arquipélago, destaque, teatro

vertigem e delírio

crítica de Veias Abertas 60 30 15 seg, da Aquela Cia (RJ). o ruína acesa faz parte do projeto arquipélago de fomento à crítica.

Vivimos una situación de penumbra cognitiva, que es el momento de la crisis. Pero su otra cara es sin duda la posibilidad de una comprensión más profunda de la naturaleza de los hechos, y también la posibilidad de habitar la crisis en forma productiva.” (Silvia Rivera Cusicanqui em Un mundo ch’ixi es posible)

Uma professora de dança e um casal. Um funcionário da United Fruit Company, um militar. Uma noiva. Um massacre. Golpes da história em um corpo-mapa de geografias próprias. Máscaras e vestimentas típicas de diversos povos de Abya Yala. As Veias Abertas da América Latina são tornadas vertigem e delírio em quadros de sessenta, trinta, quinze segundos. Palavras, gestos, danças, manifestos, discursos, melodrama, tudo passa, tudo passará. Veias Abertas 60 30 15 seg é um feed infinito cujo algoritmo parte do livro de Eduardo Galeano para ser reorganizado por Aquela Cia (RJ), sob a dramaturgia de Pedro Kosovski e Carolina Lavigne e direção de Marco André Nunes.



Passados treze anos da estreia de Cara de Cavalo (2012), que deu início à ‘trilogia da cidade’, completada com Caranguejo Overdrive (2015) e Guanabara Canibal (2017, leia a crítica aqui), posteriormente seguida por Chega de Saudade! (2021, peça-filme; 2022) e Terra Desce (2023), a Aquela Cia deixa de focar seu olhar na cidade do Rio de Janeiro e mira um continente “difícil de entender, às vezes, principalmente quando se olha de fora e de cima”, como disse Galeano ao programa Sangue Latino. Veias Abertas 60 30 15 seg é obra que, tal como sua inspiração, são “coisas que a gente é capaz de olhar de dentro e de baixo” – “coisas que podemos entender com a razão e sentir com o coração”.

Entender é palavra capciosa. Como diz Silvia Rivera Cusicanqui em Ch’ixinakax utxiwa – Una reflexión sobre prácticas y discursos descolonizadores, “es evidente que en una situación colonial, lo ‘no dicho’ es lo que más significa; las palabras encubren más que revelan, y el lenguaje simbólico toma la escena”. Dizer, dizer e dizer parece não bastar, mesmo nas longas e acertadas tentativas de mirar e transformar nuestra América a partir de sua história. Quando Galeano apontou, em 2014, que “a prosa da esquerda tradicional é chatíssima”, talvez algo do pensamento de Cusicanqui reverbere nesta sua afirmação que soa como um dos propulsores da linguagem pesquisada pela Aquela Cia em seu trabalho. 

Em Un mundo ch’ixi es posible, a pensadora boliviana fala do perigo daquilo que nomeia “palavras mágicas”, ideias únicas que podem carregar efeitos de fascinação e hipnose coletiva; citando o governo de Evo Morales, Cusicanqui aponta que o uso de determinados termos são capazes de “acallar por una década nuestras inquietudes, aplacar nuestras protestas y hacer caso omiso de nuestras acuciantes preguntas”. E “toda palabra mágica es una especie de continente, que no se habita al nombrar”. Ao propor Veias Abertas 60 30 15 seg, Aquela Cia parece buscar habitar o continente evocado em cada uma de suas palavras e para além delas. Corpo, música, composição, imagem.

Há esse intenso jogo entre algo de espetacular no que se dá a ver em cena e uma crua dureza, manifestada desde as escolhas de iluminação (de Renato Machado) e direção musical (de Felipe Storino), passando pela ocupação espacial do cenário (de Aurora dos Campos e Marco André Nunes), até reverberar, em especial, nos corpos de Carolina Virgüez, Matheus Macena e Rafael Bacelar (Juracy de Oliveira consta na ficha técnica mas não estava em cena no dia assistido).

No todo, realça-se a sensação de que o público está diante do caos de um feed de redes sociais; o sinal sonoro do final de cada cena interrompe o fluxo como um dedo que arrasta para cima para o próximo vídeo. Nessa aposta de espelhar a velocidade contemporânea em cena, Veias Abertas 60 30 15 seg parece abraçar a contradição inerente à essa adesão; o que permanece diante de tanto? É quase como se houvesse uma autofagia estética na própria pesquisa de linguagem d’Aquela Cia. 

Na sucessão incessante de quadros que ora se comunicam entre si e ora surgem como ruídos ou aparições, há algo de crítica e algo de fascínio na realização – trata-se de uma tour de force do elenco, correndo entre as cenas para trocar de figurino, buscar um adereço, posicionar-se no novo espaço; executar a ação cênica, suspendê-lá imediatamente ao ouvir o sinal sonoro, respirar (se possível) e seguir para mais dessa coreografia do dentro e do fora do tabuleiro.

Dentre as muitas máscaras utilizadas – como um diablito andino e a bandeira whipala tornada balaclava – há um general calado e um Galeano dançante. Veias Abertas 60 30 15 seg trata destes corpos que, contrariando a igreja, a ciência e a publicidade, dizem-se festa. A presença “incorporada” do autor uruguaio no meio desse tanto parece trazer consigo a perspectiva d’Aquela Cia de responder em tempo real ao problema percebido por ele em torno de sua própria escrita: como lidar com as formas de dizer o que se quer dizer, para além de uma “prosa chatíssima”?

