cinema

a brutalidade e a beleza dos rituais

crítica de “Midsommar”, de Ari Aster, disponível no Amazon Prime Vídeo.

[texto com spoilers]

O subtítulo brasileiro de Midsommar (2019), de Ari Aster, é um tanto capcioso: o mal não espera a noite. Sim, nas festividades do solstício de verão da pequena comuna de Hårga, nos campos de Hälsingland (Suécia) nunca escurece. Só há noite, no filme, em seu prólogo: primeiro, um sobrevôo pelo que parece ser — aí sim — um sombrio inverno sueco. Na sequência, a trajetória de Dani (Florence Pugh): da preocupação com um e-mail assustador de sua irmã Terri (Klaudia Csányi) ao momento em que a tragédia familiar é revelada. É logo no início de Midsommar que está a cena que, dentre tantas perturbadoras, talvez seja a mais terrível. Ali, ainda é noite.

Nas cenas que seguem, compreendemos as características que definem os outros personagens centrais: Christian (Jack Reynor) é o namorado de Dani, emocionalmente distante e incapaz de terminar o relacionamento; Josh (William Jackson Harper), estudante de antropologia que está desenvolvendo uma tese sobre rituais pagãos ligados ao solstício de verão; Mark (Will Poulter), desde o início desenhado como um idiota, interessado apenas em sexo, drogas e festas; e, por fim, Pelle (Vilhelm Blomgren), criado em Hårga, anfitrião do grupo.

A fotografia de Pawel Pogorzelski — alinhada à montagem de Lucian Johnston — estabelece-se desde o início como importante elemento narrativo de Midsommar. Há uma consistência na liberdade de movimentação da câmera que ora é vertiginosa, ora se demora, no sentido de jogar com a relação do espectador com a trama: certos enquadramentos optam por uma distância segura, de testemunha; outros, lançam o olhar para dentro da situação, quase cúmplice do que se vê.

Há também um recorrente jogo com espelhos, desde o take onde Dani vai buscar remédios no armário até um dos assassinatos em Hårga, passando pelo transe da protagonista com cogumelos, quando vê sua irmã atrás de si no reflexo. É um recurso conhecido para jumpscares em filmes de terror; pela atmosfera construída por Midsommar, nem os poucos presentes seriam necessários.

Pois o que Aster faz é construir uma vila idílica para pousar os estranhos rituais desta comunidade. A fotografia de Pogorzelski em alguns momentos pode até remeter à de Jarin Blaschke em A Bruxa (2015, de Robert Eggers), quando volta-se para a estonteante natureza que circunda o local. De algum modo, também na lida com o gênero os filmes guardam semelhanças; ambos compõem atmosferas de terror psicológico mais do que efetivamente assustam, mas Midsommar flerta bastante com o slasher no desenvolvimento de seu enredo e, explícito, é também mais perturbador.

No roteiro, também assinado por Aster, rituais pagãos e cristãos de várias partes da Europa se misturam na invenção do autor: desde a presença de runas e a referência aos senicídios em ättestupas — a palavra sueca refere-se à precipícios de onde supostamente idosos se lançavam ao tornarem-se inúteis ou empecilhos para sua comunidade ou família — até a presença de um maypole, mastro erguido em muitos países para celebrações do solstício. Sacrifícios, incesto, ritos de fertilidade: em Hårga, a tradição ancestral ganha cores de um culto new age, com a presença de psicotrópicos naturais e a recorrência de êxtases coletivos.

Assim que os jovens americanos chegam no local, um deles compara o que vê com Waco (cidade americana no Texas). A referência é direta aos acontecimentos relacionados ao Ramo Davidiano em 1993. Depois de 51 dias de cerco à propriedade da seita, Monte Carmelo, após um tiroteio que resultou na morte de agentes federais dos EUA, um incêndio matou mais de setenta pessoas, incluindo David Koresh, então líder da seita, e vinte crianças.

O que se infere do comentário feito no filme é dúbio: Aster parece construir uma comunidade onde as pessoas vivem felizes com seus rituais e tradições ancestrais; não há ninguém que se apresente como um novo messias — caso de Koresh e de outros tantos líderes religiosos — e, no fundo, é de alguma maneira bonita a forma com a qual se apresenta a visão daquele povoado sobre a vida e sua relação com a natureza. Ao mesmo tempo, a referência explicita o radical choque cultural que se efetiva na vivência daqueles estudantes de antropologia com uma realidade absolutamente distinta a deles.

Fica evidente desde o início, sabendo se tratar de um filme de terror, que o primeiro a morrer dentre o núcleo principal seria Mark (antes dele, os dois jovens de Londres desaparecem após suas virulentas reações ao ättestupa), cujos modos o desenham como um turista quase predatório. Pouco aberto a conhecer de fato as tradições e rituais dos Hårga, está interessado apenas — e reiteradamente — em transar. Ainda que seu ato de desrespeito tenha sido involuntário, é difícil não compreender, em algum nível, o seu destino.

O mesmo ocorre com Josh. Se inicialmente ele apresenta-se como um curioso e respeitoso estudante, quer ser o dono da pesquisa sobre Hårga, não aceitando dividir seu trabalho com Christian. Seu assassinato está diretamente ligado à sua consciente traição da confiança dos anciões.

Parece mais interessante olhar para Midsommar a partir da jornada de Dani ao invés de focar nos que seriam parte deste mal que não espera a noite. Por mais que seja possível afirmar que a protagonista é paulatinamente coagida a participar das festividades, o que a leva ao seu posto de Rainha de Maio ao final do filme — e o fato de ser difícil discernir quando ela não está em transe a partir de certo momento — há também uma outra leitura possível. Dani é uma final girl às avessas, que escolhe não enfrentar o “inimigo”, mas de certa forma renascer com ele.

No e-mail enviado por Terri, a irmã da protagonista afirma que it’s all black (é tudo escuridão; está tudo escuro). Na dança ao redor do maypole que coroará a Rainha de Maio, a anciã relembra que aquilo é um desafio contra O Escuro (the Black One). O ser, que outrora enfeitiçou o povoado para dançar até a morte — há uma lenda antiga sueca que fala sobre a dança de Hårga — é agora confrontado pela vida pulsante daquelas jovens. Após vencer a competição, em meio aos habitantes do povoado, Dani sua mãe — e aqui, diferente dos momentos onde ela parece surgir em visões e pesadelos, ela está viva e bem.

Nas imagens finais de Midsommar, ainda que os acontecimentos sejam perturbadores, é como se Dani houvesse finalmente vencido a escuridão que assolava sua irmã e levou à tragédia que fragilizou completamente a protagonista. A viagem à Hårga e tudo que ocorreu desenha-se como uma tortuosa jornada iniciática que a faz não apenas enxergar a vida de um novo modo, mas deixar tudo mais para trás. Em sua decisão de sacrificar Christian, o derradeiro rompimento com quem ela era ou um dia foi; abraçando, ali, intuitiva ou involuntariamente, uma outra existência possível.

Christian arde com o templo, representando uma fera terrível a ser banida como forma de purgar os atos profanos da comuna cujo cotidiano, ritualizado, é feito por inteiro sagrado. O tempo, em Hårga, é cíclico. A vida segue o caminho das estações. Midsommar começa frio; Dani perde seus pais e sua irmã. No fim, o início do verão; Dani está em família.