teatro

sobre crescer; sobre parir

crítica de “A Filha da Mãe”, texto e direção de Livia Piccolo e interpretação de Joana Dória.

A abençoada magia da vida e a complexidade da maternidade: logo na imagem inicial de “A Filha da Mãe”, estabelecem-se estes dois prismas complementares no desenvolvimento do tema. Sentada em um canto do espaço cênico, Joana Dória interpreta uma mulher tornando-se mãe. Sua barriga ilumina-se ao mesmo tempo em que suas expressões revelam sensações menos leves do que a beleza romantizada de uma gestação.

No projeto com texto e direção de Livia Piccolo, coloca-se em questão a visão hegemônica acerca do que significa ser mãe. Reflexões sobre o amor materno e a solidão da mulher se estruturam de maneira mais ou menos diretas ao longo da encenação. A trajetória que se estabelece coloca a protagonista em trânsito entre o ser mãe e o ser filha: para além do que se levanta em relação ao fato de tornar-se mãe, o espetáculo também volta o seu olhar para o que significa ser filha.

Assim, o texto de Piccolo — com colaboração de Dória — lida de forma dupla com as responsabilidades e sensações — muitas vezes conflituosas — vinculadas à afetividade materna. Deste modo, a obra apresenta uma visão honesta sobre os significados particulares e às expectativas sociais que se lançam sobre tais questões.

Não se trata apenas de levantar-se contra o processo de romantização da maternidade, tampouco de apontar os ônus gerados quase sempre à vida da mãe — ou seja, da mulher. Mas de insistir em um questionamento profundo acerca do que significa de fato ter um filho ou uma filha; do que significa falar em amor incondicional.

Neste sentido, a cenografia assinada por Piccolo, Dória e Luiza Simões (que também realiza assistência de direção) deixa, de início, tudo em suspenso. Desde objetos até os signos que representarão o bebê, nada habita efetivamente o mundo desta mãe antes desta dar sentido a eles. Assim, o público parece convocado a seguir o tempo dela — o que, talvez, nunca aconteça em nossa sociedade.

Joana Dória em “A Filha da Mãe” / foto: Diogo Nazaré

Vale ressaltar a interpretação de Joana Dória. Dotada de precisão admirável, corpo e voz revelam-se potência central em “A Filha da Mãe”. Não apenas por sua habilidade técnica, mas pela qualidade de presença da atriz. Fundamental para a dinâmica do monólogo, sua capacidade de deslocar os tempos da ação e da narrativa captura o espectador e o conduz junto à esta figura descobrindo-se mãe e questionando-se filha.

Dória parece retalhar o denso ar com uma faca, quando corta, literalmente, o fio que prende elementos até então suspensos no cenário, trazendo-os para a narrativa. Mesmo quando se tratam de passagens mais leves, há em muitos casos um proposital ruído entre a imagem e a dramaturgia. Certas construções permanecem sem fechar seus sentidos, mantendo-se abertas para a leitura do público — este, certamente lembrando de suas mães ou, ainda, de seus filhos e filhas.

No trânsito entre o que significa crescer, tornar-se mãe e também ver sua mãe envelhecer, a plateia acompanha a trajetória da intérprete, podendo se identificar com as diversas óticas trazidas pelo espetáculo. Ao ganhar um saquinho de pipoca, a plateia pode ser remetida à própria infância, enxergar-se como esta mãe sozinha assistindo televisão ou ainda refletir acerca da notícia transmitida. Em 2017, no Rio, a diarista Marisa de Carvalho Nóbrega, de 48 anos, levou uma coronhada de um policial por se recusar a bater na própria filha. Chegando em casa, Nóbrega passou mal, foi levada ao hospital e morreu.

Na escolha de “A Filha da Mãe” de trazer um fato tão denso para seu encerramento, há uma tentativa de redimensionar a obra para além de sua bolha, ampliando o recorte das questões abordadas. Beira o inacreditável o que a nossa sociedade pode fazer com uma mãe. E o que uma mãe não hesita em fazer por um filho.

Joana Dória em “A Filha da Mãe” / foto: Diogo Nazaré