reflexões, teatro

uma aglomeração-semeadura

registro, relato e reflexão de amilton de azevedo em torno da realização da primeira MUVUCA, da Cia. Arthur-Arnaldo. o crítico foi convidado pela companhia a acompanhar o movimento e escrever este texto.

Muvuca (no Google): substantivo feminino, informal (Brasil); 1. aglomeração ruidosa de pessoas, especialmente jovens, em áreas públicas, bares etc., como forma de lazer; agito. 2. grande confusão; tumulto. Origem etimológica: do quicongo mvúka ‘febre intermitente’. Muvuca (do blog Mata Nativa): técnica de plantio; semeadura direta de um misto de sementes, com alta variabilidade de espécies florestais de diferentes categorias ecofisiológicas. Cia. Arthur-Arnaldo: grupo teatral fundado em 1996 e que há mais de vinte anos pesquisa e encena teatro jovem.

Muvuca da Cia. Arthur-Arnaldo: uma aglomeração-semeadura teatral de alta variabilidade, especialmente jovem; um agito prazeroso de plantio. Entre 13 e 15 de junho de 2025, no Espaço Abacateiro (sede da companhia), jovens de diversas idades se reuniram em torno de ações de diferentes escopos e organizações para pensar-falar-fazer teatro juntes. Arar, pulso, impulso: os nomes dos três dias podem sugerir uma progressão; mas ao finalizar com o impulso, manifesta-se o desejo de que seja o primeiro de muitos movimentos.

Na abertura do evento, a apresentação da Muvuca, da Cia. Arthur-Arnaldo, e uma primeira conversa entre participantes. No sábado e no domingo, oficinas (de direção e atuação e de dramaturgia) pela manhã, rodas de conversa à tarde, leituras dramáticas ao cair da noite. A convite da companhia, estive nas tardes e noites do final de semana, mediando as conversas e também introduzindo o texto lido no sábado. Este texto faz parte do convite feito: um registro-reflexão; uma costura do que vi e ouvi sobre o que aconteceu nestes momentos de encontro. Primeiro, um breve panorama do que foi dito nos debates. Na sequência, o que se experienciou nas leituras dramáticas. Entremeado a isso, citações ao que foi escutado e reflexões do que foi vivido por este autor.

De cara, reverberam as questões presentes no release da Muvuca, disparadoras do movimento e provocadoras para as conversas: “Qual é a definição de teatro jovem? Quem são seus realizadores? O que é uma dramaturgia jovem? Existe um mercado para teatro jovem? O que interessa os jovens que vão ao teatro e que fazem teatro?”. Paulo Girčys trouxe em sua fala uma importante diferenciação para estarmos na mesma página quando falamos de “teatro jovem”: a possibilidade de falar de teatro para a juventude e de teatro pela juventude (que, ao mesmo tempo, também são lugares que se sobrepõem).

Parte do que talvez interessasse aos jovens inscritos na Muvuca é precisamente compreender as (tantas) maneiras de se fazer teatro; Girčys compartilhou sua formação advinda do teatro estudantil, da experiência de viajar para festivais, uma trajetória de participante de um grupo à coordenação do mesmo grupo. Sobre o se enfiar nas coisas, ir atrás, insistir, se jogar nos possíveis, experimentar o campo das artes antes da profissionalização. A perspectiva dessa experimentação como um respiro para o tempo acelerado que não apenas os jovens mas todes vivemos na contemporaneidade. É um pensamento pedagógico, de formação cidadã, de dar espaço para os contextos, as questões, os recortes, as pulsões.

Claudia Schapira falou sobre o lugar da adolescência, das urgências do agora e do tanto que se projeta no futuro (“e aí você percebe que o futuro já chegou” e isso é um abismo!), ao mesmo tempo em que é um lugar do “se-tornar-pessoa”, um quando começamos a nos sentir com mais voz, a nos colocar. Schapira contou ter feito muito teatro na infância na Argentina e vir com onze anos para o Brasil e encarar esse “momento estranho” da vida em outra cultura. Sobre seu trabalho, compartilhando sobre o Núcleo Bartolomeu de Depoimentos e a pesquisa do Teatro Hip-Hop, disse pensar em não falar para o jovem, mas para (ou sobre) as suas urgências; movimentos rápidos, uma qualidade de arrebatamento, a linguagem do Hip-Hop e seu vigor da juventude que pode contaminar toda e qualquer temática.

Carlos Gomes lembrou do que significa ser jovem em cada contexto; falando de suas origens, comentou ter crescido assistindo à novelas, e é interessante refletir sobre as relações que crianças e jovens constroem com a ficção – olhando ontem, pensando hoje; quais são as expectativas e referências diante de obras de diversas linguagens, quais os contatos diários, como esse imaginário se constrói? Gomes também trouxe outra questão muito preciosa: em torno de seus primeiros contatos com o teatro, compartilhou que tinha interesse no teatro, não em uma busca por algo que dialogasse diretamente com ele. 

