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o teatro como trabalho, o trabalho como teatro

amilton de azevedo escreve para Anacarsis Ramos, do Pornotrafico, criador de Mi Madre y el Dinero (México).

La poesía, en fin, esa energía secreta de la vida cotidiana, que cuece los garbanzos en la cocina, y contagia el amor y repite las imágenes en los espejos. (Gabriel García Márquez, no banquete do Prêmio Nobel, 1982)

querido Anacarsis,

no sábado, dia seguinte à apresentação de Mi Madre y el Dinero no Sesc 14 Bis, quando revi sua obra, agora em meu país, no meio de uma meditação me veio à memória a história de Malinche. a conheci dentro dos meus estudos de teatro latino-americano por meio da dramaturgia de Victor Hugo Rascón Banda (1948 – 2008), La Malinche, de 1998. então, não a trago aqui, logo de cara neste texto, pra te acusar de malinchismo, termo que conheci há pouco em minhas pesquisas; muito pelo contrário. ela me veio primeiro como sua mãe, Josefina, uma mulher que fez o que pode por toda a vida e todas as circunstâncias que a cercaram; e que, com um homem espanhol, te deu a luz. 

depois, como você: um tradutor não de línguas, mas da linguagem teatral, sábio como a personagem de Rascón Banda já velha, interessada em reescrever histórias, dialogando com o estrangeiro mas ciente da brutal disparidade de poderes que se coloca em jogo. Mi Madre y el Dinero apresenta este tabuleiro e tua obra com o Pornotráfico é toda ela uma aposta no caráter negocial das representações. negociações. e inclusive campo que explora as frestas da negação da representação. ainda que sem abandoná-la. a despretensão que se faz estrutura do todo é absolutamente articulada pela sua pena e sua direção. é um ensaio a partir de muito ensaio, um aprendizado do improvisar que se fez da vida tornado cena. o gesto da sua encenação é inteiramente teatral, lançando mão de diferentes formas de teatralidade minuciosamente orquestradas. o teatro como trabalho, o trabalho como teatro. 

sua mãe corta o seu cabelo no início. esses dias vi um breve vídeo no seu instagram de vocês conversando sobre isso. tantas apresentações e o quanto se corta do cabelo e o quanto ele vai crescer neste tempo. ela revisita uma profissão enquanto atua em outra. Josefina e mais uma profissão dentre as tantas que a precariedade das nossas sociedades, subprodutos marginais e essenciais para a manutenção do capitalismo global, periferias que movem o centro, forçaram e forçam tantas mães e mãos a se submeter, a tentar, a seguir, a sobreviver.

no dia que assisti, sua mãe estava com a boca seca no início. talvez o ar de São Paulo, talvez um nervosismo que persiste mesmo após meses de turnê por todo o mundo. ela tosse e se desculpa com a plateia. o jogo íntimo, performativo, de mãe e filho, assume ali, naquele pequeno “improviso”, a plena consciência da cena. somos lembrados disso por Mi Madre y el Dinero a todo tempo, mas sua encenação também nos permite esquecer. dinheiro, afeto e materialidade; uma negociação, uma homenagem, uma celebração.

você, Anacarsis, Malinche, faz do teatro esse meio para levar a cena um discurso eminentemente político. o carisma de Josefina é contagiante, e lá está a plateia se divertindo, se emocionando, acompanhando as peças todas postas o tempo todo no tabuleiro-palco, percebendo a acidez, a crítica evidente, mas também sendo movidos por algo que continuamente corre por baixo daquilo. não podemos ser ingênuos, e Mi Madre y el Dinero é tudo menos ingênua, e a trajetória da sua mãe é dela, sim, conhecemos Josefina a partir do trabalho, mas quando o trabalho – os trabalhos, os inúmeros trabalhos – é o guia para falar de uma vida há muito mais em debate.

você nos conta do petróleo, da produção de riqueza e sua terrível distribuição, da corrupção, da concentração, da miséria. o cenário se faz propositalmente precário, talvez fosse uma necessidade pela dimensão da primeira bolsa recebida em Campeche, há sempre circunstâncias que nos escapam, que também podem ser falseadas na lida entre realidade e ficção propostas na criação, mas lá estão caixas e caixas, talvez de produtos tipo exportação, representação material da expropriação de um território, da exploração da mão de obra. tudo como negócio. 

