se ver vencer
crítica de Mulher em Fuga, no rastro de Édouard Louis, com direção de Inez Viana e dramaturgia de Pedro Kosovski; atuação de Malu Galli e Tiago Martelli.
Eu queria que essa peça sobre minha mãe não acabasse nunca, que ela pudesse se contemplar pela eternidade e que eu pudesse contemplá-la se contemplando, que ela sentisse meu olhar nela e o dos outros alternando entre seu corpo e sua história, num infinito jogo de espelhos. (Édouard Louis, Monique se liberta).
No início de Lutas e metamorfoses de uma mulher, Édouard Louis diz que escrever sobre sua mãe, sobre a vida dela, “é escrever contra a literatura”. Em uma passagem de Monique se liberta, o autor compartilha que, durante a feitura do livro, pensou em “provocar a literatura”; um pouco mais adiante, questiona-se: “a literatura pode dizer tudo?”. Uma resposta positiva significa o seu fracasso na provocação; em caso da resposta ser negativa, “então, a literatura não basta”. A produção de Louis opera em uma espécie de autobiografia (autoficção?) sociológica, onde suas memórias, marcadamente associadas à sua classe social e orientação sexual, tornam-se uma matéria pulsante para observar as violências da sociedade contemporânea – escancarando, inclusive, a miséria presente em um continente construído e mantido com espólios coloniais, uma (cada vez menos) idealizada Europa.
Louis fala de si para falar dos seus; considerando suas obras já publicadas, o grande projeto do autor é retratar cada pessoa, sempre a partir dele próprio e de sua visão, com toda a complexidade que se pode haver no ato de viver, sobreviver, existir, entre sofrer, conduzir e reproduzir agressões e opressões em círculos familiares e sociais. “Escrevo sobre uma vida, um destino, para compreender por que as pessoas se tornam violentas”, afirmou o escritor à Quatro cinco um em 2023. Sua vida está em todos os seus livros. Em quatro deles, sua vida e sua voz se apresentam em relação a um Outro, feito o centro da narrativa – ainda que Louis se imprima com força a cada relato – como seu pai (Quem matou meu pai) e seu irmão (O desabamento). As duas obras citadas no parágrafo anterior – Lutas e metamorfoses de uma mulher e Monique se liberta – formam um díptico sobre Monique, sua mãe, e a relação de Édouard com ela.
Enquanto contava de uma fuga – a segunda – de sua mãe de um relacionamento abusivo, desta vez com seu pai, Louis se questiona por que tem a “impressão de estar escrevendo uma história triste”, sendo que objetivava “contar a história de uma libertação”. Lutas e metamorfoses de uma mulher, de fato, ainda não era suficiente para que o autor vingasse sua mãe – a literatura é para ele uma ferramenta de vingança, sendo a vingança a consolidação da liberdade. É quando sua mãe te liga chorando e conta que o terceiro marido está fazendo as mesmas coisas que o anterior que Louis encontra os meios de, à distância, arquitetar sua fuga, e Monique se liberta é o registro dos movimentos que seguiram o bravo gesto de sua mãe. Anos depois da fuga, Monique verá o Lutas e metamorfoses e lhe dirá: “Desde que você escreveu este livro, eu já mudei muito. Você vai precisar escrever um dia! Eu me transformei ainda mais”. Assim, como um pedido, Monique se liberta é escrito por encomenda e o autor afirma que por meio de sua mãe, descobriu “o prazer de escrever a serviço de outra pessoa”.
Para adaptar o texto de Louis na dramaturgia de Mulher em Fuga, Pedro Kosovski afirma no programa do espetáculo que perseguiu a “ação emocional da escrita autobiográfica de Louis, ação esta que rompe decisivamente com o estado de anestesia que muitas vezes marca existências assujeitadas pela norma patriarcal”. Como o francês relata em Monique se liberta, sua mãe quis ir embora antes que este terceiro marido a tornasse uma pessoa má, como o pai dele antes já a tornara. A ação da fuga é permeada pela reflexão em torno das origens – e possíveis superações – da violência que, perpetrada pelo sistema social, se estabelecem no âmago daqueles que a sofrem e que passam a reproduzi-la.
O subtítulo de Mulher em Fuga é “no rastro de Édouard Louis”. A ficha técnica aponta o escritor como autor, com Kosovski assinando a dramaturgia. A literatura – ou a operação contra a literatura – ganha a cena, estabelecendo a obra efetivamente como uma desafiadora adaptação de dois romances biográficos para o palco. O dado do real, da primeira pessoa, da verdade contida nas palavras, recebe contornos ficcionais e o enquadramento necessário à infusão de teatralidade no material literário. Os livros possuem diálogos, mas boa parte desse material primário é narrativo. Assim, Inez Viana dirige Malu Galli e Tiago Martelli em uma lógica épica, porém fortemente ancorada na relação dramática entre mãe e filho. Martelli, em certos momentos, também incorpora outras vozes, como a do pai de Louis, e é quem ocupa a função de narrador, tal qual o autor oscila entre condutor das memórias e reflexões e se faz personagem de si mesmo.