Nas muitas obras que sucederam a seminal As Veias Abertas da América Latina, Galeano transformou seu gesto artístico numa aposta em parágrafos curtos, breves crônicas – onde menos de uma página já traz algo de tirar o fôlego. Seja nos mitos de criação ameríndios de Espelhos ou na história da América Latina em sua Trilogia do Fogo, o autor elaborou ao longo de sua vida um extraordinário poder de síntese, tanto poética quanto social; “lendo seus livros, eu sinto que você tem um olho no microscópio e outro olho no telescópio”, certa vez lhe disse um jornalista espanhol.

Talvez Veias Abertas 60 30 15 seg seja a busca pela aposta possível hoje, enquanto gesto cênico, de aderir aos tempos enquanto produz, dialeticamente, uma resposta e uma proposta a eles. A forma-síntese dos parágrafos de Galeano dão ao leitor o tempo do respiro; a encenação d’Aquela Cia, não; é uma convocação à vertigem, ao inapreensível, à ausência do espaço da reflexão. Enquanto algo se elabora na razão e no coração de cada espectador, o scroll infinito segue em movimento. 

Ao mesmo tempo, o final apoteótico faz-se em fade-out, não apenas de som e luz, mas de imagem. Com o fade out, “fica uma sensação de infinitude, como se ela perdurasse ali em algum silêncio” (Que Fim Levou o Fade Out? – Monkeybuzz). O produtor musical Felipe Vassão, em seu vídeo Cadê o Fade Out?, refletindo sobre a diminuição do uso de tal recurso na indústria musical, aponta que “uma música que termina em fade out meio que dura pra sempre, né? Ela continua na nossa cabeça mesmo depois do final”. Vassão fala da ansiedade contemporânea que não suporta ouvir uma música até o final e logo passa para a próxima; fala também da necessidade de encerramento, de um fim bem marcado. 

Curiosamente, Veias Abertas 60 30 15 seg traz seus 80 quadros colados, como que em cliques insistentes no botão skip para seguir adiante, com breves e brevíssimos intervalos. Mas, no momento final, aposta em um não-encerramento – para que algo permaneça, siga, dure para além do vórtice e do caos. O que se lembra e o que se esquece, da cena, dependerá de cada espectador; de algum modo similar, também assim acontece com o que se lembra e o que se esquece da história.

Ecoam referências mais ou menos reconhecíveis para cada pessoa; lá estão as palavras de Dilma Rousseff sobre os horrores da ditadura, a bela interpretação de utopia de Fernando Birri (popularizada por Galeano) e o baile de los pobres da Calle 13, entre tantas outras. Neste sentido de encadeamento imagético, Veias Abertas 60 30 15 seg também remete, de algum modo, ao videoclipe de This is Not America, do porto-riquenho Residente, onde em cada frame cabe muito mais do que o capturado enquanto se assiste.

Referências, invenções e o maior desafio latinoamericano: “la insuficiencia de los recursos convencionales para hacer creíble nuestra vida”, o nó de nossa solidão segundo Gabriel García Márquez. A Aquela Cia, que não tem muita prata, mas tem cobre, fragmenta as convenções em seu jogo entre o que passa e o que permanece; entre o genuíno e o tipo exportação. Há até algum grau de incerteza em determinar o que importa e o que é desimportante; no quanto alguns quadros estão ali para ser levados a sério ou não. Enquanto certos temas e situações retornam (seja em desenvolvimentos e sequências, seja como quando vemos uma sequência de stories e diversas pessoas compartilharam as mesmas coisas, com pequenas variações), outros parecem surgir como interferências externas àquele feed.

Performatividade, narrativa, melodrama: nas sucessivas explosões, linguagens se amalgamam e imiscuem-se na construção dos sentidos da obra. Entre o tanto que compõe Veias Abertas 60 30 15 seg, pode-se dizer que o gesto artístico d’Aquela Cia é uma aposta no gesto. Na composição coreográfica que dá a ver seus significados próprios. No que sublinha, no que agrega outros sentidos. Corpos que geram dúvidas, que fazem dança, que atuam, que evocam imagens, relatos, tempos, fatos, ficções; “la memoria histórica se reactiva y a la vez se reelabora y resignifica en las crisis y ciclos de rebelión posteriores”, citando mais uma vez Cusincanqui. Habitar a crise em uma forma produtiva talvez passe precisamente por abraçar as contradições e velocidades dos tempos que (cada vez mais) correm; não apenas nomear continentes, mas povoá-los vertiginosamente do direito ao delírio. Tudo passa, tudo passará – exceto o que se permitir permanecer.

logo do projeto arquipélago

[colabore com a produção crítica de amilton de azevedo: conheça a campanha de financiamento contínuo para manter a ruína acesa!]

ficha técnica
VEIAS ABERTAS 60 30 15 SEG
Aquela Cia

Direção: Marco André Nunes
Texto: Pedro Kosovski e Carolina Lavigne
Elenco: Carolina Virgüez, Juracy de Oliveira, Matheus Macena e Rafael Bacelar
Músicos: Felipe Storino e Pedro Leal David
Direção Musical: Felipe Storino
Direção de Movimento: Márcia Rubin
Cenário: Aurora dos Campos e Marco André Nunes
Cenógrafa Assistente: Juliana Augusta Vieira
Figurino: Fernanda Garcia
Iluminação: Renato Machado
Iluminador Assistente: Paulo Denizot
Assistente de Direção: Gabriela Ruppert
Assistente de Figurino: Mag Pastori
Operação de luz: Juliana Augusta Vieira
Operação de som: Fabio Luchs
Produção: Corpo Rastreado - Gabi Gonçalves | Nathália Christine
Idealização: Aquela Cia.
Realização: Sesc
Assessoria de imprensa: Canal Aberto - Márcia Marques, Daniele Valério e Carina Bordalo