imagem, encantaria dialética
crítica de Tapajós, de Gabriela Carneiro da Cunha e o Rio Tapajós. o ruína acesa faz parte do projeto arquipélago de fomento à crítica.
O prólogo de Tapajós é um convite. No café do Sesc Av. Paulista, produção e técnica montam rapidamente uma iluminação improvisada e cobrem algumas sinalizações da parede. Gabriela Carneiro da Cunha e Mafalda Pequenino conversam com o público; convocam que dentre aquela pequena coletividade se faça um coro de nove mães. Mãe, aqui, “não se trata apenas de conceber, mas de criar e sustentar a vida”, afirma o programa da obra. Tapajós, a cada apresentação, reitera suas intenções e renova, amplia, suas alianças. As mães reunidas naquele instante são registradas em uma fotografia e acompanham as artistas no caminho para o espaço cênico
Depois deste breve antes, todo o público entra na sala, onde, não se escutará mais as vozes de Carneiro da Cunha e de Pequenino. Suas presenças articulam e amplificam outras vozes, dando a ver – literalmente – imagens, operando existências e encantarias na relação performativa com as pessoas espectadoras e as mães aliadas – da plateia, do processo, da obra. As únicas luzes são pequenos pontos vermelhos, orientando o caminhar das artistas na escuridão do teatro tornado laboratório fotográfico. Bacias brancas, papeis em imersão; revelar, revelação.
Na ficha técnica, Carneiro da Cunha assina concepção e direção ao lado do Rio Tapajós. Tapajós como testemunho de uma aliança entre rio e mulher, entre natureza e artista, entre mãe e mãe. Galões e seus líquidos transparentes derramados para dar vida às imagens registradas. Dar vida, revelar, aqui, é com o uso do mercúrio. Mercúrio que também encerra vidas do Tapajós e suas margens na busca pelo ouro. Essa percepção dual surge primeiro como contradição, depois como dialética; é essa a substância de Tapajós.
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O laboratório fotográfico tornado teatro faz emergir uma realidade a partir de seus registros; a linguagem busca amalgamar vida e documento. Fazer (des)aparecer o ser, como imagem em latência. A obra anuncia esse lugar duplo e dúbio de como se constitui na lida com as materialidades que propõe: quando a sutil vermelhidão dá lugar a outras cores do espectro visível, as fotos tornam-se escuridão; o lançar luz apaga a vida revelada.
Nesse sentido, Tapajós é violenta consigo própria. Uma dualidade entre beleza e tragédia se faz presente a todo momento. Nos figurinos assinados por Sioduhi, ciência e magia coexistem. Roupas brancas, máscaras de gás, o terror do contágio. Também amarrações, construções de encantarias, um tecnoxamanismo manifesto. No som de Felipe Storino, ouve-se o rio, a tempestade, um vozerio de crianças, vida, vida, vidas.
Escutam-se as tantas vozes na dramaturgia assinada por quatorze nomes (Alessandra Korap, Maria Leusa Munduruku, Ediene Munduruku, Cacica Isaura Munduruku, Ana Carolina Alfinito, Paulo Basta, Julia Ferreira Corrêa, Rosana Farias Mascarenhas, Dalva de Jesus Vieira, Osmar Vieira de Oliveira, Celiney Eulália de Oliveira Lobato, Rodrigo Oliveira, Mauricio Torres e Eric Jennings).
Em uma parede, a frase “o futuro é agora” está escrita sobre um quadro preto; haverá outra imagem ali, mais adiante, e cabe esperançar mesmo diante da violência da realidade. Carneiro da Cunha e Pequenino operam mandingas e benzimentos, fazendo de Tapajós também uma performance ritualística do cuidado. E convocação ao cuidar; à atenção. Ao olhar.