O teatro tem que dialogar comigo, sempre? É uma pergunta muito bonita.

O eu, o outro, o coletivo; como articular subjetividades e individualidades dentro de coros múltiplos, dissonantes, plurais, estejam eles nos palcos ou nas plateias?

PH Veríssima trouxe a vivência nas ocupações de escolas estaduais por estudantes secundaristas em 2015, pensando nos jovens contemporâneos dentro do que ela nomeou de geração tombamento. Experiências de autogestão jovem, sem organização “adulta”, e as produções advindas deste movimento – jovens falando das próprias experiências coletivas, coletivizantes. E como viver esse momento histórico gerou uma dilatação da própria identidade, o que gerou outras subjetividades, outras estéticas. Veríssima afirmou que, para ela, o teatro jovem traz consigo algo que convida para a radicalidade; “o meu corpo do agora me pulsa para a radicalidade – e não tem como não ir para a radicalidade, porque se eu não for pela radicalidade eu não existo”.

Teatro jovem como espaço de existência. Como possibilidade de encontrar espaços onde se possa ser livre. Estar presente – mesmo que só assistindo; uma roda de capoeira, uma batalha de poesia, uma peça de teatro. O teatro jovem é coletivo e político. E é também um lugar para esquecer os problemas da rua. Pra falar de igual pra igual. (Frases ditas por participantes da Muvuca).

Ed Anderson cursou interpretação, mas hoje dirige, escreve, dá aula: os tantos caminhos dentro do teatro e para onde nos levamos e a vida nos leva. Os muitos modos de viver. Anderson trouxe uma frase de Goethe para falar do ser-jovem: “a juventude é uma embriaguez sem vinho”. Na perspectiva de produzir para esse público, a atenção para quais palavras são colocadas na boca deles; o espaço criativo de perceber que o povo sabe o que quer mas também quer o que não sabe. Teatro como espaço de movimentar o latente – e de encontrar seus pares.

A diversidade da Muvuca enquanto intenção e realização: impulsionar o encontro de pares talvez improváveis em outros contextos.

Gabi Gonçalves trouxe três princípios basilares para seu pensamento e trabalho: criar contextos, abrir espaços, manter em movimento. Na necessidade constante de pensar no como, mais do que no que. Produzir o quando; sua história na dança como inspiração para vislumbrar coreografias da produção. Olhar para artistas como vagalumes, brilhantes em suas pequenas luzes no imenso céu. Perceber também o desamparo da área, e disso extrair a importância de saberes coletivos, circulares; criar contextos espaço-temporais para não esmagar a experiência diante de uma lógica brutal de produtividade e imediatismo.

Na primeira roda de conversa, uma provocação para que cada pessoa convidada: que juventude há em vocês, nos seus trabalhos, hoje – e o que essa juventude deseja enquanto horizonte, produção de futuros? Schapira falou da construção radical de ficções visionárias, de fricções no imaginário. Gomes desejou o exercício do músculo da imaginação – e o permitir-se não ser careta. Veríssima enunciou sua vontade de poder imaginar e “não ser eu”; e que a gente retome o caos.

Na segunda, uma breve rodada de apresentações de todes presentes. Desejos, idades, experiências e expectativas diversas diante do fazer teatral – e da presença na Muvuca. Soledad Yunge, da Arthur-Arnaldo, falou sobre um ser-jovem que é contínua reatualização do estar viva. Gonçalves trouxe a visão das plantas: “para os humanos, dividir é perder; para as plantas, dividir é multiplicar”.

Dividir, multiplicar, semear.

A primeira leitura dramática, motivada pelo interesse percebido no trabalho de Schapira durante a tarde, foi de Antígona Recortada – contos que cantam sobre pousopássaros. Antes de iniciar, apresentei um breve contexto da trajetória do Núcleo Bartolomeu de Depoimentos, de sua pesquisa da linguagem do Teatro Hip-Hop, a perspectiva épica e urbana do trabalho – uma dramaturgia (e sua respectiva encenação) que considero síntese da primeira década de atuação do grupo. Também falamos rapidamente do Projeto Conexões, uma parceria entre o Connections, festival do National Theatre (Londres), e instituições brasileiras que aconteceu ao longo de 13 anos (2007 a 2019) em São Paulo, hoje infelizmente descontinuado. A dramaturgia de Schapira integrou a programação do Conexões em 2012; um projeto voltado para jovens encenando textos escritos para (algumas vezes, também por) jovens.

A escolha da Arthur-Arnaldo de realizar a leitura de forma livre foi um acerto, permitindo a todes es participantes da Muvuca alternarem-se nas vozes que surgem ao longo da dramaturgia. Tuna Serzedello, da companhia, fez alguns comentários durante a ação, bem-vindos, tanto contextualizantes quanto provocativos no sentido de como se dá a experiência de uma primeira leitura de um texto teatral. 

