coisas de dentro, coisas de fora
registro, relato e reflexão de amilton de azevedo em torno da realização da segunda MUVUCA, da Cia. Arthur-Arnaldo, na Casa Farofa. o crítico foi convidado pela companhia a acompanhar o movimento e escrever este texto.
Uma chegança, duas oficinas, bate-papo e leitura de dramaturgia. A segunda edição da MUVUCA condensou-se em uma noite de sexta e durante todo o sábado, dia quatro de outubro. Depois da aglomeração-semeadura proposta pela Cia. Arthur-Arnaldo que aconteceu em junho na sede do grupo, agora a Casa Farofa recebeu esse novo dia de plantio: jovens dramaturgas trouxeram o íntimo e o Outro, e quis o acaso-destino que um grupo chamado Muvuca de Teatro também somasse na diversidade ecofisiológica dessa MUVUCA.
Estive, novamente à convite da Arthur-Arnaldo, acompanhando as ações de sábado. De manhã, participei das oficinas Dramaturgia como corrimento, conduzida por Bella Rodrigues, e Escrever o outro, ministrada por Lena Giuliano. Após o almoço, mediei um bate-papo com Bella, Lena e a Muvuca de Teatro (representada especialmente por Ana Fariña e Larissa Blanco). No final da tarde, lemos The IT (A Coisa), dramaturgia de Vivienne Franzmann escrita em 2021 para um projeto britânico de teatro jovem. E este texto é um registro-reflexão sobre aquele dia.
O movimento da Arthur-Arnaldo de criar, promover, semear essas MUVUCAS, conforme já percebido na primeira edição, carrega uma bonita ambivalência: o interesse da companhia em teatro jovem, o interesse de jovens no teatro. Agora, contando com oficinas ministradas por artistas convidadas e focando naquelas pessoas cujas trajetórias estão desenhando seus primeiros passos para compartilhar vivências, percepções e expectativas no bate-papo, a MUVUCA trouxe a impressão de uma fluidez maior em seus desejos de encontro.
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O dia começou com uma roda de apresentações já feita jogo teatral. Para começar a oficina Dramaturgia como corrimento, Bella Rodrigues convidou a todes a dizer o próprio nome, trocando de lugar no espaço com outra pessoa. Ao nome, somou-se então alguma palavra para as genitálias, depois também um movimento. Qualquer tensão, timidez ou rigidez que estivesse presente no ar já foi quebrada naquele momento. Então, Bella se apresentou e também compartilhou as razões de ser da oficina, uma proposta alinhada ao seu fazer dramatúrgico: escrever a partir daquela “gosma cotidiana que sai de você”. Falar do segredo, do que sangra; do que escorre íntimo.
Então, propõe uma prática em três tempos: desenvolver uma lista de personagens que escorreram de você no final de um dia; corrimentos na roupa de baixo. Embaralhar as listas; cada pessoa pega a lista de outra e desenvolve um ou mais personagens – sem restrições estruturais – em uma cena. Compartilhar o escrito, compartilhar as personagens, estender a dramaturgia no varal como quem lavou a roupa suja. O jogo de troca resulta em dois lances sobre o exercício e a proposta da oficina; desloca-se a ideia do íntimo, tornado de algum modo comum na fricção entre a personagem que escorreu e como ela é desenvolvida, criando caminhos interessantes para a construção dramatúrgica.
Na sequência, Lena Giuliano provocando maneiras de Escrever o outro. Em sua rodada de apresentações, o nome seguido pela citação a duas peças: uma que gostou, uma que não gostou. Dúvidas, resgates de memórias, risadas; trazer as visões sobre teatro para conhecer-se um pouco mais. E então, dramaturgia, o que isso quer dizer? Lena convida todes a dizer, em uma palavra, e essas palavras se sucedem e se acumulam em um papel kraft na parede; “dramaturgia é…”. Depois de algumas linhas de palavras, Tuna Serzedello, da Cia. Arthur-Arnaldo, comenta que “ninguém falou personagem”. É significativo, mesmo. Quando não cabem mais palavras no papel, é hora de pontuar, coletivamente, o que foi dito. Vírgulas, interrogações, ênfases, pausas; com tudo organizado, Lena afirma: “isso é dramaturgia pra gente”.
