contemplar finitudes
crítica de Escrevendo na cova de alguém, performance de Lena Giuliano. o ruína acesa faz parte do projeto arquipélago de fomento à crítica.
“É preciso durante toda a vida aprender a viver e, o que talvez cause maior admiração, é preciso durante toda a vida aprender a morrer.” (Sobre a brevidade da vida, Sêneca)
“(…) nenhum homem que tem a infância atrás de si deveria esquecer-se da morte por um só minuto, tanto mais quanto a sua espera constante não só não envenena a vida, mas lhe empresta firmeza e claridade” (Lev Tolstói, em carta a sua tia)
Ir a um velório é sempre um memento mori. É um gesto de honrar os mortos, sim, mas parece especialmente voltado aos vivos. A despedida dos que se foram mistura-se ao acalento aos que ficam. Também, invariavelmente, ao contemplar o fim de um outro, somos acometidos pela memória do nosso inescapável destino. Memento mori: lembre-se da morte. Na performance Escrevendo na cova de alguém, o gesto criativo de Lena Giuliano possibilita uma teatralização do vindouro fim – na ficção, pode-se estar presente e atento no próprio funeral.
Diante de um caixão vazio, Giuliano escreve algo. O som das teclas da máquina de escrever mistura-se a uma eclética trilha sonora. O público toma seus lugares, observa, aguarda. Uma mesa, duas cadeiras, uma máquina de escrever, um cordão de luzes penduradas, luzes vermelhas no chão ao fundo ladeadas por vasos com flores. E o caixão vazio. O tempo, a espera, a suspensão: elementos que se fazem presentes desde o início de Escrevendo na cova de alguém.
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A performance concebida por Giuliano tem uma trajetória curiosa: desenvolvida no contexto do One to One Art Project, financiado pela Creative Europe, foi apresentada na Croácia, Finlândia e Portugal antes de chegar no Brasil – onde estreou na Farofa do Processo, dentro da programação da Plataforma URGIA integrada à ação, em 2025, na Funarte, em São Paulo. Nestes contextos, Escrevendo na cova de alguém era estruturada como uma performance para um público de uma pessoa só.
Depois de pontuais apresentações com mais do que apenas o alguém cuja escrita se daria na beira da cova presente, Giuliano decidiu realizar uma primeira temporada em que parte do público participa e outra parte assiste. Em quatro apresentações no Teatro Manás Laboratório, a escritora-performer realizou três obituários por sessão – cada apresentação teve cerca de uma hora.
Quando Giuliano termina sua escrita inicial, dobra o papel, guarda em um envelope e pede que alguém do público fique com o objeto durante a performance, até que ela sinalize o momento dele ser lido. Então, a performer descreve o que acontecerá. Na sessão de Escrevendo na cova de alguém assistida, a seleção das pessoas se deu entre aleatoriedade e intenção: sob três cadeiras, havia um envelope vazio, indicando que cada uma dessas pessoas escolheria uma alguém para deitar no caixão; às interessadas era solicitado que levantassem as mãos, dando um certo contorno para a escolha. Em outras sessões, a performer recorreu a uma série de perguntas “eliminatórias” entre quem gostaria de participar. Este dispositivo inicial parece ser algo que ainda carece de uma maior experimentação em torno da maneira ideal, em especial neste formato, da caixa cênica, com duração restrita (durante a Farofa do Processo, Giuliano chegou a ficar mais de quatro horas recebendo pessoas).
Definidas as pessoas participantes, Escrevendo na cova de alguém efetivamente acontece. Giuliano posiciona-se na frente de alguém, ambas sentadas à mesa, e inicia uma conversa sobre a vida e sobre a morte. Ela solicita que a pessoa escreva seu nome da forma que gostaria que ele estivesse no obituário e então começa suas perguntas. Trata-se, simultaneamente, de um programa performativo pré-estabelecido pela artista e de um ato de escuta e atenção genuína. Giuliano compreende quando seguir adiante, quando encontrar frestas para provocações e aprofundamentos, quando rir junto e quando calar.
