vastidão da ilha
crítica de Filoctetes em Lemnos, concepção geral e performance de Vinicius Torres Machado, direção e criação de Marina Tranjan. o ruína acesa faz parte do projeto arquipélago de fomento à crítica.
“So was I once myself a swinger of birches. / And so I dream of going back to be.” (Birches, Robert Frost)
“FILOCTETES: Não fiqueis temerosos nem espantados, com receio do meu aspecto selvagem; tende compaixão deste desgraçado – aqui só ao abandono, sem amigos, maltratado.” (Filoctetes, Sófocles)
“Estranha a vida. Descobri que amava a matéria viva. Que amava o azulejo como amava um amigo. Que estava triste por perder a matéria. A minha, a sua.” (Sobre como encenei meu pé, Vinicius Torres Machado)
Ao entrar no Galpão do Sesc Pompeia, cada pessoa do público recebe um pequeno retalho de tecido. Uma atadura, manchada, que irá desfazer-se com o tempo, onde se lê “DEZ ANOS DEPOIS OS GREGOS DESCOBREM QUE PRECISAM DE FILOCTETES PARA POR FIM A GUERRA”. Filoctetes em Lemnos, concebido e performado por Vinicius Torres Machado, com direção e criação de Marina Tranjan, parte do relato do “herói, não herói o suficiente” que, com uma ferida incurável, é abandonado na ilha de Lemnos por seus companheiros, onde permanece sozinho por uma década, para, na obra, “tratar da fragilidade da matéria viva atualizada na forma humana”, conforme seu programa digital. Nos textos nele presentes, compreende-se que a criação se deu a partir da experiência de Torres Machado no tratamento de um tumor maligno e à aproximação da ferida do performer e do herói – e de suas solidões.
- Seja um apoiador: conheça a campanha para manter a ruína acesa
Filoctetes em Lemnos é uma peça que oferece sua materialidade para uma quase-livre fruição do espectador ao estruturar-se lançando mão, sem palavras, daquilo que se coloca na cena: coisas. Um corpo (tão coisa quanto as demais coisas), uma mesa, uma cadeira, uma planta, um jarro, um copo, um suporte para um instável equilíbrio daquele copo, uma cenoura, terra, terra, terra; focos de luz em cima, ao lado, na diagonal, à meia altura. O que inicialmente já se vê e o que ainda surgirá.
É como se fosse possível considerar que existem muitos Filoctetes em Lemnos a serem observados. A peça vista puramente pela materialidade da cena. A peça vista pela materialidade da cena, perspectivada por seu título, por sua sinopse, pela atadura entregue nas mãos de cada espectador. A redimensão da peça vista (pela materialidade da cena, perspectivada por seu título, por sua sinopse, pela atadura entregue nas mãos de cada espectador) que se dá após a leitura de Sobre como encenei meu pé, livreto entregue ao final de cada sessão com texto de Torres Machado, escrito concomitantemente à feitura da peça, que “apresenta a realidade da matéria viva que originou o espetáculo”. Também, tudo isso somado à fricção com a fábula mítica que permeia o trabalho.
FILOCTETES, LEMNOS: O HERÓI, A ILHA
“O ser humano está aí, há milhares de anos, e a gente ainda não entende.” (Sobre como encenei meu pé, V. Torres Machado)
Filoctetes é citado no segundo canto da Ilíada, quando são listados os gregos que embarcam rumo a Tróia; o herói traz consigo sete navios, cada um com cinquenta habilidosos arqueiros. “Ele, entretanto, ficara a sofrer indizíveis tormentos na Ilha de Lemno divina, onde o haviam deixado os Acaios vítima de úlcera feita por dente de serpe nociva. Lá se encontrava, a gemer”, contam os versos 721 à 724. Há diferentes versões para a razão do ferimento; Sófocles aponta, em fala de Neoptólemo (filho de Aquiles), a vontade dos deuses, por Filoctetes ter se “aproximado da sentinela de Crise, a serpente que, escondida, vigia e defende o seu recinto descoberto”. Nas notas da publicação de Filoctetes traduzida por José Ribeiro Ferreira, isso se dá, “segundo a lenda, como castigo pelo perjúrio de ter revelado o local da sepultura de Héracles”. Ainda, em outra narrativa, diz-se que Filoctetes feriu-se não pela picada de uma cobra, mas ao tocar com o pé onde as cinzas de Héracles estariam depositadas.
