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decupar, dissolver

crítica de MONSTRO – tenho sonhado com homens, criação e performance de Sofia Maruci com direção de Vicente Antunes Ramos.

Entra uma perna. Uma mão. E então todo o corpo de Sofia Maruci. A atriz veste calcinha e camisa transparente preta, um sapato da mesma cor. Primeiro as partes do corpo, depois o todo, e assim como o figurino a iluminação também mantém um sutil véu por toda a encenação de MONSTRO – tenho sonhado com homens, permeando-a de erotismo. A obra que investiga o horror é erótica e preenchida de libido: uma tensão entre sexo e morte que marca o gênero dos filmes slasher, onde donzelas em perigo, sensuais e ingênuas, são perseguidas por homens assassinos. Homens monstrificados, distorcidos, mas homens.

Gênero fílmico e gênero como categoria humana: MONSTRO constrói um terreno pantanoso com as convenções estabelecidas, e o ato de decupar gestos aos poucos borram as distinções. Maruci tem sonhado com homens, homens que a perseguem por escadas, mas nesses sonhos ela também se torna perseguidor(a). A investigação do espetáculo dirigido por Vicente Antunes Ramos filia-o a um movimento já relativamente comum no cinema, onde artistas – sobretudo mulheres e pessoas queer – revisitam o terror sob suas perspectivas, compreendendo suas problemáticas mas sem abrir mão do fascínio e das marcas que produtos da cultura pop deixam na formação de nossa subjetividade.

Comprovação deste zeitgeist é a proximidade entre a estreia de MONSTRO – processo gestado há anos, com aberturas de processo realizadas desde 2023 – e o lançamento de Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte (2026), de Jane Schoenbrun, cuja filmografia já vinha abordando a temática destas marcas (que Ramos, em texto do programa, chama de ferida, num interessante “ato falho” de sua memória) supracitadas. A peça e o filme se irmanam em suas abordagens em torno do que fazemos com o que é feito conosco – mesmo que à nossa revelia. E se a comparação é inevitável, com coincidências difíceis de ignorar (como a imagem de uma saída de ventilação, que principia a atmosfera sombria de MONSTRO e é a característica principal do monstro de Acampamento Miasma), ela também é insuficiente.

Especialmente pois em MONSTRO – tenho sonhado com homens não há Outro: se em Miasma a jovem protagonista e a velha estrela encontram no assassino (e em uma à outra) um lugar para projeção, na criação de Maruci, que cita Rimbaud (“eu é um outro”) no programa, tudo habita o seu próprio corpo. Parafraseando Rilke, ela permite que tudo aconteça com ela, beleza e terror; e segue, pois nenhum sentimento é definitivo. Então, donzela e monstro, final girl e serial killer, Maruci brinca no tabuleiro construído por ela e Ramos de ser uma marcante scream queen.

MONSTRO é um jogo cênico, com uma imensa mancha de sangue no chão, um canto de casa de onde não se sabe quando virá o jumpscare, um abajur com sua pequena luz modulando as expressões da atriz, uma mesa que se move sozinha, um momento de interatividade – o horror do teatro! – e o suporte de imagens cinematográficas (com roteiro e montagem de Antonia Baudouin) que amparam a construção da corporeidade de Maruci. Assim, a cenografia de Pedro Levorin (que também assina figurino), as traquitanas de Marcus Garcia (que também assina dramaturgia sonora ao lado de Julia Teles, responsável pela trilha sonora) e sobretudo o desenho de luz de Matheus Brant, que persegue e é perseguido pela atriz, fazem de todos os elementos de MONSTRO peças cuja movimentação materializam o discurso da obra, pautado muito mais no insinuar do que no explicar, interessado no dar a ver das coisas que mobiliza.

