teatro

dos fardos de uma existência cindida

crítica de “A Desumanização”, adaptação do livro de Valter Hugo Mãe. projeto de Maria Helena Chira com direção de José Roberto Jardim.
foto: Victor Iemini

Pendurar um poema e atravessar com ele a noite inteira sem sequer nos darmos conta de que se fez noite. (p. 104)

Na obra do escritor português de origem angolana Valter Hugo Mãe, há um mundo em cada sentença. As narrativas, ora fantásticas, ora comezinhas, tão harmonicamente costuradas, conduzem os leitores por olhares diversos sobre o existir enquanto um e o habitar a sociedade. Seja expondo os horrores que nos circundam ou desenhando possibilidades de transcendência, tristeza e beleza caminham paradoxalmente de mãos dadas.

Em A Desumanização, acompanhamos a infância de Halldora, que acaba de perder sua irmã gêmea, Sigridur. Narrado em primeira pessoa, Hugo Mãe demonstra a potência da literatura ao construir este universo — a voz que nos guia é a de uma criança islandesa entre os 11 e 13 anos; à ingenuidade infantil o autor sobrepõe densas camadas filosóficas e poéticas em sua tentativa de lidar não apenas com o trauma decorrido, mas com a vida sem sua completude, projetada na gêmea.

A vida já me tornou mesquinha em muitos sentidos. Pai, estragou-se muito o meu poema. (p. 86)

Adaptar uma obra literária para os palcos sempre se apresenta como um desafio com barreiras quase intransponíveis. As escolhas a serem feitas são inúmeras, e há de se convir que existem diferenças fundantes no tocante às formas artísticas. Os caminhos são muitos: pode-se assumir desde uma postura de livre inspiração até a tentativa de efetivamente levar o livro à cena.

Neste sentido, no projeto de Maria Helena Chira de construir um espetáculo a partir de A Desumanização as escolhas se mostraram inteligentes e acertadas. A adaptação de Fernando Paz parece buscar uma síntese específica do livro, compreendendo a impossibilidade de dar conta de todos os ricos detalhes da trajetória de Halla; ao mesmo tempo em que escolhe e costura com precisão pérolas imagéticas dentre as tantas presentes no romance. Na precisa direção de José Roberto Jardim, Chira e Fernanda Nobre constroem a narradora enquanto duplo — espelho de si; fragmento incompleto.

Fernanda Nobre e Maria Helena Chira em “A Desumanização” / foto: Edson Lopes Jr.

Assim, a encenação revela muito de sua visão sobre a obra de Hugo Mãe desde seu início. Abertas as cortinas, vemos uma sala duplicada na funcional cenografia de Belisa Pelizaro. Ao público que já conhece a narrativa, pode-se lembrar de Halldora carregando um espelho para enxergar-se tentando ver Sigridur — sua metade ausente — onde quer que estivesse. Nobre e Chira entram compondo este espelhamento que já sugere diversos sentidos. Aos poucos esta unidade passa a estilhaçar-se. Como se Halla e Sigridur compusessem um uno; e a perda de sua irmã gêmea lançasse a criança à uma existência cindida.

Na estrutura da encenação, as duas atrizes são simultaneamente Halldora — mas nem sempre. Além da evocação pontual de outras vozes — como no texto de Hugo Mãe, onde as transições são sutis — também duplicam a própria irmã viva; ao servirem de ponto onde repousa o olhar da outra, porém, são mais do que espelho. Revelam outros fragmentos vivos e lembram dos que se foram. Cada uma em sua sala, irremediavelmente idênticas, falam ao celular como se gravando um diário.

Uma escolha delicada da encenação parece propor uma repetição inevitável do que se viveu, aproximando a narração dos acontecimentos passados do momento presente. Uma das primeiras ações vistas em cena é um teste de gravidez sendo feito. Ao longo da obra, aos enjoos de uma possível gravidez somam-se os muitos goles no que aparenta ser uma bebida alcóolica. Como se Halldora se visse mais uma vez próxima de compreender-se completa a partir de outra vida — “eu me viciei em me duplicar” — e mais uma vez fadada a sofrer a perda de uma parte de si.

Efetiva-se a impressão da sobreposição de tempos a partir dos vídeos de André Grynwask e Pri Argoud (Um Cafofo). Assim como em montagens anteriores de Jardim, as projeções ganham papel fundamental na composição da obra. Aqui são basicamente imagens capturadas ao vivo das atrizes. O celular imóvel e elas em movimento: as sombras e linhas do cenário compõem telas vivas que se interferem — seja quando a figura de uma atriz surge na parede inversa, seja quando sobrepõe à si mesma.

