o que é isso que vocês fizeram?
amilton de azevedo escreve para Safia Nolin e Philippe Cyr a partir de sua experiência diante de Vigiada e Punida, vista na 11ª MITsp.
Safia, Philippe,
o que é isso que vocês fizeram?
tem alguma coisa inexplicável em Vigiada e Punida. terminou há pouco mais de duas horas e eu ainda não sei o que aconteceu e está acontecendo comigo. mais cedo, no início da apresentação de Girassol, um processo na programação da Farofa, a atriz Fabia Mirassos disse “viva o teatro!” antes de começar, também ao terminar. até aí, nada demais, né? mas alguma coisa me deixou pensando, e acho que tudo encaixa no que quero tentar dizer aqui.
a Fabia disse “viva o teatro!” e eu pensei no privilégio da minha rotina; eu vivo o teatro, sobretudo em semanas como essas, onde de dia estou pelos teatros independentes da rua 13 de maio acompanhando aberturas de processo e de noite vendo os trabalhos da MITsp, internacionais e da plataforma brasil. não há nenhuma intenção de romantizar nada aqui, o teatro é precarizado, a crítica de teatro é marginal à margem, essas coisas todas que cansa repetir mas é importante repetir – aliás, na Cartografias deste ano falo um pouco disso em meu ensaio “na prática, a crítica: nós, os insistentes”, logo a publicação está disponível.
mas quando escuto a frase “viva o teatro!” e olho ao redor e estou em uma sala da Casa Farofa onde dezenas de pessoas sentam-se em cadeiras de praia numa tarde de sexta-feira para ver uma obra inacabada, aberta, em fluxo; quando lembro da frase “viva o teatro!” e estou em uma imensa sala de espetáculos, cheia, diante de um coro de balaclavas bordadas e o cenário bordado e uma mulher está sentada de costas para nós, de frente para seus agressores e há uma terrível beleza construída para “sublimar o ódio” como diz o começo da sinopse de Vigiada e Punida; quando sento, de madrugada, em meu computador, sabendo que tenho outros textos para escrever e entregar, sabendo que acordo cedo e meu sábado é cheio, digo para mim mesmo e sorrio “viva o teatro!” – por muitos motivos.
sobretudo quando ele me deixa de um jeito que eu não sei como descrever, aliás, eu não sei nem como contornar, muito menos escolher as palavras, viva o teatro. quando a Fabia falou (e escrevo vendo seu rosto e escutando sua voz), eu pensei viva, sim, pela capacidade que as artes da cena possuem de me deslocar de mim mesmo, do meu mundo, do meu olhar, me esforço para que ele me desloque do meu olhar na direção de outro olhar. e então, o olhar de vocês, Safia, Philippe.
estive em Montreal para o Festival TransAmériques de 2024; também no do último ano, e em breve estarei novamente em suas terras – quem sabe nos conheceremos. estive em Montreal e não vi Vigiada e Punida. decisões que tomei me levaram para outras agendas, e algo do que não vi mas ouvi em conversas no HQ, em festas, em foyers, ficou em mim e eu verdadeiramente não entendia muito bem onde residia a força do trabalho. me parecia inteligente, interessante; não suspeitava que sentiria, desde antes do fechar das cortinas e até muito depois, a mão invisível que, como preconiza a poesia de Wisława Szymborska, cumpre seu dever: aperta minha garganta.
em termos da crítica, as questões de fundo estão evidenciadas bem à frente; Vigiada e Punida é sobre discurso de ódio, liberdade de expressão, corpos dissidentes e um viver com medo, um viver em risco. quanto à forma, ao refinamento estético, tenho algumas (poucas, é verdade) dúvidas em torno de certas escolhas de trocas de figurinos, de composições cênicas; outros pontos absorvi como intencionada contradição e faz sentido assim, como se anonimato e assinaturas coexistissem na perpetração das ofensas, ameaças, ataques.
agora, a operação basilar me faz pensar muito, muito mesmo, em como tornar a violência linguagem. Safia, você, ali, cantando e ouvindo, junto de Katia Lévesque, a cada apresentação, a representação, o reviver, a resposta… tenho (e temos) pensado muito sobre biografias na cena, singularidades, autoficção; e aqui está lançada, cravada em nosso peito a parresía de seu enfrentamento, e sua coragem também grita mas não é só ela que escuto. Vigiada e Punida não é sobre você sendo absolutamente sobre você e essa frase é um pouco vazia, mas não sei se consigo elaborá-la nesse momento.