Entre o horror e o humor, o que parece emergir como central em MONSTRO é uma certa instabilidade do controle sobre nosso desejo. Descrições de imagens, de partes do corpo, sonoridades, lugares que podem ser ocupados nas narrativas: se a obra estabelece com precisão e nitidez uma série de recortes é para que o amalgamar deles seja mais efetivo. A montagem de cenas projetadas que ampara as composições de Maruci – e cabe destacar a direção de movimento e voz de Beatriz Sano – transitam entre vítima e algoz assim como seu corpo, a entonação de sua voz, a intenção de seus gestos, e então depois de findo o vídeo há o que permanece nela, e as transformações de sua figura e da relação que estabelece com a plateia, da atmosfera que permeia a encenação. É sobre decupar para dissolver, fazer de si essa coisa múltipla e indomável.

Neste sentido, MONSTRO permite que Maruci se coloque de forma ambivalente, transitando entre as posições, ainda que talvez a transfiguração para a coisa-título da obra se mantenha mais distante dela do que o lugar de donzela – é verdade que, próximo ao final, o efeito da dublagem e da sobreposição de vozes faça dela mesma essa dissolução-pântano; algo como a criatura de Aniquilação (2018, de Alex Garland) que retém em si ecos de suas vítimas.

O campo do terror é quiçá um dos menos explorados no teatro. Seria possível pensar em um desinteresse, mas parece mais pertinente observar a dificuldade de criar tais atmosferas na cena contemporânea, considerando a necessidade da imersão na atmosfera e os usos da convenção ilusionista. Isso não quer dizer que não podemos elencar tentativas nesta direção, como Terror Noturno, de Preto Vidal, que fazia do teatro espaço do pesadelo (racial), ou Stalking – um conto de terror documental, obra que parte da perseguição real sofrida por Livia Vilela para jogar entre teatro documentário e fantasia, indo do terror à catarse. 

Por sua vez, MONSTRO – tenho sonhado com homens traz algo de palestra-performance, algo de autoficção e um mergulho na teatralidade possível para dar vazão a essa pulsão pendular entre morte e libido. Decupar, dissolver, brincar: extravasar o inominável do desejo a partir de contornos tortos daquilo que habita nosso imaginário; mobilizar referências, observar a ferida, abraçar o fascínio.

serviço
MONSTRO - tenho sonhado com homens

Temporada: De 7 a 30 de outubro de 2026
Dias e horários: Quartas e sextas às 19h30; quintas-feiras às 16h e às 19h30 (sessão dupla)
Local: Sesc Pompeia (Espaço Cênico) — Rua Clélia, 93, Água Branca, São Paulo/SP
Duração: 70 minutos
Classificação indicativa: 16 anos

ficha técnica
MONSTRO – tenho sonhado com homens

Criação e performance: Sofia Maruci
Direção: Vicente Antunes Ramos
Dramaturgia: Sofia Maruci e Vicente Antunes Ramos
Direção de movimento e voz: Beatriz Sano
Cenografia, figurino e desenho gráfico: Pedro Levorin
Dramaturgia Sonora: Marcus Garcia e Julia Teles
Trilha Sonora: Julia Teles
Operação de som: Henrique Berrocal
Desenho de luz: Matheus Brant
Assistência e Operação de Luz: Letícia Nanni
Roteiro e montagem audiovisual: Antonia Baudouin
Fotos: Mayra Azzi
Pesquisa Direitos Autorais: Sabrina Lima
Assessoria Jurídica: José Augusto Vieira de Aquino
Gestão e Produção: Dani Correia, Rachel Brumana, Veni Barbosa e Gabi Correia – Associação SÙ de Cultura e Educação
Agradecimentos: Complexo Cultural Funarte SP, 28 Patas Furiosas, Cia. Fragmento de Dança, Galeria Olido, Abraham Jacob Aflalo, Beatriz Bracher, Beatriz Torres, Bibi Dória, Caio Horowicz, Carolina Bianchi, Francisco Lauridsen Ribeiro, Gabriella Magno, Gabriela Miranda, Giovanna Monteiro, Janaína Leite, Marcus Garcia, Matheus Assumpção, Mauricio Battistuci, Paula Halker, Paula Serra, Preto Vidal, Rafael Sousa Silva, Tarina Quelho.