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mãe e filho conversam sobre a morte

amilton de azevedo convida sua mãe, Sonia de Azevedo, para uma conversa sobre a morte. diálogo a partir do espetáculo A Última Cena, idealizado por Flavia Melman, Paula Picarelli e Thiago Amaral. este texto faz parte do projeto arquipélago de fomento à crítica, com apoio da Corpo Rastreado.

amilton de azevedo: A minha ideia é que a gente grave essa conversa, hoje, dia nove de julho de 2023, falando sobre o espetáculo – que a gente viu faz umas semanas já, né?

Sonia de Azevedo: Faz tempo para mim, não sei quanto.

amilton: Foi na estreia, 23 de junho. Que a gente fale a partir dele e que também a gente brinque com essa ideia que o espetáculo traz, de falar sobre a morte a partir de pontos de vistas diferentes. Você é uma mulher de 72 anos. E eu, um homem de quase 34. E é isso. Eu gravo, depois eu transcrevo e edito um pouco.

Sonia: Filho, você edite o quanto você quiser. Porque se eu tiver que pensar que eu vou falar uma coisa que já é texto, eu não falo. Eu falo, você pensa no texto.



amilton: Então comece. “A última cena”.

Sonia: “A última cena”. Eu escrevi um livro. Chama-se “As muitas vidas e mortes de Sofia”. E a gente estava outro dia conversando sobre o luto. Então, na verdade, esse espetáculo – que eu achei lindíssimo – é sobre as perdas. As perdas ao longo da vida. E a última grande perda que é a morte.

amilton: E você também escreveu “Mar invisível – quando morre a mãe”.

Sonia: Sim, então… o tema da morte, para mim, é o grande e inevitável tema.

amilton: Eu fico sempre me perguntando se existem questões universais; que envolvem todas as culturas. E assistindo “A última cena” me ocorre que a morte é talvez o único tema universal, ainda que ela seja entendida de modos muito diferentes, é a única experiência que toda pessoa que já nasceu vai compartilhar em algum momento. E, como o Nando diz em uma cena, eu gostaria de estar muito lúcido para saber como é essa experiência única.

Sonia: A experiência da morte é danada. Mesmo se vivermos ela com lucidez, não podemos compartilhar nem contar pra ninguém depois. De certo modo, ela é engraçada vista por esse prisma. O espetáculo tem essa história maravilhosa, que eu gostei muito, da hora que você vai no velório: se você não entrou nunca andando, um dia você vai entrar deitado. Tenho impressão que em todas as culturas, de algum modo, existe um culto ao morto durante um período antes dele ser jogado no rio, queimado, enterrado… e eu acho mesmo filho, a única experiência da qual ninguém escapa, porque você pode passar por uma vida mais leve, sem sofrimentos – eu conheço pessoas que passaram por uma vida sem grandes sofrimentos, que morreram placidamente até; mas elas morreram. É o inevitável.

amilton: No posfácio de “A Morte de Ivan Ilitch”, do Tolstói, tem um trecho de uma carta que ele escreveu para uma tia quando ele achou que estava morrendo. Ele diz que “nenhum homem que já deixou a infância para trás deve deixar de lembrar da morte, nem mesmo por um instante”, algo assim, no sentido de que a consciência da morte traz uma clareza pro nosso viver cotidiano.

Sonia: Eu descobri a morte muito cedo, muito criança. Foi um cavalo que morreu, e eu vi ele caindo. Ele estava de pé embaixo da goiabeira e ele tinha sido picado por uma cobra. O cavalo foi tombando em cima da cerca, bem devagar. Caiu e parou. Não sei que idade eu tinha, devia ter uns cinco anos. Eu fiquei olhando aquilo, fascinada porque ele não se movia mais. Tenho a impressão que foi a minha primeira experiência com a morte. Uma queda longa, demorada e, de repente, a imobilidade. A imobilidade sempre me assustou. Foi a primeira vez, e aí eu tive uma infância cercada de mortes, muitas mortes. Mas é engraçado isso: eu não tenho medo de morrer. Eu tenho medo da imobilidade. Eu tenho medo da doença, isso eu tenho horror. Conforme o tempo vai passando e eu fico lembrando da personagem – que não é personagem, né? Que era uma pessoa real, o Tião, que morreu jovem. Eu perdi amigos, que morreram jovens. Mais jovens do que eu, na época. Eu tenho uma pena enorme, porque as pessoas morreram sem antes ter experimentado muita coisa da vida. E isso aparece no espetáculo: tem um homem que já tem 82 anos, que vive, viveu e ainda vive a sua vida e tem um homem que foi embora muito cedo. 

