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gênese da (própria) violência

crítica de Hétero Sigilo (RJ), dramaturgia e performance de Bernardo Dugin e direção de João Fonseca.

Artistas colocando suas vivências à serviço da cena não é novidade no teatro contemporâneo. Já há alguns anos, verifica-se a efervescência de solos autorais, biográficos ou autoficcionais – fenômeno também verificável na literatura. Uma certa hegemonia da performatividade frente à representação é quase ponto pacífico no horizonte atual. Geralmente, as narrativas apresentadas vinculam-se à trajetórias marcadas pelas violências encaradas por populações minorizadas e dissidentes – mulheres, negros, povos originários, pessoas com deficiência, pessoas LGBTQIAPN+ – e trazem, em seu ensejo, caráteres de denúncia, gestos de conscientização, gritos de pertencimento, manifestos pelo direito de existir. São obras muitas vezes vinculadas à funções sociais do teatro, com o potencial de operar suas intenções de modos absolutamente distintos, considerando as possibilidades de criar e desenvolver linguagens para contar histórias. Diante deste grande volume de espetáculos com tais características, é importante observar precisamente este como as escrituras de si tornam-se poética, matéria cênica.

Hétero Sigilo, trabalho com atuação e texto de Bernardo Dugin, talvez nos permita também perguntar para que este como se mobiliza. A direção de João Fonseca opta por uma formalização simples, onde o confessional dá o tom da interpretação precisa de Dugin, um narrador de si mesmo – do personagem que indica ter vivido, algoz e vítima de uma estrutura social heteronormativa, e de quem pôde, depois de adulto, se tornar. O intérprete conta de tantos “ontens”, mais ou menos próximos temporalmente, até chegar no hoje. Na cenografia de Nello Marrese, além de mesa e duas cadeiras utilizadas em diversas composições, um imenso espermatozóide suspenso é o totem da virilidade compulsória – aqui, inclusive, vinculada a um desempenho específico também da homossexualidade, performada de algum modo por Dugin.

No release do espetáculo, somos informados que o episódio de homofobia sofrido por Dugin em uma missa de sétimo dia, em 2023, compartilhada em certo momento de Hétero Sigilo, foi o disparador da criação. Há um caminho duplo a se inferir desta informação: o relato em vídeo do ator viralizou, levando-o a sofrer ainda mais violências para além das palavras do padre, processado, inclusive ameaças, e talvez esse imenso alcance possa ter sido a fagulha que o levou à idealização da peça; por outro lado, foi essa vivência profunda da violência homofóbica que talvez o tenha levado para as reflexões em torno de si e de sua trajetória. Apesar da profunda diferença entre cada sujeito, aos olhos da sociedade, um gay é um gay, um gay sempre será um gay.

Então, Dugin cria uma dramaturgia episódica, permeada por diversos momentos de sua vida, iniciada e encerrada por vinte e quatro gírias, eufemismos e palavras vexatórias utilizadas de forma ofensiva para se referir a homens homossexuais. A escolha por um contar progressivo de acontecimentos, reflexões e sentimentos corre o risco de desenhar-se como uma percepção reconfortante de um nexo linear entre tudo, uma lógica de causa e consequência que pode simplificar a complexidade da formação de cada subjetividade e apresentar uma resposta superficial em torno da gênese da (própria) violência.

Diferentemente da máscara utilizada pelo ator no início e em outras cenas, vinculada à práticas sexuais kink, a máscara que Dugin relata precisar ter vestido por tanto tempo não envolve consentimento na “diversão”. A forma pela qual Hétero Sigilo opera o seu compartilhamento privilegia o sofrimento do próprio ator, inclusive ao relatar sofrimentos incutidos a outras pessoas – (ex-)amigos de escola, garotas com quem se relacionou, travestis agredidas com jatos de extintores de incêndio. Dugin visivelmente se emociona em muitos momentos, e a aposta da obra parece acreditar que essa sensibilização no tempo presente e a vulnerabilidade desta transparência deem conta de fazer-se contrapontos das violências passadas. Falta um gesto crítico – não necessariamente uma autocrítica, mas um gesto estético, cênico, algum espaço para a fabulação, talvez – na construção do compartilhar desta construção de si. No modo que Hétero Sigilo se apresenta, a frase destinada ao pai do ator já próximo ao final do trabalho parece vincular-se ao próprio Dugin: “só aceitando a imperfeição da parte que somos, podemos sentir a perfeição da qual fazemos parte”. 

