o resto é nóiz
crítica de Hip Hop Hamlet, com direção artística de Guilherme Leme Garcia e Núcleo Bartolomeu de Depoimentos.
“À luz dos tempos que correm e em que estou escrevendo estas linhas, tempos sangrentos e tenebrosos, à luz da existência de classes dominantes criminosas e de uma desconfiança generalizada na razão, da qual continuamente se abusa, creio poder ler esta fábula da seguinte forma: está-se em tempo de guerra.” (Bertolt Brecht, sobre Hamlet, em Pequeno órganon para o teatro)
“Quem é em verdade Ofélia, quem é em verdade Hamlet? Isso pouco importa, por enquanto, mas, sim, o que é o roteiro? O mecanismo da história, o destino, a condição humana? […] Hamlet é o drama das situações impostas.” (Jan Kott, Shakespeare nosso contemporâneo)
O disco da história segue em seu implacável giro. Em meio às infinitas e sucessivas rotações por minuto, o Núcleo Bartolomeu de Depoimentos e Guilherme Leme Garcia fazem de Hamlet base sobre a qual se sampleia, com precisos needle drops a partir do roteiro shakespeariano, escolhendo o que se conta do “cânone universal”, o que se (des-)inventa do humano entre beats, depoimentos e mash-ups. O Teatro Hip Hop faz da cena um campo de evocação de fantasmas, retomando origens e narrativas onde a repetição é um scratch no tempo, fazendo irromper futuros e liberdades no presente agora.
Desenrolam-se as portas de aço que isolam o castelo e as ruínas da Dinamarca são as ruínas de todas as guerras projetadas na cenografia de Bijari, enclausurando as personagens em desertos urbanos, galerias abandonadas, cidades em escombros. Nos figurinos de Claudia Schapira, tons de cinza concretam as personagens, entre a gola rufo e os sneakers brilhantes, sobrepondo camadas de roupas e períodos históricos. Hip Hop Hamlet emerge da desolação dos tempos que correm e o primeiro fantasma a surgir é o do próprio príncipe. Não há mais vivos, mas a pulsão é de vida. Dom Capelari é o jovem Hamlet, fazendo de uma pedra, rastro da destruição, a caveira onde se vê – e quase como comentário cômico, antes mesmo de começar a falar desfaz a imagem, que de fato não pertence ao momento que se seguirá. As palavras que inauguram Hip Hop Hamlet são shakespearianas; se a tragédia do príncipe da Dinamarca fosse uma música, o solilóquio da primeira cena do terceiro ato seria o refrão. É ali que se começa, e Capelari traz em sua bonita interpretação a hesitação daquele que se vê lançado à desgraçadas circunstâncias.
Então, lentamente, ganham o centro da cena duas figuras, talvez as únicas vivas, guardiãs dos mortos que voltam à falar. Luaa Gabanini e Roberta Estrela D’Alva, coveiras, em vestes vermelho-sangue, fazem dos microfones em pedestais suas pás para retirar das covas Hamlet, Ofélia (Ayomi Domenica), Rei (Jairo Pereira) e Rainha (Lilian Valeska). Sua ação são as palavras, metrificadas, precisas, medidas, proféticas. Dani Nega surge como terceiro elemento, uma MC-Yorick, transitando entre os mundos, caveira na mão, enquanto a Bgirl Pjump é fantasmagoria corpórea, traduzindo, amplificando, recriando passos que pulsam na batida da trilha sonora e nas rimas. A dramaturgia de depoimentos, de Schapira com intervenções textuais de Lucas Moura, é ritmo e poesia – Estrela D’Alva e Nega assinam métricas, spoken word e arranjos vocais.
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Mestra de Cerimônias, b-girl, grafite feito videocenário e, evidentemente, DJ: os quatro elementos do Hip Hop se completam com Eugenio Lima comandando as pickups, acompanhado de Daniel Oliva no gruvi da guitarra. O elenco clama: spin that shit! e, então, toma pedrada. O programa virtual do espetáculo apresenta o roteiro musical, recheado de clássicos da black music; não só o rap, mas também o soul e o R&B embalam Hip Hop Hamlet. O Núcleo Bartolomeu de Depoimentos traz em sua trajetória uma pesquisa consolidada na linguagem do teatro hip-hop, um cruzo da proposta brechtiana com a cultura nascida nas block parties do Bronx (Nova Iorque/EUA) em 1973, sendo uma de suas assinaturas a utilização de samples na tessitura de sua estética musicada. Em Hip Hop Hamlet, o grupo, ao lado de Leme Garcia, simultaneamente retorna de algum modo às suas origens ao mesmo tempo em que se inaugura em uma forma diferente da que se costuma ver nas teatralidades do sujeito teatro de grupo paulistano.
O retorno se verifica em uma recusa ao performativo que deu contorno às últimas obras do grupo. Os depoimentos, estruturais e estruturantes na criação dos espetáculos do Bartolomeu desde sua origem, ganharam na última década um dado do real; atores e atrizes, mais do que em situação, mais do que narradores, eram também artífices de histórias próprias, atravessados por questões que os atravessavam de modo pessoal, como em Hip Hop Blues – espólio das águas (2022), ou em construções ficcionais, como o espaço de ensaio de Terror e Miséria no Terceiro Milênio (2019). Também, em trabalhos como Memórias Impressas (2015) e Efeito Cassandra (2016), um gesto artístico na direção da dimensão do acontecimento tornou-se dispositivo cênico na utilização de fones de ouvido e direcionamentos dados em tempo real. Assim, a presente obra irmana-se com trabalhos do início dos anos 2010, como Antígona Recortada (2013), um poema de ação dramática que sintetizava a pesquisa do grupo, ou até mesmo Orfeu – uma hip-hópera brasileira (2011)no entremear dos depoimentos e situações.