amilton: Mas você vê o momento que você percebe que você deixou de ter medo da morte, da sua própria, ou você sempre teve? Ou tem a ver com a sua idade?

Sonia: Pra mim, mais do que a morte, é o sofrimento, é a dor que assusta. Porque a morte é um ponto final. Acho que eu perdi o medo da morte quando eu tive uma arritmia muito forte. Eu mesma descobri que meu coração estava falhando. Fui ao cardiologista e falei “olha, meu coração está falhando” e eu estava com muito medo do coração falhar. Quando ele deu o nome para coisa, falou  “é uma arritmia, você não vai morrer disso”, eu pensei “bom, eu poderia ter morrido, mas eu não morri”. Acho que foi aí que eu comecei a perder o medo. E quando eu tive câncer, aí eu perdi o medo de uma vez. Que estranho. Eu não entendo isso.

amilton: Não é uma coisa racional.

Sonia: Não, de forma nenhuma. Quando eu fiquei sabendo do câncer, eu não senti medo. Era como se eu já esperasse aquilo, e aí eu saí na rua e fui ajudar uma pessoa – imediatamente veio alguém me pedir ajuda. Eu não tive tempo nem de chorar, eu fui ajudar a pessoa. E depois eu achei um passarinho que tinha caído da árvore, estava machucado. Na véspera da operação, fiquei cuidando dele. Eu não tinha medo. Gozado. Eu não entendo. Acho que o medo da morte é atávico, todo mundo tem algum momento, um pavor da morte. Tenho impressão, filho, que com a idade as coisas vão passando. A gente tem tantos sustos que… sei lá, meu pai morreu de repente. Isso foi um grande susto. Então eu tenho impressão que a perda das pessoas, como dizia o velho Galeano, é muito mais cruel para mim do que a minha própria morte, por exemplo.

amilton: Tem a frase do Garcia Marquez, né? “Então percebi que morrer é não estar mais com os meus amigos.”

Sonia: O Galeano diz que a morte do cachorro dele “cavou um buraco no meu coração”.

amilton: Na minha memória, a minha primeira relação com a morte foi a morte do meu tio Fernando. Meu avô já tinha morrido quando eu era um bebê muito pequeno. Minha avó também, mas ali eu era uma criança e ela era uma pessoa velha… e no caso do meu tio Fernando, não. Ele era o irmão mais novo dos três.

Sonia: Bem novo.

amilton: E teve toda a coisa da leucemia… eu tinha acho que 9, 10 anos, por aí e eu me lembro que meu pai contou na volta para casa, ele foi me buscar no colégio. Eu estranhei isso, porque eu já voltava sozinho. A gente sentou no topo do escadão, ali da Alves Guimarães, e ele falou que o irmão dele tinha morrido. E na minha cabeça de criança, isso meio que não operou nada naquele momento. Só foi cair a ficha, só fui entender exatamente o que era isso, no velório. Foi o primeiro velório que eu fui. Até alguns anos atrás, eu quase nunca tinha entrado em um cemitério. Porque eu não tive muitas perdas.

Sonia: É verdade, é verdade.

amilton: Tive mortes na família quando eu era criança, mas que nem cheguei a ir no cemitério. Acho que o primeiro corpo que eu vi num caixão foi o do meu tio. Aí, anos depois, teve a Luciana Magiolo. Essa talvez tenha sido a minha primeira relação direta com a morte, que me rasgou mesmo o peito… 

Sonia: Aquilo foi uma loucura.

amilton: Então essa coisa que o espetáculo faz, de você poder, num exercício de imaginação, pensar como você quer que seja a sua última cena, isso é muito rico. Isso é muito bonito, fazer esse exercício que a gente vê na arte às vezes. A Marina Abramovic, por exemplo, diz no “An Artist’s Life Manifesto” que o velório é a última obra de arte do artista, que ele deve deixar as instruções, tudo encaminhado.

