lançar luz, cegar
crítica de Vermes Radiantes, de Philip Ridley, com direção de Alexandre Dal Farra. o ruína acesa faz parte do projeto arquipélago de fomento à crítica.
“Mais um sábado saindo de casa / Pra ver o povo bonito / Cantando aquela do Baiana System / Em um bairro gentrificado” (Lucas, Lupe de Lupe)
Um casal e o sonho da casa própria. Uma carta-proposta, um plano governamental, uma figura misteriosa. Uma inexplicável magia do sacrifício e do horror. A casa dos sonhos. Vermes Radiantes, do britânico Philip Ridley, aborda diretamente uma crise do capital: a habitação. No programa da encenação brasileira, o diretor Alexandre Dal Farra traz a questão da gentrificação como algo já muito debatido e que “simplesmente saiu de cena”, ainda que no seu momento mais cruel.
A tradução de Diego Teza opta por não localizar os nomes – trata-se, é verdade, de questões globais sendo abordadas. Ao mesmo tempo, compreender a relação da realidade paulistana com o que se apresenta não é difícil. Rui Ricardo Diaz e Maria Eduarda de Carvalho são intérpretes tecnicamente precisos na direção de Dal Farra, que busca na encenação outras camadas da crítica inerente à dramaturgia.
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Ridley parece desenvolver uma narrativa sem grandes tensões, talvez como um subproduto mais digestivo do in-yer-face (forma da qual o autor é considerado pioneiro). A violência está continuamente presente, escalando; mas ela emerge com uma certa naturalidade, quase sem agressividade, muito mais ácida do que ofensiva. A relação que se constrói com o público é de uma suposta (ou desejosa, pelo lado das personagens) cumplicidade. Não há grandes mistérios ou surpresas no desdobramento da situação ou mesmo no arco das personagens, com pequenos sobressaltos e questionamentos éticos – hesitações breves e rapidamente superadas no caminho amoral das ações.
Isso em si pode funcionar a partir de uma lógica do choque ou do absurdo diante do que se vê para plateias em determinados contextos. Por aqui, corre o risco de resultar em uma trajetória que vai de certa empatia à perplexidade em pouco tempo, e os efeitos esperados podem revelar-se um tanto inócuos em sua previsibilidade. O salto dramatúrgico presente no título – o brilho destes “vermes” – é aproveitado na encenação de Dal Farra com a iluminação de Lucas Brandão que, ao fazer brilhar desconfortavelmente o olhar da plateia, aponta o cerne do debate para o público. Vermes Radiantes opera um simultâneo lançar luz e cegar.
É este o procedimento estrutural mais significativo desta montagem de Vermes Radiantes: não fazer daqueles personagens os alvos óbvios da crítica, mas sim criá-los como “iguais” aos que os assistem, todos ofuscados pelo brilho. A cenografia de Stéphanie Fretin e Camila Refinetti deixa cada vez mais evidente quem são aqueles protagonistas, como quando a cozinha desejada é um-qualquer boteco cool da Barra Funda, por exemplo. Há, então, uma aposta estética na constituição de Ollie e Jill não como os cidadãos de bem que poderiam ser esperados diante da (muito mais que) questionável ética do casal. É uma tentativa interessante de gerar um incômodo diante dos públicos mais afeitos ao teatro paulistano: aproximá-los do objeto da crítica.
Esse gesto de provocar tensão também dá a ver os limites dos materiais. Diaz e Carvalho, hábeis na construção vocal e corporal das personagens (inclusive no caótico jogo onde desdobram-se em toda a vizinhança ali presente), em dado momento se vêem quase que vencidos em cena: o horror de seus feitos chega a um ápice difícil de operar contradições a ponto de seguir gerando qualquer fiapo de empatia. Ao narrar a própria história, o casal de personagens está buscando algum tipo de reconhecimento, de identificação; com a naturalidade no contar as atrocidades cometidas, ainda que confrontada com a loucura e a paranoia que emergem nas cenas finais, o resultante pode se dar entre a indiferença e o rechaço.
Vermes Radiantes traz algo de apático (ou cínico) em sua reprodução – levada à radicalidade – da lógica assassina do capital (aqui, em especial, do imobiliário), e, ao fim do texto de Ridley, as escolhas de Dal Farra e da equipe criativa enfrentam uma espécie de impasse pertinente ao levantar certas questões diante da realidade social de São Paulo: no palco, aos pioneiros, inicialmente iludidos mas depois absolutamente cooptados e entusiastas dos meios para os fins, é oferecida a possibilidade de manutenção ou a dobra na aposta; por aqui, os responsáveis pela irradiação dos vermes parecem chegar depois – e expulsar tudo que antes ali havia.
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ficha técnica
VERMES RADIANTES
Autor: Philip Ridley
Direção: Alexandre Dal Farra
Elenco: Rui Ricardo Diaz, Maria Eduarda de Carvalho e Marco França
Idealização: Rui Ricardo Diaz e Maria Eduarda de Carvalho
Tradução: Diego Teza
Iluminação, Preparação de Elenco e Assistência de Direção: Lucas Brandão
Cenografia: Stéphanie Fretin e Camila Refinetti
Figurino: João Marcos de Almeida
Direção Musical: Marco França
Direção de Produção: Bia Goldenberg
Fotografia e Projeto Gráfico: Matheus Ramalho
Técnico e Operador de Som: Alexandre Martins
Assistência de Figurino e costureira: Daiane Martins
Cenotécnicos: Wanderley Wagner e Fernando Zimolo
Intérprete de Libras: Wesley Leal
Produção: Raiz de Oito, Quincas, Nem Freud Explica

