arquipélago, destaque, teatro

expurgo

crítica de Mitologia Tropikal, do Projeto Crioulos. o ruína acesa faz parte do projeto arquipélago de fomento à crítica.

Um teatro assombrado pelo Lobisomem. Uma CEO afogada por Iara, mãe d’água. Curupira de bag fazendo entrega pra um bandeirante. Saci no baile da DZ7. Heranças e promessas de Xica da Silva. O discurso de Sojourner Truth na boca da Mula sem cabeça, quebrando maldições. Negrinho do Pastoreio não volta ileso; quem volta é Jesus, negro. Mitologia Tropikal, do Projeto Crioulos, parte de figuras míticas da cultura popular brasileira – em suas origens afro-indígena-ibéricas – para denunciar reminiscências e insistências coloniais e racistas da sociedade contemporânea, fazendo do palco ponte permanente entre as lendas do passado e os mitos do presente.

Em uma sucessão de quadros independentes, relatos narrativos e situações dramáticas se alternam na convocação dessas entidades, seres mágicos, monstros, avatares, encantarias. A encenação de Caio D’aguilar investe no espetacular em suas composições na cena; a luz de Renato Banti e a sonoplastia da DJ Saskia Peter produzem momentos impactantes junto às coreografias e movimentações do elenco (Ilunga Malanda, Diogo Cintra, Taynã Marquezone, Caio Daguilar, André Rosa, Priscila Rosa, Julia Brandão e Leandro Flores). A presença da banda URUKUM é marcante, e D’aguilar opta por compartimentar os momentos de maior peso musical: quando a URUKUM está tocando, há pouca ou nenhuma ação no palco. Ao mesmo tempo em que assim o olhar do público é conduzido e concentrado na performance de Brew Kambiwá, Vits Iglesias e Panda, a escolha pode resultar em uma impressão de cisão entre o Tupinikore da banda e o Tropikal da cena.



A dramaturgia, também de D’aguilar, não busca operacionalizar uma nova cosmogonia: Mitologia Tropikal é um baile no caos, onde o caldo histórico do imaginário popular sustenta o que se vê em cena para um público com mais ou menos referências que amparam as imagens. O autor ginga por diferentes maneiras de organizar os discursos da cena no que diz respeito às estruturas de cada movimento, acompanhado por toda a encenação que também se faz mutável. Mitologia Tropikal é um expurgo em episódios. Nos encontros do mítico com o cotidiano, a recorrência de manifestos pela restituição.

Entre denúncia, justiça e vingança, Mitologia Tropikal traz um discurso que não faz curva: o que a obra está pondo em jogo é evidente. Com poucas figuras onde cabe efetivamente a contradição, as associações são quase sempre diretas, ainda que certas referências possam passar despercebidas pelo público. Nada se oculta, tudo se dá a ver. Por vezes, no diálogo entre imagem e texto, tudo se dá a ver duplamente. Enquanto há um excesso proposital em determinadas escolhas de Mitologia Tropikal, sobretudo em como trazer, de modos extremos, o humor e o terror, há outros cujo efeito pode não ser o desejado.

No prólogo, é referenciado que estamos em um teatro. Seremos lembrados disso mais adiante, pelo Saci (que se anuncia Oruam, como que para garantir que a referência do rosto maquiado como meio-palhaço seja apreendida), provocando a plateia a partir do que seriam nossas expectativas com a peça. Há em sua fala uma fagulha para um outro teatro, e Mitologia Tropikal pode mesmo surpreender boa parte do público, mas o trabalho está objetivamente ancorado em procedimentos já muito conhecidos na cena contemporânea – narrativas fragmentadas, caráter documental, citações diretas de fatos e notícias; teatralidades políticas que partem da forma épico-narrativa para estabelecerem suas críticas e denúncias. Não se trata, aqui, de defender a necessidade de buscar o “ineditismo” em cada gesto artístico – muito pelo contrário; a obsessão pela inovação ressoa também um trauma colonial transformado em fetiche neoliberal –, mas talvez um convite à reflexão em torno do caminho das intenções à realização, considerando a formalização da obra.

