coser (n)as lacunas
crítica de Elã – peça do Livro de Linhas, da Cia. Mungunzá de Teatro, com direção de Isabel Teixeira. este texto foi comissionado pela companhia.
Nos dias 21, 22 e 23 de abril, um mês antes de receberem a intimação para desocupar a área do Teatro de Contêiner, artistas da Cia. Mungunzá de Teatro estavam no ateliê Velho Livreiro, de Pablo Peinado, em São Bento do Sapucaí (SP), encadernando artesanalmente O Livro de Linhas. O livro “é uma teia esculpida” a partir dA Escrita na Cena® desenvolvida por Isabel Teixeira, que “estimula e sistematiza a ‘escrita no ar’ dos/das artistas”, conforme consta no breve texto de apresentação da publicação. O espetáculo Elã, com direção de Teixeira, é a Peça do Livro de Linhas, outra teia esculpida pela organização dos materiais.
Parece adequado dizer que Elã é uma peça dO Livro de Linhas. Pois nele, “são muitos pontos de vista”, como diz a Aranha em determinado momento (p. 117). Na Escrita na Cena®, artistas da Mungunzá construíram personagens, trajetórias, acontecimentos em ação, entre fluxos e devolutivas de Teixeira. E Elã, no palco, faz muitos convites à construção do(s) foco(s) de suas espectadoras e seus espectadores. Diante das oito histórias que caminham no trânsito de independências e costuras, nas complexas teias ora paralelas ora perpendiculares, cruzando-se mas também apenas existindo, é necessário “atravessar o deserto da desatenção”, como roga o Mágico (p. 25).
Há tanto para se perceber em Elã. Teixeira comentou que “somos multifocais, mas também estamos distraídos” (à coluna Mise-en-scène, da Folha de S. Paulo), sendo a peça “como um feed de ambiências e acontecimentos, quase sem pausa, que espirala até o fim”. Não parece possível, efetivamente, acompanhar a todas as linhas sendo tecidas diante do público. A atenção que se debruça na fruição de Elã é do tipo que flutua, passeia pelo tempo-espaço da encenação, naquilo que acontece, no que não acontece, no que está ali, no que não está.
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O nono espetáculo da Mungunzá em seus 17 anos de pesquisa cênica continuada é o primeiro que começa com cortinas se abrindo e termina com cortinas se fechando. Lá está o teatro, e também o metateatro, e um mágico, e a mágica – “e a mágica é ordinária”, diz o epílogo dO Livro de Linhas – do teatro, e Elã é sobre as histórias que contamos, das vidas que se vivem, que se veem, que se imaginam, que se fabulam, que se encerram. No programa da obra e também no livro publicado, a afirmação de que “Tudo é ficção”. Mas, também nos programas, uma frase de Hamlet: “O lance é a peça que eu vou usar pra explodir a consciência do Rei” (tradução que se aproxima da feita por Millôr Fernandes para o trecho “The play’s the thing wherein I’ll catch the conscience of the King”; a fala do príncipe que encerra a segunda cena do segundo ato).
Então, o teatro – é teatro, sim, contar uma (ou oito) história(s) –, mas objetivar tocar mentes e corações, “explodir a consciência do Rei” ao trazer realidade(s) para a cena. E diz a Ofélia dO Livro de Linhas:
“A imaginação é autobiográfica. Por mais que seja uma história inventada, ela vem das minhas células; da minha corrente sanguínea; do meu corpo; do que eu vivi nessa vida; em outras vidas; do que o meu corpo sabe que vai viver. Então, talvez, tudo isso seja uma grande verdade. Talvez tudo isso seja uma grande mentira.” (p. 129)
Para além de verdades ou mentiras, é bonito olhar para Elã pensando em reminiscências. A Mungunzá parece carregar em cada trabalho a linha sendo tecida pela sua trajetória criativa como espécie de assinatura. É algo mais-que-evidente na relação entre Cena Ouro e Epidemia Prata, onde a companhia se revisita para falar do que insiste, do que existe, mas também perceptível em outras ocorrências mais sutis.
Imagens, figuras, sensações de trabalhos anteriores coabitam o novo que se evoca por entre as mortes de Elã. Neste acúmulo parecem reverberar interesses e desejos individuais e coletivos, sejam temáticos, arquetípicos ou estéticos. Elaborações, funções, papeis; as próprias vidas e como elas se fazem arte. A pesquisa da Mungunzá é profundamente marcada pelas narrativas biográficas – inicialmente, “externas” ao núcleo da companhia: em Porque a criança cozinha na polenta (2008), as memórias da autora Aglaja Veteranyi; Luis Antonio – Gabriela (2011), é um documentário cênico em torno da irmã do diretor, Nelson Baskerville. Então, desde Poema suspenso para uma cidade em queda (2015) e em quase todos os trabalhos seguintes, a criação é atravessada pelas histórias pessoais de suas criadoras e seus criadores.