lembro do Eduardo Galeano, falando de futebol, defendendo o futebol, a paixão, a festa e a guerra do futebol, dizendo que os críticos falam que o futebol virou um negócio, mas também o sexo virou um negócio, e o que podemos nós fazer? e o teatro é também um negócio, uma profissão, somos trabalhadoras e trabalhadores negociando produtos, produtos artísticos, por mais que soe horrível, há de se assumir esse caráter do nosso fazer. 

e isso se coloca logo de cara, na cena da negociação. em que momento do processo, dentro da sua ideia, te veio à mente que uma obra de um gay neurodivergente e sua mãe proletária mexicana seria a menina dos olhos de curadores espalhados pelo mundo? de onde nasce Mi Madre y el Dinero? é da reaproximação de um filho, do afeto, do teu desejo como artista, da tua observação do cenário atual, da circulação de espetáculos contemporâneos, a circulação simbólica e a circulação de capital? talvez de tudo isso ao mesmo tempo, sim, no fundo talvez nem importe; então a obra é o que é dentro de tudo isso, por tudo isso e contra tudo isso. 

gosto de olhar para obras que lidam com biografias a partir de suas perspectivas estéticas. de como, parafraseando Antonio Candido, a vaca virou croquete – ou o porco virou chorizo. li que alguém te chamou de “Édouard Louis mexicano”, acho engraçado, voltamos à referências europeias, como se fosse lá que surgiram as coisas, e eu adoro o Édouard, e sim, tem paralelos, a transposição de classe, encarar isso formalmente como possibilidade de criação e elaboração artística, e pra mim o que interessa é exatamente isso, como uma vida se torna obra. como se cria linguagem, como se opera na estrutura, na forma, na fruição.

e aí tem a mãe e o filho, mas tem mais ainda a atriz e o diretor/dramaturgo. Mi Madre y el Dinero usa expedientes reconhecíveis do teatro documentário, desde o reenactment (ou uma emulação disto, penso no diálogo da negociação, nessas conversas que correm no registro do real, do ocorrido) até os usos do vídeo, e aqui o verde chroma-key não será substituído por nenhuma imagem senão o próprio fundo verde; gravações do que suponho ser a casa de Josefina em Campeche, as projeções do Google Street View do mercadinho da família ao longo dos anos (ou de qualquer mercadinho que passou pelas mesmas dificuldades, vai saber), os cenários de águas, rios e chuvas, vazios, essas localizações do que se passa.

e então um karaokê de The Winner Takes It All em espanhol, vocês com aqueles sombreros, quase uma sacanagem de “sim, somos mexicanos, é isso que você espera”. Mi Madre y el Dinero oscila entre a narratividade e o performativo, vocês fazem e vendem linguiças, mais um negócio em meio ao teatro, é sempre oportunidade, aqui no Brasil é no Pix; e de repente uma cena melodramática, e textos projetados trazem violências não-ditas. 

quando vi a apresentação no Festival TransAmériques (FTA), em Montreal, fiquei profundamente incomodado com sua peça. te falei brevemente isso na época, não soube explicar direito, aquela plateia se divertindo tanto, e na hora que Josefina fala que sua vida é uma merda eu fiquei profundamente triste. aqui, entre os meus, escuto um amigo na fileira de trás rindo alto quando ela diz que sua vida é uma merda. é um amigo ator, que estes tempos publicou um stories no instagram com agenda aberta para trabalhos, e quase não cabia em uma imagem a quantidade de funções que ele poderia executar. estamos todos unidos pelo nó desta solidão, porque “hemos tenido que pedirle muy poco a la imaginación, porque el desafío mayor para nosotros ha sido la insuficiencia de los recursos convencionales para hacer creíble nuestra vida”, como disse o García Márquez ao ganhar seu Nobel.

nos irmanamos na crítica ao capitalismo – e alguém comentou comigo que em sua fala no FTA havia uma hesitação da pessoa que traduzia em falar “comunismo” –, na dureza da realidade do trabalho da arte, na miséria de nossas cidades e países, mesmo quando deveriam haver recursos para extirpá-la. um reconhecimento que nos faz rir e odiar juntos o sistema do mundo do trabalho, das dificuldades de viver nas periferias do capital, e há ainda o afeto, o carinho, um amor de mães e filhos, esse não-saber de onde tiravam dinheiro para pagar uma escola. essa linda e bela vida de merda que somos tantas vezes obrigados a levar. essa linda e bela vida de merda que encontra energias secretas no cotidiano, na cozinha. essa linda e bela vida de merda que, por tudo, apesar de tudo, contra tudo, faz poesia.