agenciar o insolúvel
crítica de Reparação, dramaturgia e encenação de Carlos Canhameiro. o ruína acesa faz parte do projeto arquipélago de fomento à crítica.
Enquanto um jovem toca seu teclado, o público entra e pessoas chegam no pequeno cômodo feito casa que ocupa todo o espaço cênico do Teatro de Arena. Para sua segunda temporada, Reparação adaptou sua cenografia após estrear no palco italiano da Sala Jardel Filho do CCSP, fazendo-se literalmente mais intimista. José Valdir Albuquerque e Carlos Canhameiro saíram de uma estrutura de dois andares – já trabalhada pela dupla em xs CULPADXS – para o ambiente único, sobrepondo (ainda mais) camadas da encenação.
A encenação de Canhameiro começa apresentando a sinopse de sua dramaturgia, de modo semelhante (se não igual) ao que se pode ler na página de compra do livro, publicado pela editora Javali – após as sessões realizadas no contexto do Prêmio Zé Renato, exemplares eram distribuídos ao público. Lá está, na parede daquele cômodo, o letreiro projetado que localiza ao espectador que o texto “é baseado em uma história verídica que ocorreu em uma cidade do interior de São Paulo na década de 80”. Conta que Reparação omite a cidade e altera nomes para “evitar quaisquer danos”, que Canhameiro “entrevistou moradoras moradores e pessoas implicadas na história” ao longo do ano de 2016.
A projeção, um prólogo-carta-de-intenções de alguma sorte, também aponta para a aleatoriedade da seleção dos depoimentos presentes na obra, considerando “quem esteve disposto a falar sobre o assunto”, que são transcrições das entrevistas feitas base dramatúrgica. E que as “cenas dramáticas são reconstituições ficcionais em que o autor tomou maior liberdade artística sem contudo deturpar a trama e seus desdobramentos”.
Parece importante citar tantos trechos deste breve início precisamente por Canhameiro como que anunciar do que é feita esta Reparação e, quase categoricamente, afirmar que “a realidade é uma ficção a ser escrita”. A sentença ecoa ao longo de toda a obra no gesto que vem acompanhando os trabalhos do artista: como manipular o que (nos) acontece enquanto sociedade a fim de fazê-la coisa cênica?
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Uma jovem moradora de uma cidade do interior do estado é violentada por dois colegas de escola. Do estupro, uma gravidez. Da gravidez, um exílio forçado pela própria família. Violências físicas e simbólicas. Seis anos mais tarde, ela volta com a filha. Apresenta-a ao pai, seu algoz. Vingança, revide, tragédia; reparação? Na cena, então, escutam-se as visões daquelas e daqueles que viveram e lembram – ou ouviram falar – dos ocorridos, assim como Canhameiro constrói dramaturgias ficcionais para cenas dramáticas onde a relatada ganha vida, corpo, versão própria de seus acontecimentos, escolhas e ações, em conversas com outros personagens.
O jogo entre o “aleatório” dos depoimentos colhidos por Canhameiro – isso se a premissa é efetivamente assumida como dado real – e as dramatizações é o cerne do que se põe em questão; a montagem, aqui sob a responsabilidade da direção, determina o discurso do documentário. Há, portanto, um espaço enorme para a ficção sendo escrita desta realidade. Nos retratos que seriam dos verdadeiros portadores daquelas falas, imagens que gritam o uso de ferramentas de IA; e, se for mesmo o caso, a agência de Reparação se lança inclusive sobre o fenótipo de vizinhos, parentes, amigos, conhecidos, cidadãos. Independente dos rostos vistos na parede, os registros de cada intérprete são também ferramentas de Reparação para contornar os olhares sobre o que se conta.
Há toda uma encenação a serviço de operar o que se desejar sobre aquela realidade. Na transposição da cenografia de dois ambientes para um único, inclusive, faz-se de todo o espaço da cena o mesmo ambiente de sociabilidade evocado pelo salão de beleza, intensificando a presença de Maria França e Rosa De Carlos (respectivamente, manicure e cabelo/maquiagem em cena), desconhecidas-confidentes de tudo que se passa.
Composições cênicas e o desenho de luz definem os momentos onde ali se torna um espaço (mais) íntimo, de (outra) ficção; com o uso de câmeras posicionadas de modo que uma espécie de mediação dupla acontece ao enquadrar intérprete e projeção do intérprete, Reparação é também algo de filme – preto e branco; fixado no tempo. De algum modo, reverberam tentativas destes lances entre palco e tela, que acabam muitas vezes colocando em xeque realidade e representação, tempos presentes e passados.
Na busca por trazer situações dramáticas que não contradizem o “real”, Canhameiro assume a imutabilidade do que ocorreu. Pode-se pensar na tentativa de Christiane Jatahy em A Hora do Lobo, onde a refação de Dogville poderia servir como busca por alguma redenção, quase um espelho inverso de Reparação. Aqui, Canhameiro escolhe agenciar o insolúvel nas vidas que seguem na criatividade do documentário. O investimento é constante no estranhamento, com momentos de uma desagradável comicidade; as letras do Roupa Nova comentam, ironizam, são por vezes quase uma antidramaturgia. Coros se juntam e se desfazem, intérpretes revezam-se nos papeis como se tudo pudesse se desmanchar no ar – menos o que permanece.
A lembrança da obra baseada no filme de Lars Von Trier se relaciona com um trecho da fala de uma pesquisadora que deu seu depoimento sobre o caso. Ela, questionando as razões daquela entrevista, elenca narrativas ficcionais sobre violências de gênero, chamando atenção aos modos pelos quais se formalizam tais materiais em filmes, séries, enfim, obras de arte; é quase uma crítica imanente de Reparação a si própria. O destaque dado a esse momento, sua singularidade na produção de um vídeo gravado da atriz, corrobora com a impressão de que Reparação não parece versar apenas sobre como reparar enquanto conserto, mas também sobre como reparar enquanto notar, perceber; enquanto atenção.
Talvez Reparação seja uma investigação em torno de materializar, de forma porosa e instável, acontecimentos do passado, seus desdobramentos, suas verdades, operando formalmente modos de ver, modos de debater certas insuperabilidades – sejam as do fato narrado, relatado, dramatizado, sejam das estruturas sociais. Tudo isso ao som de Roupa Nova, unhas e maquiagens sendo feitas em cena e uma grande variedade de perucas.
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ficha técnica
REPARAÇÃO
Encenação e dramaturgia: Carlos Canhameiro
Elenco: Daniel Gonzalez, Fábia Mirassos, Luiz Bertazzo, Marilene Grama, Nilcéia Vicente e Yantó
Manicure em cena: Maria França
Cabelo e maquiagem em cena: Rosa De Carlos
Trilha Sonora e música ao vivo: Yantó
Cenário: José Valdir Albuquerque e Carlos Canhameiro
Iluminação: Gabriele souza
Assistente de iluminação: Diego França
Figurinos: Bianca Scorza (acervo Godê)
Videografia: Vic von Poser
Técnico de som: Pedro Canales
Técnico de luz: Finn Fernandes
Técnico de vídeo: Ana Lopes
Produção: Mariana Pessoa e Leonardo Inocêncio
Apoio: Cine Dom José, FJ Cine - Giscard Luccas e Jasmim Produção Cultural
Livro: Editora Javali
Piano - Be my husband: Daniel Muller
Assessoria de imprensa: Canal Aberto - Márcia Marques, Daniele Valério e Carina Bordalo
Este projeto foi contemplado pela 19ª Edição do Prêmio Zé Renato — Secretaria Municipal de Cultura e economia criativa