“Tudo é ficção”, em Elã, como o é no metateatro de Hamlet. Aqui, porém, a realidade emerge como obra aberta na cena: a consciência explode livremente a partir das associações feitas por cada pessoa na plateia. Cabe ao público coser (n)as lacunas do que se vê, costurando para si os sentidos das violências, velórios e mortes, compreendendo as lutas nos lutos e celebrando o novo que nasce de cada fim.
Pois, sim, evidencia-se o momento histórico vivido pela Mungunzá em seu processo de despejo, e, sim, há algo sendo velado daquele acontecimento (que é a criação e a manutenção do Contêiner) que parece estar chegando ao fim a cada apresentação. “Só não arranquem de nós, o Teatro!”, cantam; e o teatro é, sim, um espaço físico. Mas Elã, uma das teias esculpidas do encontro entre a Cia. Mungunzá de Teatro (Léo Akio, Lucas Bêda, Marcos Felipe, Pedro das Oliveiras, Sandra Modesto, Verônica Gentilin e Virginia Iglesias), Dilma Correa (atriz convidada, mãe de Marcos e Pedro) e Isabel Teixeira, não é documento apenas deste tempo.
Desde o início de Elã, seis quadrados de fita crepe marcam o chão. Quando o palco se torna uma academia e todos os espaços estão ocupados, Oswaldo do Morango faz mais um para que ele engrosse o coro: Resistiré, erguido frente a todo!, cantam com o Dúo Dinámico. Há uma atmosfera leve que perpassa toda a obra; crítica e comicidade caminham juntas como boas amigas enquanto Elã se reafirma, entre outras coisas, como uma peça de resistência. Resistiré, para seguir viviendo.
Ao mesmo tempo, em meio à descontração e a aparência de certa leveza, aleatoriedade e diversão, trata-se de uma obra que não hesita em trazer a violência para a cena. Em uma das fotos do programa, sob o limpador de parabrisa de uma Variant azul, um bilhete lista os lugares do mapa de Elã – rua, biblioteca, trincheira, academia, motorhome, hospital, cemitério, cozinha, teatro, cosmos – e também as armas presentes: bomba, revólver, bazuca-refletor, machado, pá. Tiros, explosões, sangues, capotamentos, machadadas. Entre mortos e feridos, Elã faz de suas teias pousos e voos para um tanto que há de violento no mundo. Parte disso se faz representar na cena, parte se vê na tela; e parte corre no que é dito, em violências narradas, discursivas, simbólicas.
Assassinatos, acidentes e suicídios cruzam as histórias como alguém atravessa uma praça no centro da cidade em um dia qualquer, e a Mungunzá aparenta escolher um contar que não julga. E se é a Aranha que busca tecer as narrativas, é o Andarilho que mantém o controle de videogame nas mãos: é dentro das imagens projetadas de um jogo que parte das violências se apresentam. O Mágico diz para sua filha, nas trincheiras da guerra, que “não queria te apresentar violência”, mas ama “jogar GTA com você”. Grand Theft Auto, o GTA em questão, visto no telão de Elã, é uma franquia de sucesso onde basicamente se cometem crimes (o próprio título referencia roubos de veículos) para progredir.
Há mais de dez anos, é possível jogar GTA de forma online, expandindo o modo multiplayer de Grand Theft Auto V. Durante a pandemia, artistas britânicos decidiram encenar Hamlet no ambiente do jogo. Em 2024, Sam Crane e Pinny Grylls lançam Grand Theft Hamlet. O documentário traz Crane e seu amigo Mark Oosterveen, ambos atores desempregados e confinados em suas casas em 2021, realizando os testes de elenco, ensaiando e, enfim, traz trechos do resultado, da apresentação transmitida ao vivo – que chegou a ser premiada no Reino Unido. Fazer uma peça de teatro dentro de um jogo conhecido por sua violência descontrolada. Contar, ali, uma história, em meio ao caos (não faltam cenas onde outros jogadores chegam e disparam rajadas de metralhadoras nos avatares de atores e atrizes enquanto ensaiam). Permitir que essas teias se entrelacem e brincar de fazer um Shakespeare com orçamento infinito.