Sonia: Bom, a gente viu agora o velório do Zé Celso, foi uma imensa encenação, de certo modo. E a Maria Alice Vergueiro, também, né?

amilton: A Maria Alice! Ela ficava fazendo o “Why the Horse?”, terminava dentro do caixão e até imagino que o desejo dela fosse que, de fato, ela morresse ali um dia. Imagina que morte linda, né? Celebrando o próprio velório, numa peça de teatro, você morre. Tem vários jeitos de lidar com a morte, com o rito, com a cerimônia; um deles é celebrar a vida. Depende também muito de como a pessoa morre. Fiquei pensando nisso, sobre a relação que a gente estabelece com cada morte. Lembrei daquele livro “A solidão dos moribundos”, do Norbert Elias. Ele descreve esse caminho da nossa sociedade; pensando nas mortes por causas naturais, seja a velhice, seja uma doença, você olha para períodos onde essas pessoas estavam num quarto e eram cuidadas dentro de casa, e as crianças da casa entravam e brincavam no quarto com a pessoa acamada, com a pessoa moribunda mesmo. Hoje a gente já não tem mais isso, é tudo higienizado, as pessoas vão morrer em hospitais, com luzes frias e as crianças não veem onde os avós estão. É tudo muito asséptico, né?

Sonia: A minha mãe ficou em casa até quatro dias antes de morrer e eu acompanhei aqueles últimos dias. Não é bonito de se ver. Ela estava desesperada naquele corpo e não conseguia ir embora. Então é muito doído a morte; acompanhar a morte.

amilton: Um outro lado disso é a banalização da morte por conta de violências. Tem uma parcela da população que vive em lugares onde pode, numa manhã qualquer, aparecer um corpo na calçada. E aí você tem uma proximidade tão grande com a morte que é como se a tragédia fosse o óbvio. A gente tem esses dois extremos. Por mais que seja um tema universal, tem atravessamentos de classe, evidentemente. 

E a gente se aproxima da morte muito pela morte do outro, não é? Em “A última cena” tem essa perspectiva: teve uma última cena durante o processo, a morte do Tião. Me parece que, inicialmente, a ideia era que o Tião estaria em cena nessa peça. Existia uma esperança de melhora, existia um tratamento experimental. E aí, o que acontece em cena, que é muito curioso, é que a gente tem o Janô, uma pessoa que tem menos vida pela frente do que já viveu, e o Nando, uma pessoa que convive há anos com um diagnóstico, cujo corpo vai aos poucos definhando – essas duas relações muito diretas com a própria finitude. Aí, uma relação que é profissional, do Fininho, que cotidianamente lida com a morte.

Sonia: Que é leve. É incrível.

amilton: E o Thiago, que traz essa coisa de ser um viúvo de 40 anos.

Sonia: É nele que existe a dor da perda.

amilton: Nele tem essa coisa das muitas mortes. A cena que ele vai naquele nicho no espaço – e isso no palco eu acho muito forte, essa cenografia da Marisa Bentivegna. Porque tem dois quadros brancos e um buraco.

Sonia: Um escuro, um buraco que não é nada.

amilton: Nada. E nos quadros tem uma coisa da temporalidade da peça, porque um deles não começa branco, já tem um desenho. Depois, no meio do espetáculo, o Janô vai arrancar aquela folha e fazer o mesmo desenho. E no quadro branco do centro, onde passam os vídeos do processo, pra mim, ele é, assim como a cadeira vazia no palco, uma coisa do que não está lá. Do que não está. Porque por mais que estivesse no processo, não está. O quadro também revela, nesses vídeos mostrados mais pro final da peça, um dispositivo sendo utilizado na encenação. Tem coisas que o Tião fala no vídeo que, sei lá, o Nando fala na peça. Tive essa impressão, talvez esteja até errado, mas eu tive a sensação de que eles fizeram no processo esse levantamento de material – muito íntimo – de cada um e depois eles foram permitindo que isso se contaminasse cenicamente; jogar essa cena de como o outro vê a morte, de como o outro espera que seja o velório. Aí, quando o Thiago está naquele buraco, ele traz esse relato das tantas mortes que ele viveu. E como ele está representando também um duplo, você nem sabe se todas as mortes que ele está relatando são dele, se são do Tião ou se é de algum outro do espetáculo, de alguém que participou do processo. “A última cena” me parece estar mais brincando com autoficção, do que com biodrama, por exemplo. Porque o compromisso não é com a verdade – no sentido do que eu particularmente vivi, vivo ou vou viver – mas é o que nós construímos e quais são essas cenas que vislumbramos, de morte, de enterro, de epitáfio, né? Acho que tem essa coisa.