Depois de perguntas, respostas, trocas e um bonito diálogo sobre sonhos ainda não-realizados, desejos de vida e morte, de formas de morrer, de pensamentos sobre o que acontece depois e organizações para o que acontece depois (como o velório e os encaminhamentos do corpo), Giuliano pede que a pessoa indique duas músicas e então deite-se no caixão. No tempo em que escutamos as canções e as teclas da máquina de escrever, a performer prepara o obituário, que recebe o carimbo da performance e é lido para a pessoa ainda deitada. Depois, todo o público é convidado a velar o corpo por um breve período; voltam aos lugares, o velado levanta-se e ganha seu obituário.
A experiência de Escrevendo na cova de alguém, quando realizada de forma um-pra-um, é um momento íntimo de reflexões sobre a própria finitude. Fica a critério de cada um se irá compartilhar as palavras escritas, e também resta um imenso mistério entre o que foi dito na conversa com Giuliano e o que resultou no obituário. A experiência de Escrevendo na cova de alguém realizada diante do público é um convite a contemplar finitudes, essa pluralidade absolutamente singular.
Na convenção – ou, talvez, no pacto – proposta pela performer, instaura-se uma operação de tempos, expectativas e meditações. O público que acompanha, enquanto escuta a conversa, é levado a refletir sobre as respostas que gostaria de dar para aquelas perguntas. Durante a escrita, pode-se observar o ato de criação de Giuliano ou observar a si próprio. Com a escolha das músicas pelos alguéns, atmosferas distintas se constroem, do agito à melancolia; da beleza e da tristeza do viver e do morrer. Escrevendo na cova de alguém movimenta enquanto suspende, criando hiatos onde a atenção flutua entre o dentro e o fora de cada pessoa na plateia.
Ainda, na sucessão da feitura de três obituários, outras camadas se abrem. As pessoas que serão as próximas alguéns acabam tendo mais tempo para pensar sobre o que gostariam de falar, quais são os desejos que irão compartilhar, o quanto de si querem abrir para a performer e para os que assistem. E na repetição do programa performativo, compreende-se (ou fabula-se) os meios pelos quais Giuliano costura o que escutou nas palavras dos obituários.
Os obituários resultam em breves textos que transitam entre o humor, a graça, a beleza, a tristeza e, porque não, a tragédia. Enquanto Giuliano escuta, o público também passa a escrever aqueles obituários de alguéns na própria mente. Cria-se um jogo entre o fazer da performer, o fazer de cada alguém e o fazer do público. É possível acessar (e, de certo modo, coparticipar de) Escrevendo na cova de alguém tanto por sua estrutura quanto por seu conteúdo; a escrita ao vivo e a morte.
Do um-pra-um para a caixa cênica com plateia, é nítido que Escrevendo na cova de alguém se trata de uma performance de diversas configurações a serem experimentadas por Giuliano, com ajustes pontuais para cada ocasião. Para além do já realizado, é possível vislumbrar apresentações em galerias, como espécie de performance duracional com passagem e presença livre de públicos e alguéns, ou até mesmo em espaços públicos, como ruas e praças, gerando curiosidade no entorno e contrastando a morbidez da imagem de um caixão com a vitalidade do ato de escrita de um obituário em vida, com uma intrínseca força de manifestação de desejos.
Ecoam obras como Why the Horse?, onde a saudosa Maria Alice Vergueiro encenava seu próprio velório, recebendo de olhos abertos o público ansioso por uma teatral despedida. Também, An Artist’s Life Manifesto, de Marina Abramović. A perfomer escreve que “uma artista deve estar consciente de sua própria mortalidade”; e que “o funeral é a última obra de arte de uma artista antes de sua partida”. Ao final de Escrevendo na cova de alguém, é revelada a escrita primeira de Giuliano, sem que seja exatamente surpreendente pelo contexto: seu obituário; um retrato textual de seus desejos de finitude daquele dia. Contemplando continuamente a finitude, Giuliano também escreve, diversas vezes, em sua própria cova.
[colabore com a produção crítica de amilton de azevedo: conheça a campanha de financiamento contínuo para manter a ruína acesa!]
ficha técnica
ESCREVENDO NA COVA DE ALGUÉM
Concepção e performance: Lena Giuliano
Cenografia e iluminação: Ana Banana, Letícia Nanni e Larissa Siqueira

