destaque, teatro

procurar, perder

amilton de azevedo escreve a partir de Papaizinho,, idealizado por Caio Scot.

Quando você bebia demais, baixava os olhos e dizia que me amava, que não entendia por que no resto do tempo era tão violento. Chorava confessando que não sabia como interpretar essas forças que o atravessavam, que o faziam dizer coisas das quais se arrependia no minuto seguinte. Você era tão vítima da violência que exercia como daquela que sofria. Você chorou quando as torres gêmeas desabaram.” (Quem matou meu pai, Édouard Louis)

Tem um episódio de Família Soprano, o 9º da primeira temporada, em que acompanhamos a Meadow, filha do protagonista, jogando futebol. Tony está animado com o sucesso dela no esporte – até porque A.J., seu filho homem, que carrega o seu nome, não se destaca muito nessa seara – e, ao descobrir que o técnico do time vai mudar de cidade, começa a dar seu jeitinho pra ele se convencer a ficar. Até que Meadow revela que o técnico transou com uma amiga dela. Seu pai decide então dar outros jeitos. No final do episódio, depois de falar para um capanga deixar quieto e ver a polícia prendendo o cara a partir da denúncia de uma outra garota, o Tony chega totalmente bêbado em casa, cambaleante e dançante depois de misturar álcool com seu Prozac. Meadow escuta os barulhos e observa tudo; Tony diz algo como “eu não machuquei ele” em meio a uma espécie de êxtase de felicidade, caindo no chão. Carmela, sua esposa, coloca uma almofada sob sua cabeça e olha pra cima, trocando olhares com a filha no mezanino.

Talvez a garota ache que foi por conta dela que ele deixou de fazer algo violento com o técnico abusador. Pelo andar do episódio, Tony é, na verdade, convencido por outro personagem. Mas Meadow não sabe. Ela conhece seu pai; mas no fundo, ela não conhece seu pai. Eu acabei de ver esse episódio, e nem sei o que acontece na sequência, mas ele me pareceu dizer algo sobre o que eu quero dizer de Papaizinho, há meses e ainda não consegui. Minha memória já não é tão confiável (e já não estou certo do que quis dizer com algumas anotações que utilizo aqui de base), mas vamos lá: em um determinado momento dos vídeos projetados na obra, surge um homem falando sobre o fato de ter tido uma filha não ter mudado nada na vida dele. E que ama a filha. E que ela não vai mais visitá-lo há um tempo. Aí, quem tá falando com ele no vídeo, acho que é o próprio Caio Scot, pergunta o que eles fariam se ele fosse o pai dele. E ele diz “vamos ver um futebolzinho”. Esse amor, sem presença, sem transformação, complexo, banal, com algo de absolutamente genuíno naquelas palavras (que podem certamente ser ficção pelo jogo proposto em Papaizinho,) é uma baita síntese do contraditório de tudo isso.



Papaizinho, é um diálogo com Quem matou meu pai, um jogo entre autoficção e manifesto político de Édouard Louis. É um diálogo daqueles profícuos, que lança mão inclusive de trair o original, de algum modo: o francês começa seu livro com uma rubrica que desenha como cena as ações do impossível do encontro; a equipe de Papaizinho, (Luisa Espindula e Scot dirigem a dramaturgia de ambos acompanhados de Lucas Cunha, Felipe Rocha e Júlia Portes) faz da procura seu princípio e se desdobra no que se encontrou dela. Louis e seu pai “estão perto um do outro, mas não se veem” diz a rubrica inicial do livro. Scot espalha lambe-lambes pelo Rio de Janeiro para dar a ver seu desejo de inventar o que existe (um pai). Eu já escrevi vários trechos deste texto mentalmente ao longo dos últimos meses, e uma ideia recorrente de início seria uma espécie de refação/imitação do começo de Quem matou meu pai, algo que seria mais ou menos assim:

Se este texto fosse uma dramaturgia, ela seria composta de quatro personagens. A peça Papaizinho,, um crítico, um filho e um pai. Não há conversa senão um grande monólogo. A peça já aconteceu e o que ela tem a dizer só pode ser dito pelas palavras de quem a viu. O crítico e o filho são a mesma pessoa. E o pai morreu. Assisti Papaizinho, no Sesc Belenzinho, em São Paulo, no dia seis de dezembro de 2025. Um dia antes, em Ribeirão Preto, meu pai estava sendo internado; ficou no hospital até o dia 15. Em algum momento desses dez dias, tentei começar esse texto. Quando consultei no Kindle minhas anotações de Quem matou meu pai comecei a chorar e desisti. No início deste 2026, estava na praia quando minha irmã me ligou. “Papai morreu”. Poucas horas depois, entrei no meu quarto e sobre a mesa estava outro livro que consultei umas semanas antes: A Morte do Pai, de Karl Ove Knausgard. “Para o coração a vida é simples”, são suas primeiras palavras, “ele bate enquanto puder. E então para”. Papai morreu. Louis nomeia aqueles responsáveis pela morte de seu pai. Quem matou o meu pai? A realidade, talvez. Quando contei para um amigo dele sobre sua partida, o amigo me disse “ele sempre teve dificuldades com a realidade”. Acho que eu também tenho. Carrego seu nome e mais algumas coisas.

A encenação de Papaizinho, tem uma grande sacada: não é literatura. Esquisito falar assim, mas me parece fazer sentido. Tem algo de vivo na linguagem teatral, seja na metateatralidade, na performatividade, no embaralhamento entre ficções e reais (do Louis, do Scot, do Rocha, de todo mundo envolvido ali), no recurso do vídeo e de jogar com esse recurso nas audições de pais e filhas filhos filhes, brincar com quem tá vendo, fazendo a gente se perguntar o que é que tem de verdade ali – e o que importa disso, Papaizinho, é sobre um pai, vários pais, a ideia de ser pai; “balança um galho caem sete” pais que foram meio merda com seus filhos. É de um encontrar-se(r) filhozinho no meio desse caos da vida e da crise da masculinidade (e da homofobia e das violências – de gênero, íntimas, sociais, políticas) e eu gosto muito que o título tem uma vírgula porque traz algo de uma missiva, um desejo que de novo vai na direção da comunicação do encontro e se pro Louis é impossível porque “escrever a história da vida dele”, do pai dele, “é escrever a história da minha ausência” em Papaizinho, é possível pacas porque a ausência se torna uma forma de presença e na VHS antiga o Scot desaparece – como voltar? – e o pai continua lá.

Nos meus vídeos de infância, lembro pouco de ver meu pai. Comigo ele parecia sempre estar por trás das câmeras, interessado maior em registrar os acontecimentos pra poder revisitá-los. A imagem do meu pai, a representação dele em fotografias e em movimento que insiste em se fazer presente na minha memória, é a de seus trabalhos como ator. Fiquei com seus arquivos e ele organizava muito bem seu clipping e portfólio, e no meio disso tinha um álbum divertido feito pela minha mãe de presente pra ele com registros de quando vivemos em Lisboa enquanto ele fazia parte de sua pesquisa de doutorado e eu era uma criança pequena – como voltar? A ausência se torna uma forma de presença e parece que há tanto para ainda se descobrir. Conheci meu pai como pai, como meu pai – porque ele foi outro pai para meus irmãos e irmã, também. Agora que ele se foi, sinto mais profundamente sua existência como pessoa.

Ao mesmo tempo que Louis narra a homofobia de seu pai (não apenas no livro aqui em diálogo mas em vários outros), em Quem matou seu pai ele descobre que seu pai dançava. Descobre, por meio de uma foto, que seu pai já se fantasiou de mulher. Em um trecho de A Morte do Pai, o Knausgard se pergunta: “será que todos aqueles conhecidos do meu pai sempre estiveram ali à nossa volta?” e assim um pai é também algo de um desconhecido.