Sonia: Mas eu penso, amilton, que essa reflexão sobre a morte e sobre o luto é uma reflexão sobre a forma como a gente vive, na verdade. É sobre a vida, esse espetáculo. Trata-se da vida. Por que? Porque eu conheço muita gente que não sabe sofrer. Parece incrível falar isso, mas não sabe sofrer no sentido de que não se permite ter o luto, afundar naquele escuro que é o luto. Nesse ano que eu escrevi o livro da minha mãe, eu estava profundamente desesperada – e não passava o desespero. É uma coisa estranha, porque eu sabia que ela ia morrer. Ela estava velhíssima, ela estava doente, ela estava precisando morrer. Viver o luto é uma coisa imprescindível; e a maioria das pessoas não sabe. Pra não sofrer, as pessoas se enchem de barulho. A nossa sociedade é barulhenta por conta do não-sofrimento. Agora, já dizia o velho Wilhelm Reich que por conta do não sofrer, também vem o não prazer. Então, quem não sabe sofrer, não consegue ter prazer. Porque é uma coisa visceral nossa. É quase biológica.

amilton: A atmosfera construída pela peça tem esse lugar do sofrimento e também um lugar de prazer, do riso. Sem esquecer que está falando de uma coisa que é apavorante – porque é apavorante.

Sonia: Claro que é.

amilton: Quando o Thiago desce para a plateia, começa a fazer as perguntas, é apavorante pensar sobre essas coisas, tanto que eu disse isso, né?

Sonia: Você foi ótimo, o que você falou mesmo?

amilton: A pergunta do Thiago era algo tipo “o que você faz quando é acometido pelo pensamento de que vai morrer?”. Eu, na hora, bate-pronto, falei “eu penso em outra coisa”. Tenho essa memória de criança de, no meio de madrugadas, começar a pensar na morte.

Sonia: Do nada, assim?

amilton: Do nada, antes de dormir, deitado na cama, naquela hora que os pensamentos estão…

Sonia: É terrível.

amilton: Eu ia construindo toda uma lógica, toda uma construção de pensamento, eu não sei quantos anos eu tinha, poucos, mas já também não era uma criança tão pequena. E ia assim: “a gente vai morrer, todo mundo vai morrer. Não, mas hoje em dia a ciência está avançando, então a gente vai viver cada vez mais tempo, vai passar dos 100, dos 200 anos. Talvez um dia, será que a gente pode ser tipo, imortal?”

Sonia: Gente, eu lembro disso.

amilton: Eu pensava em vampiros, essas coisas de imortalidade… e aí me chegava uma súbita realização: mas um dia o Sol vai explodir. Assim, em algum momento, as coisas tem que acabar. Não dá. Tanto que pra mim é muito complicado pensar em vida eterna, nesse lugar de “depois da morte a gente vai para uma outra coisa”. Eu acredito que qualquer coisa que possa acontecer depois é uma transformação tão poderosa naquilo que a gente entende por existência que eu não consigo conceber. É muito difícil pensar além da finitude, porque ela está dada.

Sonia: Não é possível pensar além da finitude.

amilton: Essa ideia de eternidade, ela é muito potente enquanto simbólica. Essa ideia do Zé Celso mesmo, o rito de eternidade do Zé. Essa eternidade do Zé não é o Zé; é a eternidade no sentido do legado, da celebração, daquilo dele que permanece.

