneamente herdeiras do teatro épico e fundadoras de outras perspectivas e possibilidades da narratividade, a coletividade forjada para esta encenação compreende as tantas matrizes de composição cênica que habitam manifestações da vida cotidiana.

A feira se torna matéria inspiradora para a organização da cena, composições se fazem a partir da ginga da capoeira, do drible do futebol, do grau na moto, das convivências em vielas, de uma comunidade que vive entre os trilhos que cortam a cidade e as margens de um rio ainda sinuoso. Também os elementos da cultura hip-hop orientam a dramaturgia de CAVALO, não apenas com a presença de Janderson Fundação, MC habituado a rimar em vagões da CPTM, e seu flow que condensa e sintetiza o discurso da peça, mas contaminando os modos de cantar, contar, dançar, nitrir cavalo. 

Assim, a encenação se faz no encontro das vivências das e dos artistas com suas formações teatrais e inspirações. Nitrido é dramaturgia fruto do Jardim de Narrativas, projeto do Coletivo Estopô Balaio, sediado no Jardim Romano – Cafari integra o elenco de Reset Brasil, e seu primo Dunstin Farias é membro do grupo – e sua filiação é nítida no sentido de pensar sobre os modos de fazer e as teatralidades que nascem das especificidades daquele território, ao mesmo tempo em que o trabalho é profundamente autoral. A obra faz menções diretas ao Estopô, saudando os resets (além de Brasil, completam a trilogia Reset Nordeste, 2021, online, e Reset América Latina, 2026) e parafraseando Estilo de Quebrada, canção de seu primo, presente em A Cidade dos Rios Invisíveis (2014). 

Primeira dramaturgia e direção de Cafari, a ficha técnica é povoada por orientadoras e provocadoras, num gesto bonito de buscar parcerias e alianças para materializar sua concepção. Ainda, é auspicioso que a obra tenha sido assistida na 7ª Mostra de Teatro de Heliópolis: desde a primeira imagem há algo que ecoa das encenações assinadas por Miguel Rocha, da Cia. de Teatro Heliópolis, criadora da mostra. Uma aposta na força performativa de composições aproxima Nitrido de (In)justiça, estreado em 2019, assim como também reverbera algo de Quando o discurso autoriza a barbárie, de 2023. No primeiro caso, havia para além das imagens uma situação dramática ficcional que se construía e contava; no segundo, a aposta em imagens-síntese era o eixo dramatúrgico central.

Tais aproximações talvez se deem sobretudo pelo local onde a obra foi vista; é sempre interessante observar o que o espaço cênico da Casa de Teatro Mariajosé de Carvalho pode se tornar. Nitrido busca ali seus próprios caminhos, alimentando-se de muitos elementos já presentes nas cenas teatrais pretas e periféricas, compreendendo a necessidade desta nutrição e também encontrando as formas para encenar suas fomes, literais e simbólicas.

Em um bate-papo depois de uma apresentação de Favela de Barro – instáveis moradias em queda no Teatro de Contêiner (dentro da programação do a_ponte: cena do teatro universitário, em janeiro de 2025), um dos integrantes da Esquadrilha Marginália (Cubatão/SP), comentou que eles chamam a pesquisa deles de pós-épico. É uma perspectiva que talvez não encontre amparo conceitual em um sentido estrito, mas revela um posicionamento que deve ser levado em conta: como se nomeiam essas formas híbridas contemporâneas, evidentemente legatárias do teatro épico e da narratividade, marcadamente não-dramáticas, que integram a performatividade daquelas e daqueles que estão falando, cujo efeito de estranhamento talvez esteja na própria proximidade com o que se conta? Nitrido fabula sobre cavalos que existem e cavalos sonhados, imagens das janelas do trem, de terrenos baldios, de madrugadas insones; isso misturado e movido por um narrar da vizinhança, onde a camada política do discurso se organiza de modos amplos, variados, quase que em primeira pessoa.

