um movimento de paisagens quase estáticas
crítica de Morte e Vida Severina, encenação da Companhia Ensaio Aberto para o texto de João Cabral de Melo Neto.
Ainda são muitos Severinos, iguais em tudo na vida, morrendo da mesma morte severina. Passados setenta anos do auto de Natal pernambucano escrito entre 1954 e 1955 por João Cabral de Melo Neto, grande parte da população mundial vive aquela vida que é menos vivida que defendida. Como afirma o diretor da Companhia Ensaio Aberto (RJ), Luiz Fernando Lobo no programa da encenação de Morte e Vida Severina, estreada originalmente em 2000, remontada em 2022 e que chegou aos palcos paulistanos no final de 2025, “enquanto a fome persistir no Brasil ou em qualquer país do mundo a indignação é nossa obrigação e Morte e Vida Severina uma peça necessária”.
A encenação mantém o texto original e as músicas de Chico Buarque eternizadas pela montagem de Silnei Siqueira em 1965 – em sua crítica ao espetáculo, Dirceu Alves Jr. aponta que o próprio autor teria confessado ao compositor: “não conseguirei jamais ler Morte e Vida Severina sem associá-la com sua música”; aqui, elas ganham arranjos criados pelo diretor musical Itamar Assiere, que executa a trilha ao vivo ao lado de Matheus Queiroz (ambos no acordeon), Saulo Vignoli (cello), Mingo Araújo (percussão) e Marcílio Figueiró (violão e viola).
As canções tornam-se, na voz de um numeroso coro, uma atmosfera que conduz os movimentos (migratórios e cênicos) desta Morte e Vida Severina feita quase como uma ópera-ladainha. É um-Severino que acompanha o Capibaribe do Sertão ao mar, interpretado por Gilberto Miranda – seus 72 anos contrastam com a velhice antes dos trinta narrada, algo destacado por Dirceu Alves Jr. na crítica supracitada, ampliando as leituras sobre o poema cênico a partir de sua mera presença. Dos tantos corpos que habitam o espaço surgem as demais personagens que o Severino que emigra encontra pelo caminho. A ficha técnica elenca a todas e todos como Severinos, no que surge como intuito central da Ensaio Aberto: fazer deste um retrato social que atravessa tempos e geografias.
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Morte e Vida Severina apresenta-se como um trabalho de grande esmero técnico, preciso em suas escolhas e na sua aridez: há pouca ou nenhuma ação; o elenco desenha composições coletivas que se fazem um movimento de paisagens quase estáticas. Entre o tanto de morte, tableaux vivants fazem da cena de fato campo de retratos. No início de sua crítica, Márcio Boaro traz uma frase dita por Adriano Diogo, político e militante brasileiro, ao final do espetáculo: “parece Portinari ao vivo”, e aponta que tal afirmação seria uma chave de leitura para a obra.
É mesmo difícil não pensar nas obras de Cândido Portinari, em especial sua representação de retirantes e também da seca. As imagens de Morte e Vida Severina, construídas no harmônico diálogo entre a cenografia de J.C. Serroni, a iluminação de Cesar de Ramires e as movimentações do elenco, bem como os figurinos de Beth Filipecki e Renaldo Machado ecoam as pinturas de Portinari. Até mesmo o ciclorama utilizado parece remeter aos fundos dos quadros, entre brilhantes azuis e pálidos amarelos.
Por outro lado, a obra de Lobo não parece filiar-se integralmente ao expressionismo de Portinari. Há um jogo entre artificialidade e naturalismo em Morte e Vida Severina, algo que talvez poderia se dizer que seja a aposta dialética da encenação: lá está a aridez do Sertão, uma casa de pau a pique ganhando a cena, uma cova na terra seca, velas e bandeiras para as incelenças; lá está o ciclorama feito de dias e noites que se passam, de migrações intermináveis de pessoas feitas contornos, uma ponte sobre o rio que afoga na preamar e sufoca na baixa-mar. O que predomina, no entanto, é a representação direta do narrado em Morte e Vida Severina.
Trata-se, assim, de algum modo, de uma encenação que não parece buscar encontrar os meios de, esteticamente, dar a ver o que surgem como as intenções do diretor, que, em texto presente no programa da obra, versa sobre as transformações das “manchas demográficas da Geografia da Fome”, que deixam de estar localizadas “apenas nos sertões do Nordeste” e ganham as grandes cidades – “a fome não está mais na periferia, está no centro”, afirma Lobo.