Sonia: Que permanece nas pessoas.

amilton: Esses dias eu estava ouvindo o registro da Conversação Pública sobre o luto com a Claudia Barral, uma ação da Zózima Trupe dentro do processo de pesquisa deles (Trabalha_Dores: para que as histórias não sejam passageiras). E ela fala que o luto é uma reforma interna. É isso! Quando alguém vai embora, quando alguém morre, quando a gente abandona algum vício, quando a gente abandona um hábito, quando a gente muda, quando a gente perde algo do lado de fora, ele continua existindo dentro. Então o processo do luto é você fazer essa reforma interna, entendendo que algo que está e seguirá no seu mundo interno não encontra mais representação no mundo externo. Achei muito bonita a forma que a Claudia coloca, que tem a ver com essa perspectiva de eternidade: não é porque alguém morreu que eu vou deixar de pensar nessa pessoa, que eu vou deixar de fazer uma comida que essa pessoa gostava de fazer, de ir num lugar que essa pessoa gostava de ir. Mas vai acontecer algo comigo um dia e eu vou falar “nossa, eu preciso contar isso para fulano” e eu não posso mais contar porque ele não está mais aqui aqui fora.

Sonia: Isso é terrível.

amilton: Ele só está dentro. E essa questão de reforma é muito sobre como redirecionar essa libido, essa pulsão de vida de um compartilhamento, de um encontro, pra outra coisa, para outro objeto, para outra pessoa. Esse dentre esse fora. De novo, a gente está conversando sobre a morte, mas é muito inevitável ficar falando do luto, e não da morte em si.

Sonia: Porque a morte, para quem morre – se você morre de repente – é um raio que te passa. E acabou.

amilton: Pensar sobre a morte é tarefa dos vivos. Sofrer pela morte é tarefa dos vivos.

Sonia: Quem vai sentir falta são os vivos. E é lógico que a gente elabora. Por exemplo, a minha mãe. Ela morreu meia-noite, eu fui ao meio-dia visitá-la, olhei para ela, a morte estava ali. Não dá para explicar isso, mas é uma energia que não existe mais. É muito doido isso. Ainda assim, a hora que me contaram que ela morreu, foi como se explodisse alguma coisa dentro de mim.

É inconsciente, você não pode admitir o fim. E o espetáculo lida com isso de uma forma… a parte mais bonita – e pra mim tem duas partes lindas – é o Janô dançando. Como é lindo aquilo. Do nada ele começa a dançar. É um homem dançando com o tempo que resta a ele, perseguindo o tempo ou, sei lá, fugindo da morte. Não sei. Tem esse momento e tem um momento que o Janô começa a desenhar… que aquilo eu acho lindo. Eu nunca tinha pensado daquele modo. Eu vivo perseguindo a minha ascendência: minhas avós, minhas bisavós; escrevi sobre isso e agora eu estou querendo ir ao lugar de onde minha avó Gigi deve ter vindo, ou os pais dela vieram. E daquele jeito que ele coloca, é tão bonito, porque vem de muito longe, de não sei onde e vai até um sem fim, infinito, então, na verdade, você, eu, qualquer ser vivo, está ali, naquela viagem infinita. Eu não me lembro direito da cena, não me lembro do que ele falava. Mas sei que ruma ao infinito. E tem um momento na peça que alguém, não sei quem fala disso que é uma coisa que eu sempre pensei (no começo eu pensava de uma forma dramática, mas agora eu penso de uma forma engraçada): às vezes eu olho você, ou olho meus netos e penso “mas que merda, eu não vou ver quando a Bela se apaixonar, quando a Catinha for velha”, sabe? Tem uma coisa engraçada que é a consciência da finitude. Esse espetáculo traz isso para quem não pensa nessas questões – porque eu penso nisso desde que eu sou pequena – de uma forma ao mesmo tempo profunda e leve, é impressionante isso.

amilton: Você falou do desenho do Janô como se nascesse de um infinito e chegasse no infinito e é, mas para mim também não é. 