Mulher em Fuga busca estruturar-se de forma semelhante ao estilo de Louis, com fissuras temporais entre o presente da fuga e os passados que levaram mãe e filho até onde estão. Viana propõe interrupções, acompanhadas por focos da iluminação de Aline Santini – que joga com tons amarelados e luz fria na composição do espaço – e projeções de frases que poderiam ser ditas por Martelli, mas são acompanhadas pelo ator/personagem/autor com seus olhos. Pode-se pensar que o teatro em suas formas burguesas também foi construído “contra vidas e contra corpos” como o de Monique, em consonância com o pensamento de Louis, e ainda que já haja o que pode chamar de uma tradição em consolidação destas narrativas de marginalizados, invisíveis, é interessante pensar em torno de como as formas cênicas respondem em proposições contrateatrais.
Porém, talvez não seja essa a aposta de Mulher em Fuga, no sentido da linguagem sobre a qual o trabalho se funda, considerando inclusive as possibilidades dos teatros do real (mesmo que este não seja o caso aqui) e das estéticas e pesquisas dos teatros documentários. Os livros de Louis são documentos, e aqui são levados à cena como tal, mantendo então a qualidade do real, do biográfico, ainda que os corpos que ocupem o palco não sejam os documentos vivos – mas lá está a foto de Monique jovem, inspiração de Louis para a escrita.
Em uma adaptação, é natural que leitores familiarizados com o material original se mostrem mais ou menos felizes com as escolhas da dramaturgia e da encenação; não se trata, portanto, de olhar para a obra apontando o que deveria ou não ter sido incluído. Cabe, no entanto, refletir em torno do que está em Mulher em Fuga e seus diálogos com o que está em Lutas e metamorfoses de uma mulher e em Monique se liberta. Cada leitor e cada leitora construíram para si um Édouard e uma Monique, ainda que ambos existam de verdade, e especialmente no caso do primeiro, é possível ver e ouvi-lo em entrevistas e assim visualizar sua voz, seu corpo e, talvez, imaginar seu temperamento impresso em cada frase. Cada espectadora, cada espectador, também verá uma mulher em fuga e um filho, um homem, diante e ao lado dela.
Há, na costura dramatúrgica de Kosovski, momentos preciosos dos livros. Tanto áridos, como a reflexão de Louis que costura o pensamento de Virginia Woolf aos valores que entrega à mãe para efetivar cada etapa de sua jornada rumo à libertação, um pensamento objetivo em torno das condições materiais para uma vida em plenitude, independente, quanto ternos, como o momento onde Monique relata que o amigo de seu filho, Didier Eribon, disse a ela que a admirava, que ela era corajosa por fugir, e mais adiante Louis dirá ao diretor que está encenando a obra baseada em seu primeiro livro sobre a mãe para falar isso, por saber que é um elogio importante, que a faz sentir vista, que ela importa.
São duas passagens que parecem pouco aproveitadas pela encenação de Mulher em Fuga: na primeira, Martelli traz a referência, mas parece concretizar pouco a dimensão do dinheiro, da viabilidade econômica daquele plano – algo que inclusive se desdobra quando Louis pensa sobre a origem de seus recursos, que aquilo que sua mãe “experimentou como violência contra ela era o que hoje lhe permitia se libertar da violência”. No segundo caso, Galli relata o elogio e sorri contida, olhando para baixo, com ares de uma esperada e lógica timidez, mas que não produz nenhuma reação em Martelli.
Sob a direção de Viana, Galli e Martelli habitam campos distintos em suas construções. Galli é enérgica, mesmo quando retrata o medo, a sensação de pequeneza, sendo extremamente expressiva e precisa na construção da complexidade dessa mulher; da desesperança à euforia, domina a cena. Martelli, nas instâncias de narrador e personagem, atua na maior parte do tempo de forma contida, em um registro linear de poucos arroubos; por vezes, parece distanciar-se por demais da ação narrada.