Não há gestos artísticos que operam neste sentido, em que pesem críticas como a de Bob Sousa apontarem que a escolha por uma “identidade compartilhada” entre os tantos Severinosfaria com que a obra afastasse-se do “regionalismo folclórico e aproximando-a de uma reflexão global sobre desigualdade e exclusão”, afirmando também que a “cena expõe, sem concessões, a permanência da fome e da morte severina em pleno século XXI, deslocando o poema de seu contexto histórico original para um presente marcado pela desigualdade global”. A identidade compartilhada pode se dar visualmente, mas ela ainda está, pelos figurinos e pela cenografia, atrelada a um regionalismo folclórico ao permanecer ligada a um imaginário de Nordeste que já se vê em disputa há décadas (um bom debate teatral sobre isso é a obra do Grupo Carmin, do Rio Grande do Norte, A Invenção do Nordeste, a partir do livro de mesmo nome de Durval Muniz de Albuquerque Jr.), não trazendo para o palco outras chaves de leitura para o clássico de João Cabral de Melo Neto.
Também Márcio Boaro segue um caminho semelhante ao de Sousa, afirmando que o trabalho “amplifica a fala dos marginalizados e convida a pensar os mecanismos atuais de exclusão e apagamento”; é possível pensar se tal convite não se dá pelo fato do fenômeno teatral acontecer no tempo presente e assim o público é automaticamente convocado a traçar os paralelos com a atualidade.
No próprio texto de João Cabral de Melo Neto há diversas passagens que ampliam a obra para tantos outros Capibaribes pelo mundo, como na conversa entre coveiros sobre a desigualdade social que se vê a partir da observação de cemitérios de diferentes bairros, ou do movimento de industrialização apontado pela Cigana que vê a criança que nasce não no mangue, mas em uma fábrica, apenas para ficar em dois exemplos. Assim, não se trata de uma necessidade de adaptar o texto original, mas uma provocação em torno de como convocar o público a outras reflexões a partir da encenação para além dos textos do programa que sinalizam as questões de fundo da presente montagem.
No texto de Boaro, o autor aponta que o “retirante de 1954 encontra seus equivalentes nas novas geografias da exploração: periferias urbanas, trabalhos desregulados, migrações forçadas”, verificação que atesta a potência atual do poema pernambucano e que leva o crítico a afirmar que “a universalização, então, não é só estética — é histórica”. Porém, é difícil verificar nas escolhas da encenação esse suposto gesto universalista. Quando Bob Sousa aponta, na crítica supracitada, para uma “ampliação geográfica” que “redefine o sentido da obra”, parece referir-se mais às intenções apresentadas do que a materialidade da cena, de modo que Morte e Vida Severina não efetiva essa pretensa transformação da personagem central – multiplicada – em uma “figura universal”, como aponta o crítico, “síntese dos corpos precarizados pelo capitalismo global”. As representações vistas no palco parecem não ir além do trajeto enunciado – e, assim, de um tempo e de uma geografia.
Ainda sobre os textos de Sousa e Boaro, no que tange a presença dos músicos, o primeiro afirma que estão “integrados à ação”, sendo “elemento decisivo na construção da visualidade”, enquanto o segundo escreve que “posicionados na boca de cena, tornam-se parte orgânica do espetáculo”, não estando “escondidos no fosso ou em coxias”. No entanto, o local escolhido para os artistas é um arremedo do proscênio, com a cortina inclusive atrapalhando o cellista nas cenas em que está cobrindo o palco e em seus movimentos de abertura e fechamento; além disso, observando de uma posição central da plateia, o percussionista está oculto por uma das pernas das coxias. Causa estranhamento que em um trabalho onde a composição cênica parece milimetricamente pensada, em entradas, saídas, travessias, coralidades e paisagens, que o grupo de músicos ocupe um espaço tão exíguo, entre o visível e o invisível.
Há uma curiosa escolha para a representação de Seu José, mestre carpina: o diretor Luiz Fernando Lobo entra em cena, sendo a única figura de toda a encenação que não emerge do coro. O estranhamento talvez tenha o intuito de intensificar a dialética dos desdobramentos finais de Morte e Vida Severina, um encontro-embate entre um salto para o morrer e a insistência nos retalhos de vida até a explosão de um nascimento severino. Porém, essa inesperada chegada traz consigo outros riscos de leitura: primeiro, a vida é trazida por um outro, um que vem de fora, talvez por isso visto menos como Severino, ainda que habite o lamaçal entre o cais e a água do rio; segundo, o destacado sotaque carioca de Lobo desloca as geografias da obra de forma marcante, não em um lugar de universalização, mas um choque que leva a reflexão em torno das localizações da narrativa original e da presente produção. Uma montagem do Rio de Janeiro, um auto de Natal pernambucano, um teatro paulistano: como não incorrer na reprodução de imaginários sudestinos sobre as outras regiões; como fazer do universal, local e do local, universal?