A dramaturgia do intérprete é permeada por frases que carregam alto potencial reflexivo e poético – “quando uma criança fecha uma porta, sempre abre um silêncio” – mas muitas delas, na tessitura da cena, resultam deslocadas: quando Dugin fala sobre a culpa que pessoas LGBT sentem, ele acabara de relatar um ato cometido por ele que não está associado a sua própria sexualidade, um ato que talvez exigisse de fato a sua responsabilização. Ainda, ao citar (sem nomear) Michel Marc Bouchard – “a gente aprende a mentir antes mesmo de aprender a amar” – somos transportados para o universo de Tom na Fazenda, dramaturgia mais famosa do autor canadense, onde a violência que permeia a encenação é motor para a contradição, para a indeterminação, para incertezas; o oposto que ocorre em Hétero Sigilo, onde tudo que se conta é visto como resultado quase matemático de uma sociedade estruturalmente heteronormativa e homofóbica.

Seria necessário um grande investimento na interseccionalidade a fim de verticalizar as discussões suscitadas pela dramaturgia de Dugin. Pode-se, com certa razão, dizer que neste caso tratar-se-ia de outro espetáculo, visto que aqui a escolha é nitidamente pela biografia, pelo confessional, pela intimidade; e a identificação que se pretende gerar com o público, majoritariamente composto por homens cisgêneros homossexuais na sessão assistida. É aqui que as perguntas do início deste texto retornam: para que a encenação de Hétero Sigilo se faz como faz? Quais as operações que se verificam neste compartilhamento? 

Quando conta de sua infância, a trilha de Federico Puppi traz É O Tchan! em uma versão de quarteto de cordas e a coreografia de Dugin é de certo modo comedida. Há algo de asséptico, higienizado ali. Logo no início de A Salvação do Belo, Byung-Chul Han pergunta “por que achamos belo, nos dias de hoje, o liso?” e, para buscar responder, fala das obras de Jeff Koons, “mestre da superfície lisa”, marco de uma sociedade da positividade, onde toda a negatividade é posta de lado. Talvez de modo semelhante, em Hétero Sigilo “(…) não há desastre, quebra, marca, risco ou costura”; tal qual o espermatozóide-totem, “tudo é arredondado, polido, liso”.

Ocultamento, opacidade, transparência, liberdade: a dramaturgia e a interpretação sensível de Dugin são bem-sucedidas em colocar em jogo o sofrimento dos processos de individuação em nossa sociedade, sobretudo no escopo da sociabilidade masculina, de suas performances e representações. Na aposta pela singeleza da biografia e na identificação do público com o relatado, falta ao todo de Hétero Sigilo um espaço para as fissuras, para o que escapa de conclusões diretas, para se aprofundar nas complexidades que atravessam a(s) existência(s).

serviço
HÉTERO SIGILO
Temporada: 1/9 a 28/10 de 2026 – terças e quartas, às 20h.
Local: Teatro Itália (Av. Ipiranga, 344 - Subsolo – República)
Duração: 75 minutos | Classificação: 16 anos
Valores: R$ 100 (inteira) e R$ 50 (meia)
Ingressos pela Sympla
Instagram: @hetero.sigilo24 e @bernardodugin

ficha técnica
HÉTERO SIGILO

Dramaturgia e performance: Bernardo Dugin
Direção: João Fonseca
Assistente de direção: André Celant
Cenário e figurino: Nello Marrese
Trilha original e direção musical: Federico Puppi
Direção de movimento: Vanessa Garcia
Iluminação: Daniela Sanchez
Identidade visual: Loomi House
Assessoria de imprensa: Catharina Rocha e Paula Catunda
Fotografia: Nil Caniné
Produção: O Delirante Produções
Assistente de produção: Azul Scorzelli