Também, a lida das dramaturgias de Schapira com materiais clássicos – além dos mitos de Orfeu e de Cassandra e da já citada Antígona, em sua primeira década o Bartolomeu recriou (recontou? sampleou?) Bartleby, o escriturário de Herman Melville (Bartolomeu, que será que nele deu?, 2000) e A Vida é Sonho, de Calderón de la Barca (Acordei que sonhava, 2003), além de ter trabalhado a partir da Odisseia em Frátria Amada (2006). Estão presentes, portanto, lógicas que fazem de Hip Hop Hamlet extremamente reconhecível como obra ligada à trajetória do Bartolomeu, mas que aqui parecem reorganizar-se de outro modo. O épico encontra outras cores – e assim, possivelmente, outros públicos.
Inaugurando o Teatro YouTube – que manteve o nome de Eva Herz, homenageando a fundadora da Livraria Cultura, na sala de espetáculos – que integra o complexo da Galeria Magalu, Hip Hop Hamlet é fruto de ideia original de Monique Gardenberg, com produção da Aventura e patrocínio da B3 por meio da Lei Rouanet, além de trazer menção ao fomento via ProAC SP. É importante localizar o contexto da realização de uma obra, considerando que os meios de produção estão em constante diálogo – harmônico ou dissonante – com os processos de criação. Não no sentido de determinantes, mas como circunstâncias que impactam o fazer. Assim, é essa a realidade do convívio da direção de Leme Garcia e do Núcleo Bartolomeu de Depoimentos (que, pela primeira vez, assina coletivamente a função). Hip Hop Hamlet ganha os palcos como um produto feliz, genuíno deste encontro; o que se vê é o frescor de um quase-brincar com a linguagem musical. Mesmo nos embates entre as personagens, com os diálogos estruturados como spoken word, a atmosfera é de uma disputa sadia, como se vê nos slams e batalhas de rimas espalhadas pela cidade.
Certas cenas são pensadas para criar imagens ao final de músicas, por exemplo, onde composição espacial e iluminação convocam a plateia aos aplausos, quase como números; ainda que não isolados, ainda que a costura entre a dramaturgia de Schapira e as letras das músicas sampleadas façam delas organicamente narrativa ou comentário narrativo. Hamlet é quase pretexto, ainda que se faça necessário que sejam aquelas personagens que se apresentem ali. A angústia do príncipe dissipa-se, o protagonismo é coletivizado na lida com a situação central e as circunstâncias que envolvem a cada um e a cada uma de um diferente modo.
Os depoimentos de Hip Hop Hamlet são exercícios de reflexão que dão a ver as possibilidades de ação de cada um. Contradições, angústia, hesitação, dialética: exames de consciência em Hamlet, Ofélia, Rei e Rainha; o que se fez e o que se faz com o que é feito de nós. Existências em tempos de guerra e as responsabilidades e agências em torno delas. Quem tem o poder de riscar o disco da História? Em uma projeção-evocação, um desejo pelo “devir e nada mais”. A agulha espiralando o giro do vinil, os scratches idas e vindas do tempo. Nas projeções, a São Bento e o berço do hip-hop brasileiro: lembranças de inaugurações, invenções, retomadas; tecnologias de convívio e resistência, celebrações em meio ao caos, começos e começos, insistências.
Hip Hop Hamlet é festa e guerra. A história é contada quando tudo já são ruínas; o exército de Fortinbras já chegou, todo o sangue já foi derramado, a tragédia ainda não consegue se separar da vida. Até quando; desde quando? Um Rei cínico e carismático, jogando o jogo dos tronos. Uma Rainha que busca ser mais do que as funções que ocupa. Uma Ofélia fora d’água, feita terra, que recusa gestar nova vida e faz do que era loucura profecia e maldição. Um Hamlet querendo olhar para além de si. “E agora, Hamlet?”, ecoa a pergunta para além da vingança, convocando o devir; Hip Hop Hamlet é também sobre tornar-se o que se é dentro daquilo que nos contorna. Não há nada de silêncio: diante das situações impostas, das circunstâncias do mundo, o resto é nóiz.
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serviço
HIP HOP HAMLET
Temporada 18 de dezembro de 2025 até 08 de fevereiro de 2026
Quartas, quintas e sextas, às 20h. Sábados, às 17h e 20h. Domingos, às 18.
Teatro YouTube (dentro da Galeria Magalu, no Conjunto Nacional)
Avenida Paulista, 2073
Ingressos à venda no Eventim
Valores: De R$ 25 a R$ 100
Duração: 70 minutos
Classificação: 12 anos
ficha técnica
HIP HOP HAMLET
Direção Artística Guilherme Leme Garcia e Núcleo Bartolomeu de Depoimentos
Dramaturgia Claudia Schapira
Colaboração Dramatúrgica Lucas Moura
Direção Musical Eugênio Lima, Daniel Oliva, Dani Nega e Roberta Estrela D’Alva
Elenco Ayomi Domenica, Bgirl Pjump, Daniel Oliva, Dani Nega, Dom Capelari, Eugenio Lima, Jairo Pereira, Lilian Valeska, Luaa Gabanini e Roberta Estrela D’Alva.
Métricas, Spoken word e Arranjos vocais Roberta Estrela D'Alva e Dani Nega
Direção de Movimento e Coreografia Luaa Gabanini e Flip Couto
Cenografia, Videocenografia e Identidade Visual Bijari
Figurino Claudia Schapira
Desenho de luz Wagner Pinto
Idealização Monique Gardenberg
Direção de Produção Bianca Caruso
Direção Artística Aventura e Produção Geral Aniela Jordan
Direção de Negócios e Marketing Luiz Calainho