No todo desta Morte e Vida Severina, há uma força de beleza e de comunicação com o público. Como disse João Cabral de Melo Neto em depoimento ao jornal O Popular em 1981, excerto muito bem escolhido para compor o programa da montagem da Ensaio Aberto, Morte e Vida Severina é sua “experiência de infância”, e não deve ser incomum que se trate de uma memória partilhada por muitas pessoas na plateia do Sesc Pinheiros, migrantes dos estados nordestinos ou sudestinos filhos e netos de migrantes, que cresceram ouvindo histórias de mães, pais, avôs e avós. Também pela relação afetiva que se pode ter com o texto ou com as canções de Chico Buarque. E pelo fato do poema ser “a reflexão sobre uma realidade, sem outro compromisso que não seja com a verdade”: a fome segue sendo um escândalo em um mundo que se estrutura na abundância de poucos e escassez de tantos; e se “é irmão das almas quem ouve nossa chamada”, a Companhia Ensaio Aberto faz a seu modo uma irmandade.
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ficha técnica
MORTE E VIDA SEVERINA
Companhia Ensaio Aberto
Trabalhadores do Espetáculo
Texto João Cabral de Melo Neto
Músicas Chico Buarque
Direção Geral Luiz Fernando Lobo
Direção Musical e Arranjos Itamar Assiere
Direção de Produção Tuca Moraes
Cenografia J. C. Serroni
Iluminação Cesar de Ramires
Figurino Beth Filipecki e Renaldo Machado
Programação Visual Jorge Falsfein e Marcos Apóstolo
Produção Aninha Barros
Severinos
Gilberto Miranda – Severino | Anderson Primo – Irmão das Almas, Funeral de um lavrador | Ana Clara Assunção – Mulher da Janela | Bibi Dullens | Carla Muzag – Funeral de um lavrador, Cigana 3 | Eduardo Cardoso | Grégori Eckert | Iris Ferreira | José Guerra | Kyara Zenga | Leonardo Hinckel | Luciano Veneu – Irmão das Almas | Luiz Fernando Lobo – Mestre Carpina | Mariana Pompeu – Nanã, Anunciação, Cigana 2 | Mateus Pitanga | Matheus França | Mika Makino | Pedro Fernando – Irmão das Almas | Rafael Telles | Rossana Russia – Maria | Thaise Oliveira | Tomás Santa Rosa | Tuca Moraes – Cigana 1 | Victor Hugo | Victor Seixas
Músicos
Acordeon - Itamar Assiere e Matheus Queiroz
Cello - Saulo Vignoli
Percussão - Mingo Araújo
Violão e Viola - Marcílio Figueiró
Assistente de Direção Octavio Vargas e Paola de Paula
Assistentes de Produção Laura Gonna
Produção de Set Fellipe Rodrigues
Preparação Vocal Ana Calvente
Preparação Corporal Luiza Moraes e Mika Makino
Músicas Adicionais Itamar Assiere, Carlinhos Antunes, Airton Barbosa
Design de sonorização Branco Ferreira
Sonorização Gramophone
Operação de som Branco Ferreira
Operação de luz Pedro Passini
Microfonista Ana Bittencourt
Assessoria de Imprensa Armazém Comunicação | Christina Martins
Coordenação Ciência do Novo Público Clarice Tenório Barretto
Ciência do Novo Público Andreza Dias, Gilberto Miranda, Grégory Eckert, Júlia Freiman, Mateus Pitanga, Maura Santiago e Thaise Oliveira
Fotos e Imagens de Divulgação Thiago Gouveia
Fotos do Programa Thiago Gouveia, Renam Brandão e Leon Diniz
Vídeos Maria Flor Brazil, Claudio Tammela | Banda Filmes
Ilustrações Carybé
Gerente de Projeto Gráfico Priscilla Fernandes
Produção Gráfica Marcello Pignataro
Assistente de cenografia Débora Ferreira
Pintura de arte Biby Martins, Beatriz Leandro, Danubria Martins e Andréia Amorim
Estagiária em cenografia Nick Cavalcanti
Cenotécnicos Wagner de Almeida e José Alves
Maquinista Sidney Viana
Técnicos Valdeir Baiano e Pedro Passini