Jogar com os limites da imaginação; fabular todo o (im)possível. Fabular a violência, permitir que ela perpasse narrativas de desejo e vida. Fazer um motorhome despencar montanha abaixo para que uma personagem crie asas para novos voos. Senhora Wings, Ofélia, Aranha, Animador de Velórios, Andarilho, Mágico/Homem-Bomba, Mãe/Dilma, Oswaldo do Morango: oito existências, entre nomes próprios, arquétipos e personagens, cada uma traçando sua própria linha em tempos que parecem escapar de qualquer cronologia. Também assumem outros papeis nas demandas de cada cena, funções para seguir caminhando pelo mapa de Elã, uma cartografia de encontros e choques; amores e dores fulminantes.
Quando Oswaldo do Morango surge em cena, está varrendo um palco, quase tomando choques em refletores. Entre tantos espetáculos sonhados, um sem-número se fez presente na teia que se teceu. Um tanto morreu, sim. Quando Oswaldo do Morango, ensanguentado, dilacerado, coração pisoteado, canta, junto de todo o elenco, sobre um andaime, uma composição coletiva preenche um espaço cênico tomado de acontecimentos; a imagem da felicidade antes contada. O teatro, a magia, “no olhar de uma criança, numa semente que teima em brotar”, como diz a Aranha no epílogo dO Livro de Linhas. O que deve ser regado, cultivado, imaginado. As cortinas de Elã se abrem para um teatro e se fecham para outro. Um tanto nasce.
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serviço
Elã, uma produção da Cia. Mungunzá de Teatro a partir do Livro de Linhas
Temporada: de 24 de outubro a 30 de novembro de 2025
Às sextas e segundas, às 20h; aos sábados, às 19h*; aos domingos, às 11h
Teatro de Contêiner - R. dos Gusmões, 43 - Santa Ifigênia, São Paulo
Ingressos: Gratuitos
Retirada de ingresso via plataforma Sympla - https://www.sympla.com.br/produtor/teatrodeconteiner
Ingressos presenciais distribuídos 1h antes de cada sessão.
Classificação: 16 anos
Duração: 120 minutos
Acessibilidade: espaço acessível a cadeirantes e pessoas com mobilidade reduzida
ficha técnica
ELÃ
Uma produção da Cia. Mungunzá de Teatro
A partir do Livro de Linhas
Direção geral: Isabel Teixeira
Assistência de direção e preparação de elenco: Lucas Brandão
Elenco criador: Dilma Correa (convidada), Léo Akio, Lucas Bêda, Marcos Felipe, Pedro das Oliveiras, Sandra Modesto, Verônica Gentilin, Virginia Iglesias
Participação especial: Miranda Caltabiano Bannai
Dramaturgia a partir da Escrita na Cena®: elenco criador e direção
Direção de movimento: Castilho
Direção musical: Dani Nega e Isabel Teixeira
Produção musical: Dani Nega
Arranjos, colaboração e preparação musical: Flávio Rubens e Renato Spinosa
Gravação sax, guitarra, harpa e violão: Gabriel Moreira
Composições originais: Jonathan Silva
Música de saída “O romance, o sorriso e a flor”: Renato Teixeira
Operadora e técnica de som: Paloma Dantas
Operador de microfones: Samuel Gambini
Desenho de Som: Bruno Castro
Desenho de Luz: Wagner Freire
Operação de Luz e Vídeo: Lucas Brandão
Cenografia: Isabel Teixeira, Lucas Bêda e elenco criador
Cenotécnicos: Fábio Lima e Zé Valdir Albuquerque
Vídeos: Pedro das Oliveiras
Figurinos: Joana Porto e Rogério Romualdo
Costura ciclorama: Coletivo Tem Sentimento
Visagismo: Fabia Mirassos
Auxiliar de visagismo: Isabelle Iglesias
Instrutor de escalada: Luciano Iglesias
Fotos divulgação: Roberto Setton
Assistente de fotografia: Alírio de Castro
Registro audiovisual: Bruno Rico
Assessoria de imprensa: Pombo Correio
Identidade visual: Isabel Teixeira e Léo Akio
Design gráfico: Léo Akio
Produção: Tati Caltabiano
Assistente de produção: Roberta Araújo
Produtor associado: Gustavo Sanna - Complementar Produções
Realização: Cia. Mungunzá de Teatro e 41ª edição da Lei de Fomento ao Teatro para a cidade de São Paulo - Secretaria Municipal de Cultura