No início da tragédia de Sófocles, apresentando a ilha de Lemnos à Neoptólemo, Odisseu conta que lá abandonou Filoctetes “visto que ele supurava de um pé por uma chaga devoradora. Não podíamos ocupar-nos, em paz, de libações nem de sacrifícios; ele enchia constantemente todo o acampamento com alaridos selvagens e agoirentos, aos gritos e gemidos”. Por dez anos, Filoctetes ficou abandonado e sozinho.
“DEZ ANOS DEPOIS OS GREGOS DESCOBREM QUE PRECISAM DE FILOCTETES PARA POR FIM A GUERRA”: é profetizado pelo adivinho troiano Heleno, capturado pelos gregos, que a vitória na guerra só se dará pelo uso do arco e das flechas envenenadas de Héracles. Filoctetes é o herdeiro destas armas e, por isso, será “resgatado” por Odisseu e Neoptólemo. Este é o enredo central de Filoctetes, de Sófocles, única das quatro tragédias escritas sobre o herói (pelos três maiores tragediógrafos gregos) que sobreviveu na íntegra.
Odisseu orienta Neoptólemo a enganar Filoctetes; levá-lo pela astúcia. O filho de Aquiles nega de pronto, apelando às possibilidades da persuasão ou violência, ambas rechaçadas – Odisseu afirma que ele “jamais se deixará persuadir, e pela força não o podes tu capturar”, por conta dos “dardos infalíveis e que espalham a morte”. Seguindo as ordens, Neoptólemo de início tem sucesso, mas hesita, por sua virtude e pela compaixão diante do homem e de sua dor. A solução oferecida por Sófocles é um deus ex machina com Héracles surgindo e orientando Filoctetes a assentir com os caminhos designados.
O herói tornado deus do Olimpo conta ao amigo que sua enfermidade será curada; depois, será “eleito pelo teu valor como o mais valoroso de todo o exército” e com suas flechas matará Páris, príncipe de Tróia. Ainda, nas Pós-Homéricas de Quinto de Esmirna, Filoctetes é um dos soldados a entrar no Cavalo de Tróia, que efetivamente põe fim à guerra.
FILOCTETES EM LEMNOS: OS SILÊNCIOS DA SOLIDÃO
Em Filoctetes em Lemnos, há um homem nu, sentado em uma cadeira, com as calças sobre as coxas. Diante dele, uma mesa com um óculos, um copo vazio, uma jarra d’água. Do outro lado da mesa, no chão feito de terra, um vaso de plantas. Focos de luz, muito de vazio. A cenografia proposta por Eliseu Weide ecoa a localização de Sófocles para a ação de seu Filoctetes: a cena “decorre na ilha de Lemnos que nesta peça se supõe desabitada. Breve plataforma na falésia frente à boca de uma gruta que tem, invisível, uma segunda abertura para a parte interior da ilha”
Há algo de desabitado em Filoctetes em Lemnos na mesma medida em que tudo aos poucos se habita. Há o invisível, há o que se revela – literalmente, na iluminação de Dimitri Luppi e Wagner Antônio. Não parece haver ali um herói. Algo de um nada a fazer. Uma insistente hesitação nos gestos de Torres Machado, a mão quase trêmula no pequeno movimento indo e vindo de seu colo à mesa. O levantar-se e a lenta volta em torno da mesa, cada instante convocando o olhar para o que está ali, diante do público. Seu corpo nu, proteções nos joelhos feitas da mesma matéria da atadura que protege algo em sua bunda; sua musculatura, a diferença entre as pernas que fazem dos passos também hesitação, a vida e a matéria de cada parte.
As solidões dos silêncios, atravessados pelo desenho de som de Pedro Canales; o silêncio da solidão e seus estrondos. No início da apresentação vista, um helicóptero passa ao largo e não se sabe se é parte do espetáculo; e então um burburinho do lado de fora do galpão. Filoctetes em Lemnos é de um abandono de outra ordem; do de dentro, parece. A plateia se faz presente como espelho, como testemunha, como alvo de súplica, como cúmplice, como igual, como outro.