Sonia: Não é?

amilton: Para mim fica muito essa coisa de que em nós existem todos os que vieram antes. A vida de todos que vieram antes. Esse corpo é uma continuidade, um tempo muito maior que nós. Mas de certo modo, ele teve um início – que está tão distante para a gente – e existe um infinito dentro de nós nesse momento.

Sonia: Teve um início? A nossa história pessoal de vida teve um início, mas eu encarei aquilo como a história da humanidade.

amilton: Sim, mas é isso, e eu digo, ela teve um início.

Sonia: E por que que ela teve um início?

amilton: A vida nasceu em algum momento.

Sonia: E antes disso, era o quê?

amilton: Não sei. Talvez até mais interessante do que ficar pensando no que vem depois seja pensar no que veio antes.

Sonia: Desde que eu sou pequena eu me atormento. Tá, antes não existia nada. Ah é? 

amilton: E o que é que é nada?

Sonia: Eu tenho essa sensação exata de quando eu era pequenininha e eu vinha com meu pai para São Paulo e andava no Viaduto do Chá. Eu achava que a organização humana era exatamente um formigueiro. Lá em Cerquilho tinha muito formigueiro. Eu vivia fuçando os formigueiros; quando uma formiga morria, ficava um monte de formigas em volta dela, meio assustadas. É claro que eu projetava esse susto. Mas elas ficavam olhando. Do ponto de vista do Sistema Solar, da Terra, a minha vida não importa absolutamente nada. Se eu cair aqui agora, você vai ficar assustado, vai chorar. Mas e daí? O mundo segue. Eu acho que ao pensar na morte, você fica menos arrogante. Sempre achei isso. Eu via as pessoas brigando por isso, por aquilo; que perda de tempo.

amilton: Quando a gente coloca em perspectiva, quando a gente pensa na dimensão das coisas – que tem a ver com o desenho do Janô – quando a gente pensa que a gente está aqui por conta de uma sucessão de milagres, como a Hannah Arendt fala; que os milagres são improbabilidades estatísticas.

Sonia: E acasos, isso.

amilton: A gente estar aqui é resultado de milhões de anos de improbabilidades estatísticas. Aí quando a gente olha para a vida e para o que a gente faz dela, perdendo de vista a dimensão do que é estar vivo, tanto no sentido da dimensão miraculosa do acaso, da improbabilidade, quanto no sentido da dimensão do universo e do que é uma vida no universo, esses lugares do ínfimo e do infinito, eles fazem com que a gente olhe para a vida e pense “por que que eu tô discutindo no trânsito?”, “por que que eu estou estressado para escrever um e-mail”…

Sonia: Sempre pensei isso. Quando eu tinha onze anos, fui pro colégio interno. Era um dormitório gigantesco, tinham 40 camas. Eu escolhi a cama que era bem perto da janela e a janela não fechava de noite. Aí eu ficava deitada e olhava o céu. O céu de Itu daquela época era como o céu do Atacama de quando eu fui. É impossível alguém – que pense minimamente – olhar aquele céu e se achar de algum modo importante. Eu olhava aquele céu e eu chorava, chorava, chorava. Eu não sabia o porquê. Hoje em dia eu sei: ali eu tinha descoberto a minha finitude, a minha pequenez, o meu real tamanho. Eu não significava nada, a não ser o que eu podia construir em volta de mim. Isso te dá uma dimensão da sua pequenez.

amilton: Isso dialoga um pouco com o que eu penso ser a minha relação com a morte. O meu medo da morte está muito atrelado a não poder mais contemplar o mundo, sabe? E não que isso me dê uma gana de precisar fazer coisas, conhecer lugares, viver intensamente. Pelo contrário. Me dá um lugar de perceber que viver é uma coisa muito boa. Viver é uma coisa muito bonita. O mundo tem muita coisa. Claro, às vezes ele é difícil, a vida é difícil pra cacete, e a gente sofre. Mas a ideia, o conceito de existir me atrai muito. Pensar que um dia eu vou deixar de existir me deixa um pouco amuado.

Sonia: Você não lembra que eu escrevi no meu epitáfio? “Fui, mas fui contrariada”. Essa sensação é a que a gente está falando: vai ser uma pena. Eu sinto pena quando penso na minha morte. Eu sinto muita pena por mim, mas é uma pena risível, engraçada, até meio absurda, porque eu vou perder tudo isso.

amilton: O mundo vai mudar, vai se transformar, e a gente não vai estar aqui pra ver.