em Não vão nos matar agora a Jota Mombaça escreve um capítulo chamado Rumo a uma redistribuição desobediente de gênero e anticolonial da violência. eu acho que você ia gostar, Safia. a Jota, da perspectiva dela (“uma bicha racializada, gorda e não binária, oriunda da periferia do Nordeste brasileiro”), diz que “é fundamental que abandonemos a posição de vítima” e a sua obra vai um pouco nessa direção, me parece. o ensaio afirma que a redistribuição da violência “não é capaz de vingar as mortes, redimir os sofrimentos, virar o jogo e mudar o mundo”, mas ela é “uma (das muitas) maneira(s) de lidar com o problema sem neutralizá-lo“.
aí eu pensei na Artemisia Gentileschi, que se pinta como Judite e seu estuprador Agostino Tassi como Holofernes no quadro Judite Decapitando Holofernes. a vítima é tornada carrasca no retrato, e o agressor tem seu rosto eternizado como prestes a ser morto. quando fala dessa obra em seu Núcleo de Dramaturgia Feminista, Maria Giulia Pinheiro utiliza a frase “vingança de artista é criar” e nenhuma arte pode mudar o passado, mas ela se lança na produção de futuros. Vigiada e Punida faz isso. você está lá, Safia, no centro da cena, Katia ao seu lado, e no escuro uma lista infindável de nomes, e sempre espaço para mais uma canção, e amanhã novamente. o que é isso que vocês fizeram? o que é isso que vocês fazem? o que é isso que nós fazemos? viva o teatro, para que a vida possa ser vivida.
serviço - MITsp
VIGIADA E PUNIDA
https://mitsp.org/2026/vigiada-e-punida-2/
Safia Nolin e Philippe Cyr | Théâtre Prospero
80 min | Classificação indicativa 16 anos
13, 14 e 15/3, sexta, 21h, e sábado e domingo, 20h
Teatro do SESI-SP - Centro Cultural Fiesp | Av. Paulista, 1313, Bela Vista
Local acessível
A sessão do dia 15/3 conta com interpretação em Libras e audiodescrição
O espetáculo se baseia em linguagem de ódio, incluindo misoginia, gordofobia, racismo, homofobia, incitação ao suicídio, assédio e referências à morte.
ficha técnica
VIGIADA E PUNIDA
Libreto: Safia Nolin, Jean-Philippe Baril Guérard
Música: Safia Nolin, Vincent Legault
Criação e direção: Philippe Cyr
Orientação dramatúrgica: Anne-Marie Voisard
Com: Safia Nolin, Katia Lévesque
Direção do coro local: Tiago Pinheiro
Coro: Mathieu Abel, Cristine Cimon Fortier, David Cronkite, Ryan Doyle Valdés, Étienne Guertin, Claudine Ledoux, Kimberly Lynch, Florence Tremblay e artistas do coro local
Coro local: Augusto Lima, Cássio Pereira, Chiara Guttieri, Claudio Marques, Eliane Aquino, Fábio Vianna Peres, Felipe Panelli, Jonas Mendes, Leonardo Koscianski, Luísa Santana, Narilane Camacho, Patricia Nacle, Wilian Manoel
Cenografia: Odile Gamache
Design de iluminação: Cédric Delorme-Bouchard
Diretor assistente: Andrée-Anne Garneau
Direção de palco: Félix-Antoine Gauthier
Vídeo: Zachary Noël-Ferland
Luz: Joëlle LeBlanc
Som: Jules Potier
Pesquisa: Ariane Thibault-Vanasse
Direção de produção: Catherine Comeau
Direção técnica: Ariane Roy
Uma criação do Prospero, em coprodução com a l’Homme allumette, o Théâtre Français du Centre National des Arts (Ottawa) e o Les Plateaux Sauvages (Paris), em colaboração com o Théâtre du Trident (Quebec). Desenvolvido com o apoio do Fundo Nacional de Criação do National Arts Centre.
Vigiada e Punida foi criado no âmbito do Festival TransAmériques (FTA), em 2024.
