desrepresar
amilton de azevedo escreve sobre ÒKUN: Cura Mar de Dentro, do Grupo Identidade Oculta.
“As influências estéticas que regem o Identidade Oculta estão nas pessoas que acordam às quatro da manhã. É dona Santana que tem 98 anos. O samba, o jongo, o coco, o maracatu e as macumbas. Viola Caipira e Viola Spolin. A estética que nos atravessa são os atos cênicos do Nego Fugido de Acupê (BA), até o grupo Galpão de Belo Horizonte (MG). De João Guimarães Rosa a Djamila Ribeiro, tudo quanto é fonte refresca e sacia nossa sede.” (em Teatro de grupo em tempos de ressignificação: criações coletivas, sentidos e manifestações cênicas no estado de São Paulo)
O teatro nos leva a muitos lugares. O teatro pode ser – e fazer – muita coisa. No Grajaú, às margens da represa Billings, o teatro é ato cênico periférico, gesto de cura; cura pela arte, cura pela memória, cura pela fé, cura pelo encontro. Em iorubá, òkun é o oceano, mar profundo. São essas águas que o Grupo Identidade Oculta pretende mover em seu espetáculo-ritual. Algumas das apresentações de ÒKUN: Cura Mar de Dentro, oitavo espetáculo do coletivo, se iniciam com uma rota náutica, um trajeto do Lago Azul até o Cantinho do Céu. Em um pequeno barco, escutamos Paulo Henrique Sant’Anna contar histórias de árvores, de flutuares, de partires, de pássaros e raízes.
Antes do embarque, uma chegança com todo o grupo ainda no píer do Lago Azul. Era um sábado ensolarado, famílias passeavam, crianças, cachorros, jovens gravando vídeos curtindo a tarde; na outra margem, no Jardim Prainha, um funk tocava ao longe, dois jetskis cruzavam as águas, o dia preenchido de vida. E então o Identidade Oculta canta, introduz a travessia, faz sua roda, a gira girar. Então, coletes salva-vidas e sentamos, distribuindo nosso peso igualmente, alertados a não colocar os braços para fora – a responsável diz que está acostumada a fazer esse trajeto com crianças; mesmo com adultos, é bom relembrar, a água às vezes nos chama.
No breve trajeto, Sant’Anna nos conta das plantas que flutuam, das árvores que recebem casas de joão-de-barro, de quem já não está mais ali. A atenção também flutua, sobretudo para quem não está habituado com a paisagem, as casas, os parques lineares, quadras, pastos, matas, e o brilho do sol e o Rodoanel passando ao longe. Abafada pelo ronco do motor, também tenta se fazer ouvir a flauta transversal tocada por Carol Pfeffer. Essa primeira travessia, esses portais adentrados, gera uma expectativa desde antes – uma obra que começa com uma rota náutica! – e talvez fique um desejo de mais quando ela se finda: sendo a ideia original do projeto, e com tão poucas apresentações onde esse trecho se viabilizou, é compreensível que ainda haja um campo a se explorar em como habitar coletivamente este barco-tempo.
Então, perto de chegar, soa a buzina: há mais vida no píer do Cantinho do Céu, e pescadores e descansadores precisam abrir espaço pro barco atracar. Um evento acontecia por ali, o grupo já havia nos informado, não tem nada a ver com a peça; vejo um palco montado, muitas crianças, ouço e vejo de soslaio dois palhaços, ela se chama Alegria, o nome dele não me lembro. A interação entre eles é um gancho pra uma música, aquela do Homenzinho torto, e depois alguma criança fala para o palhaço fazer o passinho do jamal e ele diz que não conhece porque é um palhaço crente. É, não tem nada a ver com a peça, mas ao mesmo tempo tem, está ali, naquele mesmo território, naquele mesmo parque linear, naquele mesmo sábado, e talvez quem estivesse ali por aquele evento parou pra ver a peça, vice-versa, quem sabe, e também é difícil dizer que não há ali algo de cura. Outros modos, outras questões, outras crises.
Seguindo pelo caminho do parque, sou permeado por um desejo de que em todo movimento feito desde que ÒKUN começou houvesse cena, o público fosse continuamente envolvido, e então chegamos. Um palco circular de madeira bem à margem das águas, o grupo organiza uma diagonal para que a parte mais sombreada da plateia de concreto possa ser ocupada, o sábado estava bem ensolarado. Instrumentos dispostos, uma bonita carroça paramentada, e a composição, agora mais do que nunca, evidencia que os esmerados figurinos de Milena Nascimento e Pimzera (produzidos por Mile Lab) fazem do elenco seres d’água, encantarias desta fronteira de águas, algas, gramas, lodos, matas.
Entre a cidade e a represa, a obra é um contínuo convite ao desrepresar. Cura Mar de Dentro, liberar o que está contido, deixar fluir. O programa de ÒKUN nomeia suas cenas “estações” e parece uma forma precisa de ordenar sua estrutura: algo de episódico, quase antológico, onde cada momento se completa em si. Também no programa, o Identidade Oculta diz que “a construção dramatúrgica do grupo apresenta uma colcha de retalhos” e lá estão diferentes bordados, pontos, linhas que perfazem suas imagens-acontecimentos. Um entremear de rituais de cura de diversas ordens. Curar pelo contar, pelo lembrar, pelo cantar, pelo brincar, pelo abençoar.