Torres Machado performa um sutil desespero ou o desespero da sutileza. Imagens se fazem e desfazem num tempo próprio que se produz na vastidão daquela ilha cênica, inóspita e profundamente habitada sensivelmente pelas tantas camadas da encenação de Tranjan. Cada composição parece se desenhar na direção da construção do próprio ruído; não enquanto uma tentativa de surpreender, mas como uma forma de pairar inconclusa e incerta na fruição do público. A aposta em certos efeitos da teatralidade surge no jogo com aparições: de uma cenoura sob a mesa ativada por uma traquitana a todo um outro mundo que se revela na gruta de Lemnos quando a iluminação de Luppi e Antônio dá a ver a espacialidade antes escura dos fundos da cena.
A luz também faz de Torres Machado vultos nas paredes, coloridos, recortados. Enquadramentos de cada parte da coisa-corpo, uma cabeça, um torso, uma perna. Sombras que vêem e são vistas. Em seu não dizer, o agir abre espaços para não apenas leituras mas livre associações. Um fio de cabelo no copo d’água me levou a pensar no velocino de ouro, item mitológico roubado pelos Argonautas (algumas fontes colocam Filoctetes entre os heróis desta nau; outras, seu pai, Poeas); o ato de simplesmente retirá-lo da boca e jogá-lo fora então poderia falar do que significaria autoridade e realeza na solidão de uma ilha.
Quando o performer senta sobre a mesa e, em postura cabisbaixa, segura pelos cadarços seus calçados, sua presença é como a de fios elétricos inertes aguentando os tênis de garotos entediados. São imagens que não estão em Filoctetes em Lemnos, mas de algum modo estão ao serem projetadas ali pela percepção de quem vê. Outras surgem mais literais, como por exemplo a dificuldade quase-impossível de vestir uma calça pela diferença na mobilidade e musculatura das pernas de Torres Machado.
Um óculos, um sussurro, um grito, uma espera. Ainda que exista uma história – e um corpo – real, ainda que exista uma narrativa mitológica, Filoctetes em Lemnos não se formaliza enquanto biodrama, autoficção, tampouco tragédia. Nas intensidades vistas em cena, a convocação é na direção da sensibilidade de cada pessoa do público, apostando na produção e desfazimento de relações sígnicas, oscilando como o copo que balança no pequeno suporte no chão. Diante de nós, coisas, matérias, vivas ou não. Que se relacionam conosco, coisas, matérias vivas.
DA MATÉRIA VIVA: ENCENAR MEMÓRIAS-MATÉRIAS EM UM CORPO-COISA
“Escrever é ficar vivendo dois tempos ao mesmo tempo.” (Sobre como encenei meu pé, V. Torres Machado)
Ao final de Filoctetes em Lemnos, o performer sai de cena, busca uma camiseta, volta e se senta novamente. As portas se abrem. Ele sutilmente olha para a plateia enquanto alguns aplaudem, outros começam a sair, outros aguardam. Depois de um tempo, veste a camiseta. E continua lá. Enquanto sai, o público recebe um pequeno livreto do espetáculo, com a ficha técnica em uma folha solta no início, escondendo seu título: Sobre como encenei meu pé. “O texto a seguir teve sua concepção iniciada simultaneamente à elaboração da peça Filoctetes em Lemnos. Este texto apresenta a realidade da matéria viva que originou o espetáculo”.
Habitando dois tempos, Torres Machado conta de sua experiência com o câncer desde quando tudo começou. O relato se faz de modo simultaneamente objetivo e poético. É a partir da própria descrição que o artista dá a ver as angústias, a dor, as belezas, vida e morte. O material torna-se parte da obra, de algum modo redimensionando-a a partir da contextualização das vivências passadas (e presentes) do artista que concebeu Filoctetes em Lemnos. Longe de uma carta de intenções, é espécie de diário pregresso de processo, visto que não constrói diretamente conexões ou chaves de leitura para a peça – ainda que tudo se conecte; a ferida, Filoctetes, a solidão, a ilha.
