destaque, teatro

uma cadeira vazia, um príncipe inacabado

crítica de Hamlet, Sonhos que Virão, da companhia Empório de Teatro Sortido.

“Hamlet comporta muitos temas: a política, a violência e a moral, a discussão sobre a divergência entre teoria e prática, sobre os fins últimos e o sentido da vida; é uma tragédia de amor, bem como um drama familiar, nacional, filosófico, escatológico e metafísico. Tudo o que quisermos! E, além do mais, inclui uma profunda análise psicológica, uma intriga sangrenta, um duelo, uma grande carnificina. Pode-se escolher. Mas é preciso saber o que se escolhe, e por quê.” (Jan Kott, Shakespeare nosso contemporâneo)

Há sempre mais um Hamlet a ser contado. O que se espera dele cabe a cada um de nós, público; o que se quer com ele está ligado aos desejos da equipe de artistas criadores. No início de 2025, Rodrigo França, Fernando Philbert e Jonathan Raymundo trouxeram aos palcos paulistanos Eu sou um Hamlet, onde o artigo indefinido no título traz um primeiro indício dos caminhos da encenação; a adaptação versa sobre um teatro negro do teatro do mundo. Próximo ao final do ano passado, estreou na cidade Hip Hop Hamlet; mais um título que traz o cerne da obra, com a linguagem pesquisada pelo Núcleo Bartolomeu de Depoimentos atravessando a pena shakespeariana; e o resto? O resto é nóiz. Para pensar a partir de Hamlet, Sonhos que Virão, então, olhar a escolha presente no título. A beleza da imagem que a frase sonhos que virão constrói é contrastada pelo contexto de sua citação: trata-se de trecho do mais famoso solilóquio da obra (Ser ou não ser, na primeira cena do terceiro ato), e estes sonhos que virão virão no sono da morte – For in that sleep of death what dreams may come.

Com direção de Rafael Gomes, que assina a adaptação da obra ao lado de Bernardo Marinho (utilizando a tradução de Aderbal Freire-Filho, Wagner Moura e Barbara Harington), Hamlet, Sonhos que Virão, talvez seja precisamente um Hamlet sobre a impossibilidade da transformação. Sobre sonhos que só podem vir, mesmo, no sono da morte. O Hamlet de Gabriel Leone tenta, mas não consegue deixar de ser tudo o que já era antes (dele). Na encenação de Gomes (acompanhado de Victor Mendes como diretor assistente e residente), a tentativa do protagonista de ser outro, de fugir de suas circunstâncias impostas, se dá a partir de uma conexão estabelecida com o público desde o início. Em meio à plateia, uma cadeira vazia, branca, sobre um tapete branco, contrastando com o preto dos demais assentos, da escuridão do piso, do ato de sumirmos diante da obra. Hamlet está próximo, fala conosco, senta-se e observa a cena por um tempo. Busca ser um de nós, mas rapidamente é convocado à ação. Hamlet como alguém que gostaria de ser espectador. 

Fixo meus olhos, em diversos momentos, na cadeira vazia. Hamlet voltará ao pequeno púlpito-plateia, virará a cadeira de costas para a ação, ela permanecerá vazia. O solilóquio clássico, deslocado para mais adiante na narrativa, é dito ali, olhos nos olhos do público, as mãos sujas de sangue após o assassinato de Polônio, cada palavra como uma súplica. Uma cadeira que será derrubada, ficará caída, ali, vazia. A maquiagem nos olhos de Leone é assimétrica; revela-se na proximidade um príncipe inacabado. Em seu gesto final, este Hamlet tenta coroar-se sendo o mesmo e morre, quase entre nós, mas não capaz de ser um de nós.