Desde o início, treinar o olhar; acostumá-lo à baixa luminosidade. Então, perceber o tanto que se vê; o tanto que habita Tapajós. Nas fotografias, rostos, corpos, comunidades; movimento de águas, matas e gentes. Na concepção de Carneiro da Cunha e do Rio Tapajós, as imagens são da vida, das vidas em risco nas margens e coexistências com as águas. Nas vozes, relatos, sim, das tristezas. Em uma apresentação didática, com slides, transparências, palavras escritas, rabiscos, reorganizações, as performers historiografam as questões narradas, mostradas, evocadas.
Há uma predominância do analógico no todo de Tapajós, sem que isso signifique uma recusa ao digital. Uma confluência entre tecnologias ancestrais e contemporâneas. Passado, presente e futuro colocam-se em jogo entre fixidez e mutabilidade; como no correr do rio ao longo de suas margens. O sonho colonial de transformar selva em jardim é confrontado pela operação concebida por Carneiro da Cunha e o Rio Tapajós de fazer da produção de imagem uma ação de encantaria dialética.
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ficha técnica
TAPAJÓS
Concepção e direção: Gabriela Carneiro da Cunha e o Rio Tapajós
Com: Gabriela Carneiro da Cunha e Mafalda Pequenino
Criação em processo: Sofia Tomic, João Freddi, Vicente Otávio, Mafalda Pequenino e Gabriela Carneiro da Cunha
Assistência de direção: Sofia Tomic
Fotografias: Gabriela Carneiro da Cunha, Vicente Otávio e João Freddi
Técnica fotográfica: João Freddi e Vicente Otávio
Edição de imagens: Gabriela Carneiro da Cunha, João Freddi, Marina Schiesari, Sofia Tomic e Vicente Otávio
Edição de texto: Manoela Cezar, Gabriela Carneiro da Cunha, João Marcelo Iglesias e Sofia Tomic
Dramaturgia: Alessandra Korap, Maria Leusa Munduruku, Ediene Munduruku, Cacica Isaura Munduruku, Ana Carolina Alfinito, Paulo Basta, Julia Ferreira Corrêa, Rosana Farias Mascarenhas, Dalva de Jesus Vieira, Osmar Vieira de Oliveira, Celiney Eulália de Oliveira Lobato, Rodrigo Oliveira, Mauricio Torres e Eric Jennings
Tradução Munduruku-Português: Honesio Dace Munduruku
Direção técnica e iluminação: Jimmy Wong
Assistente de iluminação: Matheus Espessoto
Som: Felipe Storino
Técnica de som e criação multimídia: Bruno Carneiro
Figurinos: Sioduhi
Cenografia: Sofia Tomic, Ciro Schu e Jimmy Wong
Cenografia da exposição: Marina Schiesari
Consultoria: Raimunda Gomes da Silva, Dinah de Oliveira e Tomás Ribas
Apoio e parcerias: Associação Fotoativa e Clube do Analógico
Assessoria de imprensa: Canal Aberto - Márcia Marques, Daniele Valério e Flávia Fontes
Administrativo/Financeiro: Alba Roque e Tárik Puggina
Produção Associada: Associação de Mulheres Munduruku Pariri e Associação Sairé
Produção no território: Carolina Ribas
Produção: Ariane Cuminale e Yara Ktaish
Produção geral: Gabi Gonçalves
Realização: Sesc
Produção geral: Corpo Rastreado, Aruac Filmes, Théâtre Vidy-Lausanne e Projeto Margens
Distribuição na Europa: Théâtre Vidy-Lausanne
Coprodução: Théâtre Vidy-Lausanne, Wiener Festwochen | Frei Republik Wien, Festival d’Automne à Paris, Les Spectacles vivants – Centre Pompidou (Paris), Halles de Schaerbeek, Kunstenfestivaldesarts (Bruxelas), La rose des vents – scène nationale Lille Métropole – Villeneuve d’Ascq / Next festival, Théâtre Garonne (Toulouse), International Summer Festival Kampnagel
Apoio à pesquisa e desenvolvimento: Manchester International Festival