O olhar de Cafari torna-se a matéria viva habitada pelos atores (narradores, performers), e aí também há algo de bonito em ver a delicadeza possível neste coro de homens, pois mesmo que a masculinidade não seja tópico debatido em Nitrido ela está ali naquelas imagens, naquelas forças. A dramaturgia de CAVALO também oscila entre o que se fala e o que se quase (fala). A ginga da capoeira se faz tecnologia de instabilidade na própria apreensão de tudo que se vê na cena. Um jogo entre ser cavalo e ser cavaleiro – e um jogo de palavras entre cavaleiro e cavalheiro – e então se transita entre o animal livre, o animal domesticado, o animal com fome, e o humano, o humano livre, o humano domesticado, o humano com fome, o humano que explora e o humano explorador. Tudo se desvela como possibilidade narrada, imaginada, desenhada na encenação.

Mover-se pela cidade, mover-se pela vida. Bem próximo ao início, uma passagem da dramaturgia fala do breu, e alguns movimentos se dão no limiar da iluminação de Nayka Alexandre: há algo a se explorar neste habitar as bordas, no jogo entre visível e oculto, essa liminaridade entre realidades, denúncias e sonhos. Nitrido integra a acessibilidade à cena com a presença de dois intérpretes de Libras no elenco, revezando-se na tradução para fazer da obra uma peça bilíngue. No bate-papo, o coletivo comentou sobre o desejo de trazer a acessibilidade junto do processo de criação, ainda que os intérpretes da apresentação assistida tenham chegado já com o espetáculo bem desenvolvido. As composições coletivas, assim, não restritas apenas aos intérpretes de Libras mas também ao elenco como um todo, se fazem com um certo grau de diferença, considerando possibilidades de cada corpo, suas experiências e trajetórias; há um campo possível de trabalho no assumir disso nos desenhos cênicos e coreografias, tornando este coro plural no como-fazer – nem todos, por exemplo, terão a mesma desenvoltura em um jogo de capoeira, e isso em si não é um problema; pode ser potência.

Há um momento em que os atores de Nitrido descascam e comem uma laranja. Brincam com as cascas, jogando um no outro. E se dão o tempo de chupar a fruta, se alimentar, se nutrir. Salta aos olhos o gesto de permitir demorar-se em uma ação, seja ela concreta, objetiva (ainda que comer não seja apenas uma necessidade objetiva), seja ela sugestiva, como uma coreografia – por exemplo, a alegria do futebol que vai se dissolvendo enquanto uma pequena bicicletinha rosa levita sem que criança alguma esteja a montando e pedalando. Fazer de um cavalete cavalo, fazer do acelerar motos invisíveis imagens de  montaria. Ocupar a cena com caixotes de feira, sacos plásticos. Falar de animais, de territórios, do alimento e da fome; falar de convívios, farturas e faltas.

ficha técnica
Nitrido ou a dramaturgia de CAVALO

Dramaturgia e direção geral: Laís Cafari. Elenco: Abraão Kimberley, Dante Preto, Janderson Fundação, Jefferson Silvério, João Carlos Pinto, Ricieri Palha e Will Belarmino. Atores substitutos: Mateus Jesus e Efraim Canuto. Coordenação de produção artisitica: Trinity. Orientação junto à direção: Lúcia Kakazu. Preparação corporal: Gisele Calazans. Preparação vocal: Tâmara David. Provocação corporal: Nina Giovelli, Verônica Corpo Santos. Coreografia “Das trocas”: Claudiana Honório. Coreografia “Capoeira”: Rafael Oliveira e Laís Cafari. Provocação textual de produção executiva: Lisa Ferreira. Assistência de produção: Jéssica Oliveira e Vini Ranieri. Criação e operação de luz: Nayka Alexandre Concepção de cenário: Laís Cafari. Confecção de caixotes e carrinho: Wanderley Wagner da Silva. Arte caixotes: Julia Morinaga. Figurinos: Mara Carvalho. Orientação de dramaturgia: Jessica Nascimento Olaegbe. Nutricionista: Melissa Tarrão. Designer: Tamii e Melissa Centurion. Fotografia: David Rodrigues e Nah S Prado. Comunicação: Isabela Escudeiro. Filmaker: Gustrago. Criação de Músicas: Abraão Kimberley, Dante Preto, Janderson Fundação, Jefferson Silvério, João Carlos e Laís Cafari. Faixa das "trocas": Lucas F Paiva. Agradecimentos: Coletivo Estopô Balaio, Cia Quatro Ventos, Luzia Andrade, Movimento Cultural Ermelino Matarazzo e aos moradores do Jardim romano.