Dentro da perspectiva da construção ensejada de um terror político, quais as escolhas que unem essas palavras? É a partir de situações dialógicas que isso se encontra? Quais imagens de controle se apresentam e quais se desintegram na cena? Que violências dar a ver, para ir além da revitimização e não se acanhar diante da possibilidade de sua redistribuição? Mitologia Tropikal não escolhe caminhos fáceis, e talvez precisamente por isso não se encerram as dúvidas em torno de suas decisões.

A pesquisa de linguagem do Projeto Crioulos é permeada por uma criticidade mordaz, que não se priva de esticar a corda. Cenas de Mitologia Tropikal levam suas propostas até o limite – e permanecem nele. É uma obra provocativa, entre investimentos na complexidade de certos debates e o escancarar quase-simplista de óbvios ululantes. A branquitude é abordada a partir de uma perspectiva preta, e é representada por meio de figuras que habitam um entremeio entre arquétipos e estereótipos. Não se tratam de individualizações; a PM surge como braço armado de um Estado responsável pelo genocídio da população pobre, preta e periférica, uma CEO é a representação da sanha exploratória e da ganância sem limites do Capital. 

Entre as lendas do imaginário popular, lá estão a Sinhá nazista e o bandeirante racista e é evidente que tais personagens caminham entre nós; são representações simultaneamente vilanescas e fidedignas. Mas não são eles que estão na plateia dos teatros: como será possível tensionar o pacto narcísico da branquitude a ponto de gerar uma desconfortável – e profunda – identificação de parte do público? Isso, evidentemente, se for do interesse do Projeto Crioulos, considerando que Mitologia Tropikal é, além de denúncia, escárnio voltado às classes dominantes.

Nas evocações míticas, episódios de expurgos em diferentes séculos se seguem; algumas situações parecem atreladas a apenas um dos tempos – passado ou presente – de modo que o cerne dessa Mitologia Tropikal, a atualização das lendas a partir da dupla compreensão de suas funções de controle e de suas possibilidades de gesto libertário, nem sempre se materializa. Em outras cenas, pode-se confiar mais na fricção: o bandeirante recebendo entrega de comida nem precisaria ser nomeado; a referência é evidente e 525 anos de um país são sintetizados naquela imagem. 

A sucessão de quadros de Mitologia Tropikal faz da obra espécie de redemoinho. Movem-se os ventos, passam-se os tempos; e caminhos ainda precisam ser abertos. Algo se repete ali, expurgo após expurgo, restituição após restituição, vingança após vingança, justiça após justiça, ato após ato. Acúmulo. Acúmulo do capital, acúmulo da exploração, acúmulo do terror.

logo do projeto arquipélago

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serviço
MITOLOGIA TROPIKAL

Temporada de Estreia – Teatro Alfredo Mesquita (Av. Santos Dumont, 1770)
Temporada: De 30 de outubro a 16 de novembro | 14 anos
Sessões: Quinta a sábado, às 20h | Domingo, às 19h
Ingresso: Entrada gratuita (ingressos distribuídos uma hora antes de cada sessão)

ficha técnica
Mitologia Tropikal
Projeto Crioulos

Direção e Texto: Caio D'aguilar
Consultor Histórico: Joaci Pereira
Provocador de Dramaturgia: Kenan Bernardes
Provocadora Corporal: Julia Brandão
Elenco: Ilunga Malanda, Diogo Cintra, Taynã Marquezone, Caio Daguilar, André Rosa, Priscila Rosa, Julia Brandão e Leandro Flores
Banda URUKUM: Brew Kambiwá, Vits Iglesias e Panda
Sonoplasta DJ: Saskia Peter
Criação e Operação de Luz: Renato Banti
Operação de Projeção: Renato Banti
Concepção Sonora: Banda URUKUM, Caio Daguilar e Saskia Peter
Técnico de Som: Arthur Maia
Figurinos: Mariana Paes
Cenografia e Cenotécnico: Edelsioela Denecir
Direção de Produção: Taynã Marquezone
Designer de Artes e Projeção: Genilson Junior
Fotografia e Vídeo: Felipe Gabriel
Assessoria de Imprensa: Rafael Ferro e Pedro Madeira