Em minhas anotações, a citação “o passado é um prólogo”, que é dA tempestade, do Shakespeare, sem muitas explicações de como ele aparece em Papaizinho,, mas no original fala de tudo que acontece até o momento que um personagem vai cometer um assassinato, e aqui dá pra pensar em tudo que nos acontece antes e nos traz até aqui. Aqui, mesmo, essas palavras, essas linhas, as frases que penso em escrever enquanto faço isso, os erros ortográficos que corrijo, algum raciocínio que estou buscando neste momento. O passado é um prólogo e no presente o coração bate enquanto puder; esse texto acho que é uma tentativa, como Papaizinho, é, de fazer-se uma possibilidade de resposta, revide, vingança – não sei, pensei nessa palavra, nessa ideia, uma vingança do que se foi, do que não foi, do que poderia ter sido. (O Louis gosta de vingança, talvez por isso eu tenha pensado nisso).

Em ser menino, um capítulo de A Vontade de Mudar, a bell hooks escreve que 

muitos garotos adolescentes sentem raiva porque a fantasia da conexão emocional entre pai e filho, o amor que imaginam que haverá, nunca se realiza. Em seu lugar há apenas um espaço de anseios vazios. Mesmo quando se torna evidente que a fantasia não vai se realizar, que a “ferida paterna” não vai sarar, os meninos se agarram a esse anseio. Isso pode lhes dar um senso de busca e o propósito de sentir que um dia será possível encontrar o pai ou, ao terem filhos, tornarem-se o pai sonhado.

Ela vai falar muito na direção de como a masculinidade patriarcal afeta meninos, como “todos os meninos estão sendo criados para ser matadores, ainda que aprendam a esconder o assassino que levam dentro e a agir como jovens patriarcas benevolentes” e essas verdades que são horríveis e que se provam verdades a cada dia e a cada notícia. Mas essa parte da fantasia que nunca se realiza me pega precisamente pelo lugar de fantasia: o amor que imaginam que haverá, nunca se realiza, com grifo meu. Que pais, em geral, tem muito a melhorar, me parece bem óbvio. Conto na ponta dos dedos em meus círculos de amizade quantas pessoas trazem a presença e o amor paterno como positivo, determinante, fundamental; esses pais existem, sim, evidente, e que bom, que bom que existem. hooks aponta para a lógica de competição que o patriarcado impõe nas relações entre pais e filhos, e precisamos sair dessa, sim, e há exemplos e é possível, tem que ser possível. Mas o que é que imaginamos? Nós, quando/enquanto meninos, o que fantasiamos? 

É como se, não sei se estou falando besteira, mas é como se fosse tangível para os meninos – e sim, são generalizações que faço aqui – o que é a conexão com a mãe, aliás, é tangível o que é uma mãe. E um pai quase que se torna um objeto a ser criado (o motorista do Uber que peguei há pouco me disse “poucos pais são pais; toda mãe é mãe”). Um pai que se espera até se notar que não há, não assim. A procura de Papaizinho, parece ser nessa direção, na direção da invenção. E então toda busca, toda tentativa, vai até esgarçar; a encenação insiste no drama, insiste na relação, insiste no confronto, insiste insiste até que… encontrar, procurar, perder: infinitivos contínuos, ciclos que (não) se quebram; inventar, procurar, perder.

Nos figurinos de Bruno Perlatto listras em tantas direções que alongam estreitam corpos e caminhos – e a relação com o vídeo, um que veste simultaneamente a jaqueta do pai e a calça do filho. No cenário de Elsa Romero patches de grama sintética – talvez a ‘quadra emborrachada da escola’ da rubrica inicial de Louis – e o que se há de verdade sobre aquele pouso e uma casa, uma casa que é tela em branco inicialmente para as projeções e ela é modular, se abre, e seus espelhos fragmentos distorções são também razão de um brilho que cega. Canta-se “Um novo Big Bang” e eu estranho esse certo otimismo ao mesmo tempo que já está ali algo sendo criado ainda sem nome.