Depois, na conversa, o compartilhamento de impressões do texto – e tentativas de contornar, localizar, o que faz de um texto um texto jovem. Debates em torno de sua estrutura e também de seu conteúdo, o pensamento da forma e também o desejo e a curiosidade de visualizar a encenação da obra. Participantes falaram sobre as urgências expressivas do momento, das referências que ecoam e também da (triste) atemporalidade e universalidade das coisas. E sobre quais as pulsões que movem cada jovem ali presente.

Humanidade, desumanização, empatia, “olhar para o próximo como se fosse você”. A lembrança de A Desumanização, de Valter Hugo Mãe, e como o contexto particular pode afetar o todo que nos circundam. Teatro como espaço de expressar a insatisfação diante da realidade – da escola, de ambientes precários –, de mostrá-la através da arte. “Essa é a raiva que me move”. Espaço para falar e fazer por si próprio. O  teatro como o melhor jeito; não dá pra fazer sozinho, no quarto. É no encontro, na comunidade; com o corpo, ensaiar a vida, ser outras pessoas, estar em outros lugares. (Frases ditas por participantes da Muvuca)

Na leitura de domingo, uma dinâmica diferente. O texto escolhido foi Os Suicidas, de Lola Arias, e artistas da Arthur-Arnaldo fizeram a leitura. Antes, Serzedello contextualizou a natureza documental da dramaturgia, falando desta linguagem teatral. Arias escreve-inventa memórias póstumas de jovens que se suicidaram a partir do que foi publicado sobre eles e suas mortes nos jornais argentinos. A obra inclusive fala sobre falar de suicídio e os tantos debates em torno disso. É curioso que reverbera precisamente um comentário de Anderson na tarde do dia anterior: a questão do que falam os jovens; em Os Suicidas, esse é precisamente o mote dramatúrgico – documentos de vozes outras. Emerge também a dúvida e a incerteza do documento, as relações entre notícias e a verdade, a internet e o tanto que se deve colocar em xeque.

Para a conversa, um investimento ainda maior na apresentação da artista, da linguagem, de seus pares, obras brasileiras e estrangeiras projetadas, ideias de encenação, os como fazer entre tantos possíveis. Sobre a peça, uma conversa sobre a verdade, o que é a verdade, e quais as urgências que pulsam neste contar “de si mesmo” pela enunciação do outro. A partir disso, uma discussão sobre a questão ética do documento – que torna-se mais abrangente ao pensar no contar a história de alguém. Que voz diz, que voz representa?

“Essa história já não é mais sua; a partir do momento que eu te contei, ela não é mais minha”. “Será que todo mundo quer falar de si?”. “Você pode estar acelerando o processo da pessoa enfrentar esse trauma”. (Frases ditas por participantes da Muvuca).

Então, a Arthur-Arnaldo se abre para ouvir impressões sobre questões que enfrentam em seu trabalho: como é ver alguém mais velho representando um mais novo e quais escolhas de interpretação podem operar nessas construções. “Pessoas interpretando jovens é sempre um estereótipo”, alguém comenta. Um debate sobre representatividade, sobre quem narra, sobre quem conta, sobre onde está a voz do vivido.

Para finalizar, uma rodada de sugestões para o Muvuca #2: mais prática, mais cachorro, jogo teatral, improviso, fazer a leitura levando para a encenação, prática, prática, figurino, transformação de objetos. Desejos difusos e o encarar a realidade da dimensão do movimento – como organizar tanto em um final de semana? Ainda, como garantir que o que se vive ali permaneça?

Há uma bonita ambivalência na Muvuca a ser considerada: o interesse da Arthur-Arnaldo, o interesse dos jovens ali presentes. Construir essa confluência é um nó importante; essa semeadura diversa é um plantio para quem propõe e para quem participa. A Muvuca é uma técnica utilizada para a regeneração de áreas degradadas. Regenerar o teatro jovem é compreendê-lo em suas especificidades e também para além da compartimentalização.

Definir jovem já é difícil; definir teatro, também. Teatro jovem, então… Talvez navegar por tudo o que isso pode significar e ser, em ação: parece esse o intuito da Muvuca. Formar jovens, mas também se reformar a cada encontro. Falar, mas também ouvir. Confiar e insistir no gesto da aglomeração diversa. Compreender os próprios anseios e os alheios; fazer do encontro semeadura frutífera para si e para o outro. É um equilíbrio importante, esse alinhamento entre desejos. A vontade de mais prática, o apetite pelo fazer; e a necessidade do discutir, debater, construir juntes uma floresta incerta das pulsões de agora e horizontes a serem radicalmente imaginados.