destaque, teatro

a imensidão do frágil

crítica de Ofício, do Grupo II / Espaço Garganta.

Amo o ator e por ele amo o teatro. Sei que é por ele que o teatro é eterno e jamais será superado por qualquer arte que se valha da técnica mecânica. (Plínio Marcos, O Ator)

Um ator com baixa visão que vende fitoterápicos. Um ator velho que faz uber com um carro emprestado. Um casal de atores negros, entre empregos temporários e o limiar do desistir para fazer outra coisa. Um ator declarando seu amor ao ofício da atuação e ao teatro com as palavras de Plínio Marcos. Uma sobreloja, um jardim, um enterro. Como diz o texto de Ofício, do Grupo II, “nada que distraia o público de que tudo aqui é frágil”.

Com direção de Lucas Mayor e Marcos Gomes, dramaturgia dos dois somados à Plínio Marcos, Ofício estrutura-se na linguagem da forma breve que ampara a pesquisa continuada do grupo sediado no Espaço Garganta. Contornadas por um tema ou um disparador, duas ou mais dramaturgias de peças curtas se sucedem; a totalidade da obra se faz no acúmulo, nas fricções e afinidades, no que se lê em pequenos detalhes e nos grandes sentidos. Ofício traz três momentos e a convergência é, como está nomeado no título, o ofício do ator. Não o trabalho; o Ofício. O ser-ator que envolve a vida, especialmente quando não se está no palco.

Assim, as dramaturgias de Mayor e Gomes constroem encontros, partindo de situações dramáticas, entre atores e suas dificuldades cotidianas. Os diálogos das personagens e comentários para o público sem dúvidas reverberam com mais intensidade em quem, de algum modo, identifica-se com o narrado. Nas formas como os autores inserem as referências de O jardim das cerejeiras, de Anton Tchekov, e Antígona, de Sófocles, o espelhamento com as cenas é evidente na construção dos duplos das personagens, ainda que talvez haja uma maior apreensão das metáforas sendo construídas por aqueles que estão familiarizados com os textos.

Mas nada se perde; pelo contrário: Ofício, em sua declaração nada ingênua de amor e insistência ao teatro, versa sobre as pequenas ilusões que construímos e acreditamos na cena e no dia a dia e as indisfarçáveis frustrações que carregamos vivendo em nossa sociedade contemporânea. Não é necessário estar no ofício do artista para pensar em nomes daquelas e daqueles que conhecemos que desistiram de seus sonhos em algum ponto do caminho. Ofício, sendo sobre teatro, é sobre o mundo, e cada situação faz emergir gritante alguma angústia deste tempo – é, inclusive, sobre o tempo. O tempo do trabalho, o tempo do luto, o tempo da casa, o tempo do desejo.

Ofício é quase um ato psicomágico-dramático. Mayor e Gomes parecem escrever para aqueles atores, e realidade e ficção borram-se entre circunstâncias e acontecimentos. Há algo de Meninos, obra anterior do Grupo II, que perpassa o trabalho; algo que fala do que se foi, do que ficou, algo de um debate sobre a masculinidade neste elenco formado só por atores homens. Sob a direção deles, o elenco dá a ver o duplo da consciência, quase que uma exemplificação do paradoxo do comediante de Diderot atravessado por uma incerta performatividade, por meio dos modos com que os corpos e as palavras são ação mas também reflexão. A obra é então como o próprio ofício do ator. 

É mesmo tudo muito frágil, imensamente e infimamente frágil. Cada gota de suor visível, cada dedo da mão que se move enquanto se fala ou se escuta. Uma dramaturgia que desliza entre linguagens e uma direção que volta sua atenção para os silêncios, as imobilidades, as reações. Uma parte da dramaturgia de Mayor, no terceiro movimento, constrói um diálogo composto por dois monólogos, talvez o momento em que a fragilidade daquele tudo que se põe em cena mais se verifica na dificuldade de manter pulsante esse espaço entre. Ofício é sobre o ator quando está no foco e quando não está. Por isso, tão sensível também. Há poucos subterfúgios ali; atores em relação, um espaço diminuto, a ocasional trilha sonora, iluminação básica. No jogo entre palavra e imagem, a presença de autodescrição no início de cada cena, ainda no escuro, e cada ator não está só falando de seus traços físicos, mas já insere ali construções e composições de si.

No primeiro movimento, a dramaturgia de Gomes experimenta inserir nas falas algo que se localiza entre rubrica e audiodescrição, falando do espaço, dos movimentos, das expressividades. Há uma escolha do que se descreve, de quais imagens se constroem em palavras e como também se cria quase em oposição ao que verdadeiramente se vê – ainda que não se configure efetivamente como medida de acessibilidade, é um interessante aceno a uma poética expandida; uma escolha formal, construtora de sentidos da obra, e totalmente inserida no contexto da cena.

Isso porque Cleber Tolini é uma pessoa de baixa visão; as personagens, em Ofício, estão intimamente conectadas a seus intérpretes no que resulta em uma construção realista contemporânea, imbricada à performatividade mas sem abrir mão de camadas de representação. Todos trazem para o jogo dramático seus nomes próprios, suas características e – supõe-se – algo de suas origens e trajetórias. E pouco importa se João Bourbonnais já foi, ele mesmo, o “corcunda do notebook” no teatro-empresa, ou se Robinson Rogério trabalhou no Ragazzo da Galvão Bueno. As informações específicas trazidas pelas dramaturgias de Gomes e Mayor conferem verossimilhança à obra, cuja imensidão do frágil requer essa instável lida entre espontaneidade e precisão, organicidade e técnica.

Pouco se explica sobre o que são as gotas milagrosas, quase nada se sabe do futuro daquele casal. Na escolha da condensação temporal, as formas breves do Grupo II – como se verifica em outros trabalhos e evidencia-se em Ofício – aprofundam-se em suas proposições a partir de uma seleção refinada do que se apresenta, do que é desenvolvido. Assim, a aposta em uma fragilidade radical mantém na cena apenas o cerne do que se propõe. Não um núcleo duro, mas algo que, tal qual o ofício de Ofício, paira, preenche o ar, permanece.

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ficha técnica
OFÍCIO
Texto: Lucas Mayor, Marcos Gomes e Plínio Marcos
Direção: Lucas Mayor e Marcos Gomes
Elenco: Cleber Tolini, Guilherme Conceição, João Bourbonnais, João Filho e Robinson Rogério.
Produção: Grupo II

serviço
Espaço Garganta – Rua Dr. Cesário Mota Júnior, 277 (sobreloja) Vila Buarque.
Temporada: de 07 de outubro a 25 de novembro, terças, às 21h.
O espaço abre meia-hora antes. Não haverá sessão dia 28 de outubro.
Ingressos: R$50 (inteira) e R$25 (meia-entrada) via Sympla.
Classificação: 14 anos
Duração: 70 minutos