E, especialmente, a materialidade. “Para a coleta da medula, rasparam meu osso por dentro. Foi a primeira vez que eu senti meu corpo como matéria, meu corpo coisa” (p. 24). As experiências de Torres Machado com sua própria dor e sofrimento, mas também com as pedras de Paraty, com um banco no corredor do Hospital das Clínicas, com azulejos de um banheiro; com o outro, seja um paciente na cama ao lado ou ele saindo de si e se vendo. “Descobri que amava a matéria viva” (p. 53), afirma, e lá está em Filoctetes em Lemnos esse amor por um copo d’água sendo enchido, por uma planta, pela terra, pela mesa, pela luz, pelo som, pelo teatro.
A interpretação de certas imagens da encenação é também impulsionada pela leitura. Na calça do figurino, com apenas um lado encharcado sendo torcido, ecoam os fluidos pós-operatórios. O banco do corredor do hospital é a mesa da cenografia de Weide sobre onde o performer se deita e é também a plataforma onde surge Héracles na tragédia de Sófocles.
Mas não há ex machina em Sobre como encenei meu pé; não há nada além da matéria viva. O final do livreto é tudo menos sinalização de resolução mágica ou respostas definitivas: “(…) preciso dizer desses sentimentos meus sem razão de ser. Esses que passam pela gente. Que não há virtude apenas. Que é impossível saber por que fiquei” (p. 61). Obra-irmã, parte intrínseca de Filoctetes em Lemnos, o encontro de ambos com a fruição resulta na emergência da memória como matéria a ser vista, suspensa, reorganizada, corporificada, coisa viva.
NÃO HÁ GUERRA (HÁ INFINITAS GUERRAS)
Talvez não seja importante para o público saber que Filoctetes foi um importante guerreiro. Que Odisseu afirmou que “só Filoctetes podia gabar-se de no arco exceder-me” (Odisseia, canto XIII, verso 219), ou que depois de seu retorno ele tenha sido curado e foi fundamental para a vitória grega. A importância talvez resida em pousar o olhar para os anos de solidão, não narrados por Sófocles, ausente dos mitos, das fontes. Ninguém irá resgatar Torres Machado para que ele dê fim à guerra; não há guerra (há infinitas guerras). A solidão de Filoctetes em Lemnos não é a de Filoctetes em Lemnos, uma solidão física, da distância dos amigos, de fora, mas sim a solidão de dentro, de quem se “cindia em dois” e se observava, “um com dor e o outro por cima da dor, vendo, eu o outro” (Sobre como encenei meu pé, p. 11).
O que está ali é um homem nu diante de uma mesa, e ao final ele ainda estará ali, agora vestido, e o público irá embora como visitantes que passaram por Lemnos. Seu desejo não é o de ser tirado dali; é retratar aquela permanência. Agradecer aos que ali testemunham. Não há engano, persuasão ou deus ex machina, e Torres Machado não carrega as armas de Héracles senão seu próprio pé, “um outro que anda comigo” (p. 42) em cada sucessivo pouso. Se existem flechas envenenadas elas são o próprio teatro, força motriz não de guerra e paz, mas de mover sensibilidades em vida e morte.
[colabore com a produção crítica de amilton de azevedo: conheça a campanha de financiamento contínuo para manter a ruína acesa!]
ficha técnica
FILOCTETES EM LEMNOS
Concepção geral e performance: Vinicius Torres Machado
Direção e criação: Marina Tranjan
Desenho de som e criação: Pedro Canales
Assistência de direção, assistência de produção e design: Luane Sato
Acompanhamento de movimentação: Laura Puche
Cenotecnia e produção de objetos: Beatriz Mendes
Assistente de cena: Juan Luís
Cenografia: Eliseu Weide
Iluminação: Wagner Antônio e Dimitri Luppi
Assessoria de imprensa: Pombo Correio
Fotografia: Ju Paié
Coordenação de produção: Leo Birche e Renata Allucci


Que texto! E que espetáculo! Um ensaio crítico delicado e urgente no momento em que vivemos da mais cruel dor e da mais absurda superficialidade das aparências do corpo!