O título, a plateia, o espaço: Hamlet, Sonhos que Virão, ocupa um cinema abandonado. A intensa temporada (cerca de sete sessões semanais ao longo de dois meses) integra um movimento de transformação do antigo Cine Copan, fechado desde os anos 1980, sendo a primeira programação do agora Nu Cine Copan que, findas as apresentações, entrará em um processo de reforma para a inauguração em 2027. Para sua encenação, Gomes localiza o público onde originalmente ficaria a tela. A ação se passa na amplitude do lugar da plateia, com os degraus criando níveis para diferentes cenas e composições. Novamente, algo da relação entre quem age e quem observa se sugere instável nessa inversão. Ainda que muitas das cenas se localizem em áreas estabelecidas pela cenografia de André Cortez, todo o Nu Cine Copan é ocupado em distintos momentos. A iluminação de Wagner Antônio (acompanhado por numerosa equipe) constrói os recortes quando necessários, criando penumbras, janelas e portais, com momentos de grande impacto visual.

Espalhados pela área cênica contornam-se alguns nichos principais de ação: além do já citado púlpito-plateia, um palco, ao fundo; outro, menor, no que poderia se dizer o proscênio; e duas plataformas sobre trilhos, moventes, bem ao centro do vasto cinema. As composições de Gomes propõem simultaneidades que garantem um marcante dinamismo nas transições (ainda que o ritmo diminua um pouco mais próximo do último ato), espalhando entradas, saídas e movimentações por todo o espaço. A concomitância de diálogos e presenças de distintos personagens sugere atenções possíveis, ainda que por vezes não haja certeza no que cada uma e cada um ali vê e escuta. Os usos de cada lugar, ainda que sagazes, não necessariamente oferecem uma lógica coesa em suas transformações.

A pomposidade da corte surge de modo tímido, quase que envergonhada dos atos da nobreza. Nos figurinos de Alexandre Herchcovitch, um discreto vermelho na parte interna da capa do Rei Claudio (Eucir de Sousa) e em sua gola rufo – assim como em um revelado piso do cenário de Cortez, pisado por Hamlet e Gertrudes (Susana Ribeiro) com os pés descalços. As vestes alinham-se majoritariamente em um tom acinzentado para os personagens masculinos, com pequenas variações de cor, algo urbano, contemporâneo, mas evocando o período da fábula em suas mangas, adornos e detalhes. A rainha veste prata, há nela algo que insiste em resplandecer. O vestido da Ofélia de Samya Pascotto destaca-se em seu verde. Esperança, natureza, fertilidade, renovação: é como se sua presença nestes Sonhos que Virão fosse de um futuro a chamar Hamlet a outros possíveis.

Mas Ofélia irá morrer, é essa a história sendo contada. Estendendo o arco da personagem, Pascotto parece dilatar sua presença nas movimentações, habitando marginalmente cenas enquanto as abandona, como que esvaindo-se de esperança a cada ação de Hamlet, desaparecendo tal qual a cor de seu figurino, até a queda final – imagem que, banhada pela luz de Antônio, faz do afogar-se um flutuar. O Laertes de Bruno Lourenço, por outro lado, desenvolve-se de forma mais incisiva, em sobressaltos conforme o andamento de Hamlet, Sonhos que Virão exige. Enquanto isso, Hamlet abandonará a jaqueta para restar de regata, gola rufo e bermuda; um príncipe inacabado e suas tentativas. 

Floresta, palácio, a corte, a nobreza, o teatro: tudo em ruínas. Em Sonho Manifesto, Sidarta Ribeiro diz que “se tudo parece ruína, é porque ainda estamos em construção” – uma colocação adequada para se pensar em Hamlet; sobretudo neste. A proposição da loucura do Hamlet de Leone parece seguir uma interessante lógica na direção de Gomes. Absolutamente consciente de seu estratagema, opera em um registro de interpretação exagerada, explicitando a intenção de parecer louco, uma dimensão quase inverossímil – que inclusive exige de suas e seus colegas de cena um esforço a mais para manter o jogo pulsante. Há até um risco de que o excesso se torne incômodo à fruição. Conforme os acontecimentos se desenrolam, porém, a construção de Hamlet sai de seu controle; a loucura já não se sabe se fingida ou verdadeira, e então o tensionar desta corda se justifica. 