Sonia:  Embora ultimamente eu tenha pensado até com certo alívio que daqui a 50 anos eu não vou estar aqui. Porque eu acho que vai ser muito louca a vida na Terra. Eu tenho pena dos meus netos quando olho para eles. Por tudo.

amilton: Você falou da cena do epitáfio, e tem uma coisa muito bonita que o espetáculo faz. O Rodrigo Bolzan veio falar com a gente depois, dizendo que “foi muito gostoso ficar na cova do lado da sua”, porque tem essa operação desde o momento que o Fininho tá apresentando o lugar de trabalho dele, apontando para a plateia como se fossem os jazigos. É uma coisa muito sutil, mas aí no momento das pranchetas dos epitáfios essa percepção se efetiva: e a gente olha ao redor e vê aquele monte de plaquinha e é como se a peça construísse ali um mausoléu dos vivos. Essa possibilidade, porque os mortos não podem falar sobre a morte. Um cemitério de vivos.

Sonia: Nossa, essa hora é muito bonita e essa reflexão sua é muito bonita. Não tinha pensado nisso. Realmente, cada um levantando as placas, é como se fossem seus túmulos.

amilton: Registrando ali a última coisa a ser dita, que é o epitáfio. A última coisa que a gente deixa. Eu acho bonita essa ideia de você, vivo, escolher seu epitáfio.

Sonia: Lá em Cerquilho tinha um cemitério que era lindo. Nem sei se tem mais. E eu ia muito no cemitério brincar com os meus amigos, tanto que vi coisas que eu não devia. Mas era bonito e era alegre. E eu tinha uma imaginação desgraçada, eu enxergava as pessoas deitadas dentro dos túmulos, que a noite elas conversavam ou cantavam, alguém gritava depois que o cemitério tinha fechado e não tinha mais ninguém. Então tinha uma vida que continuava ali, uma vida das lembranças que as pessoas repartiam. Não é que eu achasse que os mortos falassem, nunca pensei isso. Mas eu pensava que era um lugar bonito, porque as pessoas podiam contar, umas para as outras, coisas que elas nunca tinham podido falar e tal.

amilton: Conhecer vizinhos novos.

Sonia: Você falou do público e me lembrei dessa imagem. Eu achava bonito o cemitério em Cerquilho. Quando escurecia, a gente caia fora rápido. Era a hora dos fantasmas.

amilton: Eu queria propor, para a gente terminar essa conversa, a gente pensar na nossa última cena. Porque no espetáculo tem isso, com perspectivas bem diferentes –  inclusive a narração de uma tal como ela foi, de certo modo, né?

Sonia: É mesmo.

amilton: E outras imaginadas mas próximas do possível; outras mais próximas do impossível.

Sonia: A minha última cena já foi feita. É um filme. Não é da minha imaginação, vem de ter assistido e falado “eu gostaria que fosse assim”. É a cena da família de Antônia, de “A Excêntrica Família de Antônia”. Começa quando Antônia acorda. Ela acorda, espreguiça, levanta, olha pela janela. Aí ela sai, dá água e comida para uns carneirinhos ou bezerrinhos, não sei. De repente, ela tem certeza que vai morrer naquele dia, que aquele é o último dia dela. Ela avisa a família, se deita, vivíssima, e diz: eu vou morrer hoje. A família começa a chegar, então tem a filha, depois dela tem a neta, tem a bisneta. Então vem todo mundo e senta. O último dia da Antônia, onde as pessoas estão todas juntas e onde ela tem tempo para lembrar de tudo que ela viveu. Ela vai contando como é que cada pessoa reagiria naquele dia, fulano vai chorar, fulano vai sair e se embebedar, fulano isso, fulano aquilo. E ela diz: a minha bisneta – e é lindo isso – vai sentar pertinho de mim e vai examinar, vai atentamente pesquisar como é que a morte vem. Vai pesquisar como é que a bisavó vai morrer. É maravilhoso. 