Assim, ÒKUN, apresentado em um parque linear, é circular: se fica algo de uma impressão de que toda cena é uma chegança, é porque o Identidade Oculta insiste em começos. Quem está de passagem, mesmo que não pare, escuta, vê, sente algo que é ao mesmo tempo infindo e completo; quem vai embora antes e quem chega depois podem desrepresar-se, mover as águas de seu mar de dentro, mesmo se não acompanhar o todo. Evidente que a encenação é pensada em sua inteireza, e o que se oferenda, o que se diz, o que se propõe, vai permanecendo, reverberando enquanto o teatro se faz rito, se faz paisagem. É uma travessia, palavra que surge muitas vezes, assim como também a palavra-ação coragem se repete. Somos convidados a escolher nomes, soprá-los em uma garrafa, soprá-los no vento, levá-los conosco.
A força de ÒKUN reside em sua afabilidade. Nas canções e nas intenções, a intensidade do que se invoca e evoca não está numa voz e em presenças que atacam, mas na delicadeza. É como se a encenação pulsasse com seu entorno, com um dia de sol, com a ida e vinda das águas, com um cachorro que passa, com uma criança que brinca. Há nisso um bonito risco de que essa singeleza seja vista como fragilidade; talvez, para operar curas, seja mesmo necessário buscar uma forma vulnerável, também. A vulnerabilidade como abertura para o encontro, para o fazer, para o estar juntes.
São vinte e um anos de Grupo Identidade Oculta, nascido em 2005 no Programa Vocacional. É mais um caso, dentre tantos na cidade, sobretudo nas regiões mais distantes do centro, onde as políticas públicas para a cultura se mostram simultaneamente fundamentais e insuficientes: o grupo teve projetos realizados com apoio do Programa para a Valorização de Iniciativas Culturais (VAI) e com apoio do Programa Municipal de Fomento à Cultura da Periferia; e só ao completar vinte anos foram contemplados pela primeira vez pelo Programa Municipal de Fomento ao Teatro, em sua 44ª edição. O teatro nos leva a muitos lugares porque é feito em muitos lugares. O teatro pode ser – e fazer – muita coisa porque existem grupos atentos às suas comunidades, seus entornos, às margens de rios e represas. Grupos com a escuta aberta e a criação interessada em construir encenações que talvez escapem aos cânones, com teatralidades em diálogo com suas realidades, anseios e desejos.
Grupos, como o Identidade Oculta, que fazem de seu fazer processos artísticos de beleza e cura. Saúdam-se as tantas forças guardiãs e o teatro faz-se também espaço de oferenda e benzimento. Garrafas vazias à espera do sopro de um nome, doces para os Erês, um jongo brincado junto, a história da humanidade, como chegamos até aqui, o que fizemos e o tanto a fazer, águas de Oxalá. No final, mais um começo: suspiro é bori, doce (e) sensação.
“Amor e arte são duas palavras que, no lado de cá da ponte, têm sido buscadas e reconfiguradas em espetáculos, juntando sentimentos e prática. Trata-se de mudança de perspectiva, projeto de vida. Diz sobre fazer a curva no destino traçado pelas mãos do estado, desde quando o chicote pesava sobre as largas costas negras. A combinação de amor e arte na quebrada faz com que uma gente feita para não sonhar, sonhe! E sonhos deveriam ser um direito! Para nós, essa é a função do teatro.” (em Teatro de grupo em tempos de ressignificação: criações coletivas, sentidos e manifestações cênicas no estado de São Paulo)
ficha técnica
ÒKUN: Cura Mar de Dentro
Idealização, Dramaturgia, Direção e Concepção Artística – Paulo Henrique Sant’Anna. Elenco – Janaína Soares, Liliane Rodrigues, Frank Oliveira, Wilson Oliveira, Lay Pinheiro, Carol Pfeffer, Vitória Marques, Isabela Alves e Paulo Henrique Sant'Anna. Composição Musical – Paulo Henrique Sant’ Anna. Figurinista – Milena Nascimento e Pimzera. Produção de Figurino – Mile Lab. Cenografia e Construção de Adereços Cênicos – Frank Batula. Cenotécnica – Calu Batista e José. Confecção de Bonecos – Ateliê FonFinFan. Supervisora de Movimento Cênico – Jéssica Santos. Provocação Cênica – Ipojucan Pereira. Preparação Vocal – Fabiana Cozza. Oficina Corpo Brincante – Pedro Peu. Técnico de Som e Motorista – Carlos Silva. Coordenação de Redes Sociais e Comunicação – Janaína Soares. Assessoria de Imprensa – Nossa Senhora da Pauta. Designer Gráfico – Luís Fernando Barbosa. Social Mídia – Liliane Rodriguês. Fotos de Divulgação – André Bueno. Audiovisual – Isabela Alves e Vinicius Nevire. Preparação de Alimentação da Equipe – Laís Guimarães. Produção Geral e Executiva – Grupo Identidade Oculta. Coordenação de Produção – Janaína Soares. Assistentes de Produção – Ashley Martins, Alberto Oliveira e Carlos Silva. Parcerias – Meninos da Billings, CEU Navegantes, Casa Ecoativa, Parque Linear Cantinho do Céu. Realização – Grupo Identidade Oculta, Associação Cultural Cafundós, Secretária Municipal de Cultura, Fomento ao Teatro para a Cidade de São Paulo.