Como se nestas Halldoras já adultas estivesse muito viva a criança que acabara de perder a irmã, a adaptação constrói este duplo de uma personagem que se observa à distância mas que efetivamente ainda está presa dentro de um ciclo aberto por aqueles processos de perda. A irmã, a infância, o bebê; o distanciamento na recusa da mãe, o julgamento da sociedade e a fuga final.

Pois imiscuído ao trauma da morte de Sigridur e o que se segue está todo um contexto massacrante que opera de forma desumanizante. Halldora é “a menos morta” e será sempre vista pela ausência — até introjetar sua incompletude e seguir, pelos caminhos e descaminhos da vida, buscando algo exterior que a complete. Ao olhar ingênuo e aos atos desmedidos da criança sobrepõem-se a força dos anos na interpretação das atrizes adultas.

Nós não somos mais do que a carne do poema. Terrível ou belo, o poema pensa em nós como palavras ensanguentadas. (p. 45)

Chira e Nobre criam sentidos novos ao dizer o que estaria saindo da boca de uma criança. A ingenuidade ganha tons cifrados ao ganhar o vigor das hábeis intérpretes — e a encenação de Jardim adota também tons menos óbvios em momentos vertiginosos. Abandonado o espelhamento, a dinâmica da relação das atrizes com a câmera se estabelece de um modo organizado, com composições cênicas precisas. Os quadros bem delineados estão sempre sendo desestabilizados pelas projeções. A luz de Wagner Freire, quase sempre cruzada, desenha recortes que por vezes ressaltam detalhes do não-visto. Além disso, a trilha de Marcelo Pellegrini compõe um ambiente lírico que beira o onírico — a Islândia parece aí reverenciada, em paisagens sonoras que reverberam aparentes influências como Sigur Rós.

O espetáculo entende que a literatura não cabe na cena e aproveita-se da vividez do texto de Hugo Mãe para construir uma atmosfera que transporta o espectador para uma outra possibilidade de existir. Suspende-se a realidade e a poesia ganha corpo, voz, espaço — e nesse sentido, é desnecessária a pequena mas ruidosa interferência textual que nos lembra de questões que assolam nossos tempos (“nazismo de esquerda, terra plana”).

Pois estamos todos envoltos na permanente busca por pertencimento e completude de Halla, assombrada pelo “pequeno monstro branco” que nos diz tantas vezes a mesma coisa: “vim ensinar-te o essencial sobre a tristeza”. Às dores de dentro somam-se as dores de fora, e como a pequena criança sem rumo estamos à beira do abismo do mundo dos homens.

É a única coisa que conta, a poesia. No lugar da Islândia colocar um poema. No lugar do coração colocar um poema. depois, dizê-lo uma e outra vez, até ser tudo. (p. 123)

Na orelha da edição de A Desumanização da Cosac Naify — que está presente nas duas pequenas mesas do cenário onde os celulares estão apoiados e a qual se referem as páginas das citações deste texto— Ignácio de Loyola Brandão questiona, entre parênteses: “romance? Ou longo poema? Quem sabe, monólogo teatral?”. Para a solidão de Halldora, parece acertada a escolha de dobrar este longo diálogo interno de uma existência fraturada. Cabe refletir, porém, sobre a recepção da obra para aqueles que não leram Hugo Mãe — sem dúvidas, a poesia alcança os incautos; mas a narrativa fragmentada e sintética pode resultar um tanto nebulosa. Ainda que talvez não se possa compreender toda a trajetória de Halla, não é difícil ser atravessado pelas imagens que a compõem.

Quando as imagens projetadas de Chira e Nobre se olham, as atrizes estão voltadas para o vazio dos cantos do palco. É a síntese do belo e do triste — elas não se veem ao contemplar seu duplo. Ser, pertencer, perder, seguir: a última evocação de Halldora refere-se a seu interlocutor, mas fala essencialmente de si. “Quem não sabe perdoar, só sabe coisas pequenas” — e ela(s), plural e estilhaçada, compreendeu o que há de maior no mundo. A Desumanização convida generosamente o público a ouvir e acreditar para revelar, com beleza, os fardos da incompletude de existir.

Sobre a beleza o meu pai também explicava: só existe a beleza que se diz. Só existe a beleza se existir interlocutor. A beleza da lagoa é sempre alguém. Porque a beleza da lagoa só existe porque a posso partilhar. (p. 27)

[todas as citações do texto foram extraídas de “A Desumanização”, de Valter Hugo Mãe. a numeração se refere à edição publicada pela Cosac Naify]