Ela própria brinca com o corte lacaniano que faz para então apresentar algumas citações em torno do eu, do outro, da alteridade, da escrita. Fico pensando que, se na primeira MUVUCA tanto se perguntou em torno do que é teatro jovem e aqui a oficina começou com o que é dramaturgia e a tentativa de contornar uma resposta, agora há muito a se pensar sobre o que é (o) outro. A perspectiva de escrever um não-eu, uma recusa criativa de olhar para si; por curiosidade, interesse, cultivo da escuta, busca de outras perspectivas sobre o mundo, trocas – egoísmo, também, talvez. Olhando destes modos, talvez a escrita do eu seja interessante quando se escreve um eu-outro.
Para sua prática, Lena dividiu a turma em duplas. Uma pessoa “entrevistaria” a outra, uma de cada vez, cada uma com um objetivo secreto (inclusive, o primeiro a ser entrevistado nem sabe que há um objetivo!). Depois, escrita em fluxo a partir das respostas na direção do objetivo, lançando mão das informações adquiridas na entrevista – uma bio do Tinder, uma carta de ameaças. Recebi a segunda e fiquei ligeiramente assustado.
É interessante observar que Lena Giuliano e Bella Rodrigues são jovens dramaturgas com trabalhos que já foram – e estão sendo! – apresentados em palcos paulistanos. Lena e seu Escrevendo na cova de alguém realizou apresentações um-pra-um em diversos países europeus antes de chegar em São Paulo, na Farofa, em março deste 2025, e então criou uma versão com plateia, que cumpriu temporada no Teatro Manás Laboratório e esteve na programação da 2ª MIACENA. Bella, junto ao Matamoscas Teatral, realizou temporadas de sua obra Desempregada no Giostri Teatro e no Espaço Parlapatões, além de apresentações pontuais em outros locais, e entre outubro e novembro esteve em cartaz no Teatro de Arena Eugênio Kusnet com O julgamento de um homem bom, onde além de dramaturgia assina direção.
Ter assistido aos trabalhos de Lena e Bella faz com que seja possível verificar as relações entre suas criações artísticas e seus interesses e referências compartilhados nas oficinas. Escrevendo na cova de alguém é um exercício de escrever o outro em tempo real, no calor da cena. O julgamento de um homem bom não apenas é o corrimento da autora, mas a composição das personagens masculinas parece ter seguido precisamente o dispositivo apresentado por Bella.
Do mesmo modo, também foi muito fortuito o fato de já ter conhecido a Muvuca de Teatro – durante a 1ª Mostra Nacional de Teatro Universitário do TUSP, assisti Mentira.BR: um estudo de caso, sobre o qual escrevi no texto teatros universitários: algumas palavras a partir deste plural. No contexto da mostra, conduzi um Encontro Crítico no CPT Sesc com a Muvuca e conheci um de seus dispositivos de ensaio-encontro-criação: uma escrita em fluxo, durante cinco minutos, em começos e finais.
Como já havíamos conhecido mais de Lena e Bella pela manhã, na função de mediador do bate-papo achei interessante trazermos um procedimento da Muvuca de Teatro para a MUVUCA da Cia. Arthur-Arnaldo. E muito já surgiu neste fluxo – no meu, por exemplo, “opa, agora do nada pensei no abacate do almoço. escrever. que loucura é escrever, sempre. ouvir sussurrar cochichar gritos // jovem e o hoje, o que é o hoje e o teatro hoje e o jovem hoje. falamos de taylor swift charlie xcx às vezes eu leio uma frase e não entendo quase nenhuma palavra”, e por aí vai.
Desejos de não deixar essa materialidade – o texto escrito em fluxo – coesa, mas, ciente de que ela será lida em voz alta na sequência, buscar alguma organização; compreensões do fluxo como dramaturgia; da criação dramatúrgica como a múmia sem bandagem; dramaturgia é zumbi. O início do bate-papo é um começo que é um meio: algo (muito) da escrita é reminiscência da manhã, do ontem; mas há fagulhas de caminhos novos a se percorrer no que surge. Coisas de dentro, coisas de fora, e dramaturgia é contexto. Dramaturgia e contexto. Dramaturgia é contexto?
Nas falas iniciais, trajetórias e fazeres. Para Bella, a dramaturgia chegou depois da escrita e é um lugar onde “tudo que eu penso cabe”. Lena se interessa em brincar no território, fazer “dançar a palavra”. A Muvuca, um bando, se pergunta “como um grupo escreve?” enquanto joga com a autoria; um brincar sério de pessoas jovens aglomeradas em um grupo jovem.