Em Hamlet, Sonhos que Virão, não há Fortimbrás e toda a guerra parece ser a interna. No diálogo entre os coveiros (Daniel Haidar e Rael Barja, também Guildenstern e Rosencrantz), uma breve menção ao dia em que Hamlet veio ao mundo: o mesmo em que seu pai matou o rei da Noruega. O príncipe nasceu sob este signo. Ainda que essa dimensão bélico-política de Hamlet não esteja em evidência na adaptação de Marinho e Gomes, a indesviável circunstância de uma compulsória lida do protagonista com o poder o atravessa de modo determinante; a vingança o faz reprodutor da mesma engrenagem que antes tentara fugir.

Diante de uma cadeira vazia, um príncipe inacabado é assombrado pelo que foi, pelo que houve, pelo que é, pelo que não consegue evitar que será. Eucir de Souza é o Rei Claudio e é também o Fantasma. A ambiência criada pela iluminação de Antônio, em conjunção com a trilha (e suas distorções) de Barulhista e Antonio Pinto – que, no todo, compõem paisagens não-óbvias para sustentar atmosferas específicas – faz das primeiras aparições fantasmagóricas acontecimentos de ordem espetacular. Lasers, fumaça, figuras etéreas e longilíneas; o assombro da fantasmagoria é místico em Hamlet, Sonhos que Virão. Mas é também de uma tremenda materialidade quando espírito do pai e filho dialogam, e pai e tio imiscuem-se em um só ser, como que sendo o velho, o patriarca em suas múltiplas facetas. Outras aparições tornam-se mais modestas e ninguém mais corrobora sua visão. Agora não há mais testemunhas, senão uma cadeira vazia, um príncipe inacabado e o público, convidados à igualar-nos na loucura ou testemunharmos a tragédia que certamente se desenrolará; ao fim, estaremos buscando em nós o que permanece do que se contou.

[colabore com a produção crítica de amilton de azevedo: conheça a campanha de financiamento contínuo para manter a ruína acesa!]

serviço
HAMLET, SONHOS QUE VIRÃO

Temporada: 19 de fevereiro a 19 de abril
Local: Nu Cine Copan (Av. Ipiranga, 200 – Centro – São Paulo/SP)
Entrada pela Galeria do Copan
Horários: Quartas, 20h | Quintas, 20h30 | Sexta, 20h | Sábados, 16h e 20h | Domingos, 17h
Ingressos: de R$25,00 a R$200,00
Vendas online: nucinecopan.byinti.com
Bilheteria física: no local 2h antes da sessão.
Duração: 2h15 minutos (sem intervalo)
Capacidade: 345 lugares
Classificação indicativa: 14 anos

ficha técnica
HAMLET, SONHOS QUE VIRÃO
de William Shakespeare

Direção: Rafael Gomes
Adaptação: Bernardo Marinho e Rafael Gomes
Tradução: Aderbal Freire-Filho, Wagner Moura e Barbara Harington
Elenco: Gabriel Leone, Susana Ribeiro, Eucir de Souza, Samya Pascotto, Fafá Renó, Bruno Lourenço, Daniel Haidar, Felipe Frazão, Rael Barja, Davi Novaes, Conrado Costa, Giovanna Barros e Lua Dahora
Cenografia: André Cortez
Iluminação: Wagner Antônio
Figurino: Alexandre Herchcovitch
VIsagismo: Pamela Franco
Trilha Sonora: Barulhista e Antonio Pinto
Design de som: Gabriel D’Angelo e Fernando Wada
Fotografias: Bob Wolfenson
Design Gráfico: Izabel Menezes
Diretor Assistente: Victor Mendes
Direção de Movimento: Fabrício Licursi
Direção de produção: Rafael Rosi
Coordenação de Produção: Luciana Fávero
Produtores associados: Gabriel Leone e Samya Pascotto
Produtor Executivo: Diogo Pasquim
Produção: Art’n Company, Substância Filmes e Viva do Brasil
Patrocínio master: Nubank
Patrocínio: Casa Almeida e Ibar