A cena do jantar, o amigo oculto, o que se acumula (de Louis, de Papaizinho,, de mim) em contradições e o tanto que chega. Papaizinho, é violento de muitos modos, mas profundamente atravessado pela beleza de quem deseja. Deseja o desejo, talvez. A violência dramática, o confronto físico, as palavras de Louis sendo encenadas nos corpos que se agridem, isso tudo é difícil de assistir. Por reconhecer o que há de verdade ali, nos tantos embates que se fazem – físicos, verbais, concretos, subjetivos – entre pais e filhos, por identificação, por algo que tem nome mas nem sempre nomeamos. E o teatro, o teatro como essa possibilidade de refação, de outros finais, ainda que nem sempre. 

Nem sempre, nem para sempre. No programa de Papaizinho, Scot escreve que “as obras literárias podem ser rasgos abertos para outros universos e também convites para olhar nossos próprios rasgos”. Não me parece haver nenhum modo de suturar alguns de nossos rasgos; certas feridas não se fecham sozinhas nem com a ajuda de nada senão o tempo. Mesmo o tempo, em seu implacável movimento, talvez não cure tudo. Este é um texto sobre Papaizinho,, sobre mim, sobre meu pai, sobre procurar, sobre perder, sobre a frase “papai morreu”, sobre vírgulas que se tornam pontos finais. E este é um texto que não dá conta de nenhuma dessas coisas que se propõe a falar, 

mas é o que escrevi.

ficha técnica
PAPAIZINHO,

Direção: Luisa Espindula e Caio Scot
Dramaturgia: Caio Scot, Luisa Espindula, Lucas Cunha, Felipe Rocha e Júlia Portes em diálogo com a obra "Quem matou meu pai", de Édouard Louis
Intérpretes: Caio Scot e Felipe Rocha
Direção assistente e direção videográfica: Lucas Cunha
Interlocução artística: Manuel Abramovic
Direção de movimento: Romulo Galvão
Iluminação: Lina Kaplan
Cenário: Elsa Romero
Figurino: Bruno Perlatto
Desenho de som: Gabriel D'Angelo
Trilha sonora: Felipe Rocha e James Lau
Preparação Vocal: Junio Duarte
Música original "Um troço | Um fóssil": Letra e música: Felipe Rocha
Música original "Um novo Big Bang": Música: Felipe Rocha e Jonas Sá | Letra: Caio Scot, Felipe Rocha, Jonas Sá, Lucas Cunha e Luisa Espindula | Produção musical: Jonas Sá | Mixagem: Duda Mello | Músicos: Felipe Rocha - Fender Rhodes, Guilherme Lírio - Baixo e Guitarras, Jonas Sá - Sintetizadores e MPC, Pedro Fonte - Bateria
Cenotécnico: Dodô Giovanetti
Assistente de cenografia: Mariana Marton
Assistente de figurino: Evelyn Cirne
Design gráfico e pinturas: Leandro Felgueiras
Fotógrafa: Annelize Tozetto
Assessoria de imprensa: Fabio Camara
Direção de fotografia audições: Fausto Prieto
Captação de som audições: Dudu Falcão e Pedro Falcão
Elenco audições: Cristina Amadeo, Daniel Almeida, Danilo Canindé, Dudu Falcão, Glaucio Gomes, Hélia Braz, Jojô Rodrigues, Jota Santos, Júlia Portes, Lívia Feltre, Murilo Sampaio, Nely Coelho, Rodrigo Trindade, Ulysse Gallier, Valdemy Braga, Vinicius Teixeira, Vinicius Volcof
Direção de produção: Arlindo Hartz
Produção executiva: Camila Bevilaqua
Coordenação do projeto: Caio Scot e Junio Duarte
Realização: CAJU
Idealização: Caio Scot