teatro

o cuidado e as cores vivas de memórias e invenções

crítica de “Eu/Telma”, solo de Nicole Marangoni.

[com colaboração de Andréa Martinelli na edição]

Sororoca. A palavra, talvez pouco conhecida, remete aos últimos suspiros de um moribundo. É esta sonoridade que inicia Eu/Telma. Na sala ainda escura, o ruído respiratório é escutado algumas vezes. Nicole Marangoni, que concebe e protagoniza o solo, é o corpo e a voz por trás deste som de antes do fim. Ela fala sobre ele e sobre os cuidados que permeiam os momentos de partida. No tensionamento entre a vivência pessoal dos cuidados paliativos com seu pai, morto em 2013, e a construção de uma narrativa ficcional, nasce Telma, uma cuidadora de idosos.

A Sala Atelier do Aliança Francesa aos poucos perde sua frieza das luzes tubulares e o espaço vazio com piso de madeira se preenche com cores. O tapete, estendido pela atriz, e as projeções, espécie de videocenário sensorial (na ficha técnica, Yuri Cumer assina a luz) trazem vidas e vozes para a encenação de Marangoni. Uma cadeira de estofado gasto e um engradado repleto de flores completam o sintético cenário.

Abdicando-se da figura de uma diretora, Marangoni convida provocadoras cênicas para seu processo — Evinha Sampaio, Janaina Leite, Naiene Sanchez e Rhena de Faria. A artista costura os signos presentes na encenação com uma mão delicada e muito precisa. Os elementos se conectam e caminham junto nas atmosferas, palavras e ações.

Nicole Marangoni em Eu/Telma / foto: Fabiola Fanti

É inteligente e singela a maneira pela qual a história é construída. A potência da autoficção está precisamente no centro de procedimentos de Eu/Telma; na lida entre o singular e o plural, a complexidade subjetiva e a objetividade dos fatos. A construção ficcional de Telma torna-se um suporte para a compreensão destas pessoas que trabalham como cuidadoras — na maioria, mulheres — e, assim, vivenciam a proximidade do fim cotidianamente.

Porém, desde o início verifica-se esta positiva sobreposição entre memória e invenção; uma mescla que mantém tensionados os dados biográficos e a ficção. O jogo proposto por Maringoni é o de suspender certos entendimentos: estão presentes estatísticas sobre a morte, os tantos que se vão em tão pouco tempo; mas as constelações plurais que existem em uma vida singular não se quantificam. E para a cuidadora Telma, a narração do cuidado de idosos acaba se revelando diversa do cuidado com seu pai.

O pai fictício também não é passível de dissociação do pai de Marangoni, “que escolhia fazer o trajeto mais bonito na volta da escola”, como afirma no texto de agradecimentos no programa. A jardinagem como ofício do pai de Telma traz consigo a efemeridade das flores; das vidas, do teatro. O tornar-se amarelo da doença e da ida ao hospital é o tapete estendido sobre o qual essa história, experiência particular pluralizada, é contada. As paredes brancas ganham cores contra a artificial assepsia do antes do fim.

Elaborada depois de uma perda, Eu/Telma fala das dimensões do cuidado. Sobre antever o fim e os afetos que se desenvolvem na lida com algo tão delicado e definitivo. É também sobre a singularidade do sofrimento dos que estão para ir e, principalmente, dos que ficam. Por fim, já não se sabe qual voz que diz; um eu, um outro. Ainda que se morra sozinho, há muitas vezes com quem compartilhar esses antes do fim — o cuidado se dá em relação.

Nicole Marangoni em Eu/Telma / foto: Fabiola Fanti