teatro

falar (e fabular) sobre escolher o fim

crítica de O suicídio mais bonito do mundo, de Mariana Nunes e direção de Fabiano Di Melo, apresentada na Mostra Solo Mulheres do Teatro de Contêiner Mungunzá.

Em certo momento da encenação de O suicídio mais bonito do mundo, Mariana Nunes está no centro do palco e tem sua imagem projetada na parede por uma das três câmeras utilizadas na encenação. Além dela, vê-se a palavra ESPERA na projeção sobre o metal do Teatro de Contêiner. Nunes atua e escreve o solo que traz memórias e vivências da própria artista costurada à narrativas de suicídio – marcadamente os de Evelyn McHale e Elena Andrade. A obra convoca essas duas mortes, de jovens mulheres, para falar da vida e dos movimentos que envolvem a escolha de encerrá-la.

Há ainda quem pense que não se deve falar sobre o suicídio, pois assim correria-se o risco de incentivar outras pessoas a cometê-lo. O tema segue sendo tabu e é um grande desafio ir além do óbvio que o circunda. Debater abertamente a questão, seja a partir de dados biográficos, históricos ou fabulações, é fundamental para compreender o fenômeno de forma honesta. Quando Nunes compartilha – e não é possível apreender o grau de ficcionalização ali presente – episódios de sua vida, ela efetiva seu testemunho artístico diante do ato de tirar a própria vida.



As mortes de McHale e Andrade foram eternizadas na forma de imagens. A primeira teve seu corpo fotografado por Robert Wiles, e a insólita beleza da composição fez com que a foto ganhasse o mundo: é dela que nasce o título do trabalho de Nunes – o suicídio mais bonito do mundo. Já a segunda teve um olhar mais íntimo lançado sobre a própria vida: sua irmã Petra Costa realizou Elena (2012), filme onde a irmã mais nova segue os passos da mais velha e constrói um retrato poético sobre suas memórias e diálogos (im)possíveis.

Talvez por isso a escolha de Fabiano Di Melo, diretor de O suicídio mais bonito do mundo, de construir a encenação com a utilização de três câmeras e quatro microfones: na lida com a multiplicação das imagens e da amplificação de vozes, como narrativas singulares são compartilhadas e tornadas experiências coletivas?

Viver por vezes é mesmo um equilíbrio instável. Nunes faz de caixas de papelão pequenos monumentos de sobrevivências, além de também remeterem à caixas de remédios tarja preta e até mesmo fazerem as vezes de pessoas outras (com as artes visuais de Deserto Mental – Welton Sales). A artista dança como quem busca seguir – e a trilha, instrumental, parece caminhar por dois motivos principais, ora tendendo para o minimalismo, ora para o post-rock, como que um pêndulo entre duas forças.

É um corpo colocando em movimento as suas e outras dores na reflexão sobre os motivos que podem se acumular no ímpeto de manter-se viva – e no colapso de todos eles em meio à pulsões de morte. Na cor do seu vestido, não há espaço para o contraste: é a de sua pele, primeira camada de si e do tanto que revela.

O suicídio mais bonito do mundo se abre e se encerra com Nunes recriando, no espaço cênico, a imagem do corpo de McHale registrada por Wiles. A foto é também projetada. E a artista, na singela manipulação de um boneco, dá vida a ele apenas para materializar a triste beleza de uma queda. No bilhete deixado pela jovem norte-americana, o desejo de que ninguém visse seu cadáver. Ela não queria beleza; queria segredo. Falar de suicídio é tão importante quanto desafiador.

[colabore com a produção crítica de amilton de azevedo: conheça a campanha de financiamento contínuo para manter a ruína acesa!]

ficha técnica
O suicídio mais bonito do mundo

Direção: Fabiano Di Melo
Orientação: Nelson Baskerville
Atuação: Mariana Nunes
Texto: Mariana Nunes
Artes visuais: Deserto Mental (Welton Sales)
Assistente de Produção: Alana Vieira, Allana Santos e Andrea Doria 
Operador de Som: Luiz Guilherme
Iluminação: Fabiano Di Melo