Nesta MUVUCA, aliás, o foco em teatro jovem se verificou não tematicamente, mas estruturalmente, nas presenças, na partilha das vivências – e daí apreendendo-se possíveis conclusões, fricções e (in)certezas sobre esse conceito-contorno, borrado nos falares e fazeres. Os modos de produção hoje e seus espelhamentos-inspirações no ontem, o que se transforma diante da realidade atual, do estado das coisas. Em formação ou recém-formadas, as pessoas convidadas já trazem experiências diversas em processos criativos. Também, confrontam-se com as diferenças entre o ambiente universitário e o mundo do trabalho – ainda que haja uma sobreposição nessa relação, há salvaguardas e liberdades no primeiro que são dificultadas quando diante do segundo.
Esse espaço entre talvez seja um bom modo de lançar o olhar sobre as questões do teatro jovem. Entre universidade e mercado, entre adolescência e vida adulta, entre estudos e trabalho, entre coisas de dentro e coisas de fora. Entre dificuldades do presente e desesperanças do futuro. Trajetórias atravessadas pela pandemia e um horizonte que se desenha a cada dia mais estreito a cada nova notícia de algum horror em nossa cidade, em nosso país, em nosso planeta.
As circunstâncias que se impõem – sejam os desafios da produção, da realização das obras, sejam as urgências destes tempos. Falamos sobre esses caminhos e relações: trabalhos que nascem de desejos de experimentação formal e encontram assuntos; leituras de contextos que fazem emergir temas e como as necessidades de dizer-fazer se manifestam; os ímpetos iniciais e as transformações do processo. Entre o que surge, o que se vai e o que permanece.
Permanecem, aliás, certas incertezas de gerações anteriores. O modelo de editais e sua falência, as tentativas (quase impossíveis) de viabilizar temporadas por bilheteria, a necessidade de criar e alimentar imaginários em torno do que se pode criar, de como fazer acontecer. Insistir, inclusive, na própria existência do futuro. Muito a se fazer. Lena comentou da percepção de que falta, à estudantes de artes cênicas, assistir mais teatro, ampliar a visão sobre o que ele pode (vir a) ser – sua fala foi corroborada por Olivia e Cleide, que participavam do bate-papo e comentaram, respectivamente, que ninguém de sua escola conhece teatro e que “ninguém vai ao teatro”.
Em resistência a isso, lançando luz ao tanto que existe e não focando naquilo que falta, provoquei as convidadas da MUVUCA a compartilhar uma memória de suas trajetórias que mantém suas mobilizações no fazer teatral. Lena compartilhou o prazer de saber segredos de pessoas desconhecidas que participaram de Escrevendo na cova de alguém. Ana Fariña, falando da Muvuca de Teatro, trouxe a apresentação de Mentira.BR durante uma programação de greve na Unicamp, no prédio da matemática – toda a mística envolvida e também todos os públicos que ali estavam reunidos. Bella contou da alegria da primeira pessoa na plateia de um trabalho da Matamoscas Teatral que era público espontâneo. Fazer teatro para quem não nos conhece. Tirar as coisas de dentro e delas formar outras coisas.
E para finalizar a 2ª edição da MUVUCA, uma leitura coletiva de The IT (A Coisa), dramaturgia de Vivienne Franzmann escrita para o Connections, projeto do National Theatre de Londres voltado para o teatro jovem. Depois de um dia de encontros e fricções, estabeleceu-se rapidamente uma boa e dinâmica de vozes. Na conversa que sucedeu a leitura, a livre troca de impressões transitava entre temática e estrutura dramatúrgica; entre referências, ideias e reflexões. Entre vida e teatro.
Vira e mexe lembro de uma história que minha mãe, Sonia Machado de Azevedo, me contou. Certa vez, durante uma entrevista, perguntaram a ela se o teatro estava em crise. Ela respondeu com uma nova pergunta: e quando não esteve? Os tempos vão passando, as questões vão se reorganizando, mas lá está cada nova geração fazendo do seu jeito, enfrentando a sua maneira, pesquisando suas estéticas, trabalhando a partir do que veio antes, trabalhando em oposição ao que veio antes. Trabalhando.
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