Quando escreve sobre a própria vida, Louis tem domínio completo do que decide contar e do como. Se por um lado há o risco desta lente absoluta distorcer a construção de tudo que se narra, por outro, está imbricado no estilo do autor uma constante hesitação: lá estão suas dúvidas imanentes ao seu fazer, questões sobre si, sobre sua visão, sobre suas ações. Já o domínio do narrador em Mulher em Fuga incorre em uma interpretação de Martelli que passa a impressão de um quase desinteresse; um ar blasé, frio. Ao mesmo tempo, talvez essa seja a forma de dar a ver, no teatro, do “encanto da invisibilidade, do apagamento”, de tornar-se “apenas um olhar na história de um destino” que não o do autor, como ele narra ao final de Monique se liberta. Ainda assim, parecem faltar os “fragmentos de ternura no caos do passado” renascidos pela mudança na relação dos dois, conforme relatado em Lutas e metamorfoses de uma mulher.
A cenografia de Dina Salem Levy faz do palco um espaço doméstico – que será em partes detonado – propício para a ação; a longa mesa, em contraste com as origens pobres da família, dá a ver as distâncias tantas que se revelam na cena: entre filho e mãe, entre Louis e a pobreza, entre a violência, a vingança e a liberdade, entre escassez e abundância. São poucos os elementos que se destacam, e até por isso chamam a atenção. A caixa de mantimentos, cesta básica, feita uma caixa sem fundo e a comida que permanece insistente no chão gera um contínuo ruído na leitura de uma cena tão sóbria. Quase como resquícios do passado, quando Monique levava Édouard com ela para ver se a presença de uma criança ajudaria na busca por mais comida; um passado que permanece como lembrança, mas que agora também sugere o desperdício possível do presente.
A bateria que surge após a derrubada de uma parede é a solução cênica para um quase impossível momento central de Monique se liberta: a mãe vendo, no palco, sua história sendo contada, sua existência sendo reconhecida, sua coragem sendo celebrada. A vingança de Louis é possibilitar à sua mãe se ver vencer depois de “uma sucessão de Primeiras Vezes”, uma vitória em “uma guerra contra um exército de Nuncas”.
É um achado de Mulher em Fuga o uso de Wind of Change, dos Scorpions – referência ao único disco que Louis afirma que sua mãe tinha (“ela, que nunca ouvia música, punha-se a assobiar e a cantar. Ela sorria, É a música da minha juventude”) – cuja letra encaixa perfeitamente na caminhada de Monique em seus ventos de mudança. Num quase brincar de tocar bateria, Monique está feliz, é vista, se vê sendo vista, vence. A transformação que se lê, que se vê, é também a transformação da percepção de Louis sobre Monique; afirmando ser arqueólogo da própria mãe, perguntando sobre sua juventude, seu passado, o autor afirma que o vínculo entre eles só se tornou possível quando ela deixou de ser (apenas) sua mãe. Mulher em Fuga, na força da interpretação de Galli, torna-se uma impactante celebração da vida plena de mulheres que, entre tantas outras coisas, são mães.
— Ah é? Eu sou importante?
Essa frase ela não conseguiu controlar, saiu dela, pura, verdadeira, absoluta.
— Claro que é! Veja todas as pessoas que vieram ouvir sua história.
Ela ficou desconcertada. Eu a abracei. (Édouard Louis, Monique se liberta)
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serviço
MULHER EM FUGA
Temporada: 15 de janeiro até 8 de fevereiro. Quintas, sextas e sábados às 20h e domingos às 18h.
Sesc 14 Bis – Teatro Raul Cortez
Rua Dr. Plínio Barreto, 285 – 2º andar – Bela Vista, São Paulo
Próximo ao Metrô Trianon-Masp (Linha 2 - Verde)
Telefone: (11) 3016-7700
Ingressos: R$ 70,00 (inteira), R$35,00 (meia entrada) e R$ 21,00 (credencial)
Acessibilidade: Libras nos dias 29, 30, 31/jan. e 1/fev., e audiodescrição nos dias 31/jan. e 1/fev.
Classificação: 14 anos
Duração: 80 minutos
ficha técnica
MULHER EM FUGA
Autor: Édouard Louis
Dramaturgia: Pedro Kosovski
Direção artística: Inez Viana
Elenco: Malu Galli e Tiago Martelli
Assistência de direção: Lux Nègre
Cenografia: Dina Salem Levy
Cenógrafa assistente: Alice Cruz
Desenho de luz: Aline Santini
Trilha sonora: Felipe Storino
Figurino: Ticiana Passos
Orientação de movimento: Denise Stutz
Assessoria de imprensa: Ney Motta
Fotografia: João Pacca
Designer: Opacca e Fernando Vilarim
Operador de luz: Paulo Maeda
Operador de som: Cauê Andreassa
Direção de produção: Gabriela Morato | Associação Sol.te
Coordenação geral de produção: Cícero de Andrade | Mosaico Produções
Produção: Dani Simonassi, Tiago Martelli, Matheus Ribeiro, Thais Cairo
Idealização: Tiago Martelli