Eu gostaria que a minha morte fosse assim, que eu ficasse com vocês – e agora fiquei emocionada só de imaginar, porque vocês vão ficar chorando e eu também. E Antônia não estava doente, Antônia não sentia dor, eu adoraria que fosse assim, óbvio, já avisei vocês que eu não quero sentir dor. Todos em volta de mim. De repente, eu fecharia os olhos. E puf. Vocês que chorassem. E pronto. Adoraria, se eu pudesse decidir. Assim eu viveria esse dia. Eu acho essas essas histórias maravilhosas, porque elas dão conta daquilo que o Nando fala, de você ter consciência da chegada, da proximidade dela, temporalmente. Antônia percebeu isso ao longo do dia e quando o dia foi acabando, ela sabia que ela também estava acabando com o dia. Acho de uma beleza, é tão simbólico. Agora, você. A sua.

amilton: Até ver a peça, eu nunca tinha pensado, só de uma forma muito literal, sabe? Por muito tempo, pelo medo da morte, da chegada da morte, eu imaginei minha última cena comigo indo dormir. Sem saber, só deitando. Mas o espetáculo me moveu para outros lugares da imaginação. Quando a gente fala sobre a morte, nessa perspectiva, voltando ao final — digo, ao começo da conversa (voltando ao final é bom, né?); voltando ao final da nossa vida e ao começo dessa conversa, tem essa perspectiva universal, que a morte é o que todos nós vamos viver, mas ao mesmo tempo também é uma experiência absolutamente individual. Tem uma cena de “Donnie Darko”, um filme que gosto bastante, onde uma personagem sussurra no ouvido do protagonista “toda criatura viva na Terra morre sozinha”. A experiência da morte não é compartilhada, nunca é. A gente sempre morre sozinho.

Sonia: Como a gente nasce sozinho, também. 

amilton: Tá aí! Quando a gente nasce, não existe nenhuma fronteira; o “eu” é tudo. No momento que a gente nasce, não existe essa distinção; e o nosso primeiro trauma é isso, perceber que existe um “outro”, não é tudo eu. E nesse sentido, quando a gente conversa sobre a morte, quando a gente traz experiências, quando a gente vê pessoas que carregam uma morte muito próxima, seja pela velhice, seja por um diagnóstico, seja por um trabalho, seja por um ente querido que se foi, a gente pode ampliar a nossa experiência e perceber que, ainda que se passe por isso sozinho, a gente pode ir ouvindo e escutando as outras pessoas. Podemos nos apaziguar de certo modo e também imaginar as nossas últimas cenas se contaminando. Porque pra mim, depois de assistir o espetáculo, pensei: me atrai muito a ideia de uma última cena com uma casa cheia, fogos de artifício e uma cadeira vazia, onde contam as minhas histórias. Mas também me atrai a floresta do Janô e a floresta do Fininho – que são florestas opostas, porque o Janô quer escutar toda a natureza enquanto o Fininho quer o silêncio absoluto. Essas duas coisas me parecem lindas. A minha última cena hoje, imaginada agora, enquanto a gente conversava, talvez seja esse retorno ao momento do nascimento onde, completamente lúcido, eu me sinta mais uma vez integrado com tudo que existe. Sem sentir que existe nenhuma fronteira entre eu, você, uma floresta, o oceano, o céu.

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[colabore com a produção crítica de amilton de azevedo: conheça a campanha de financiamento contínuo para manter a ruína acesa!]

ficha técnica

A Última Cena
direção: Flavia Melman
codireção: Aline Filócomo e Paula Picarelli
estrutura de dramaturgia: Aline Filócomo, Flavia Melman e Paula Picarelli
elenco: Antonio Januzeli (Janô), Nando Bolognesi, Osmair Candido (Fininho), Thiago Amaral e Tião Braga (in memorian).
vídeos: Clara Lazarin
cenário e luz: Marisa Bentivegna
operação de luz: Guilherme Soares 
operação de som e vídeo: Tomé de Souza
direção de produção: Aura Cunha
produção executiva: Yumi Ogino
programação visual: Laerte Késsimos
foto divulgação: Otávio Dantas
assessoria de imprensa: Pombo Correio