sonhar, encruzilhada
crítica de DESCAMINHOS – se você me vê, não sou eu, da em TRÂNSITO. o ruína acesa faz parte do projeto arquipélago de fomento à crítica.
Na introdução a Um apartamento em Urano, Paul B. Preciado inicia suas reflexões defendendo o sonho: “(…) nenhuma vida pode ser plenamente narrada ou avaliada em sua felicidade ou em sua loucura sem levar em conta as experiências oníricas” (p. 19). O planeta que dá título ao livro surgiu ao filósofo em um sonho onde ele buscava, no sistema solar, lugares para morar. “Fechados e adormecidos, os olhos continuam a ver” (p. 20): a aparição de Urano leva Preciado a então atravessar, em vigília, a história. A história da descoberta do planeta, a história do titã da mitologia grega, a história da proposição dos “uranistas”. E então, em travessia, não está falando de história; está “falando da sua vida, da minha, de agora”.
O sonho como matéria primordial da vida é uma das linhas de potência que organiza o espetáculo de rua DESCAMINHOS – se você me vê, não sou eu, da em TRÂNSITO, coletividade da Zona Leste de São Paulo. Inspiradas na introdução de Preciado – e atravessadas por provocações de A TRANSÄLIEN – fazem do espaço público lugar de abertura de portais oníricos e ancestrais. Urbano, mítico, arquetípico: embaralhando cotidiano, memória, poesia, noite, dia, desejos do porvir e o insistente agora, DESCAMINHOS joga com a expectativa em torno das teatralidades de rua e das realidades que se farão apresentadas.
Uma carroça sonorizada é o veículo que ancora e ampara a travessia que vai começar, e a em TRÂNSITO faz dela um ponto focal para transformar qualquer esquina em ágora-encruzilhada e abrir a gira onírica. É um espetáculo cujo sonho não é tema, mas estrutura. Alexya Manente, Calu Batista, Filipe Cipó, Hiar Eliza, Joab Rodrís, Legina Leandro e Lucas de Souza caminham pelos entornos do espaço de apresentação, convocando o público para outras qualidades de atenção e imaginação. Abrir o olhar na direção dessas figuras, entre pernas de pau, instrumentos musicais, adereços de tantas cores e primeiras interações, entre mandingas e conversas.
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Algo de algum futurismo parece se anunciar desde a chegança da em TRÂNSITO, com corpos que se apresentam entre o fantástico e farrapos. Televisores reflexivos feitos cabeça, longas perucas, chapéus e véus ocultando rostos: o figurino e visagismo, de A TRANSÄLIEN e TRASHrealoficial, é estranhamente exuberante. Conforme se inicia a travessia, nota-se que não se trata de futuro; nem utopia, nem distopia: DESCAMINHOS traz um brilho do real, um presente brilhante. Uma fenda no espaço – encantaria urbana, de arame e plástico.
A em TRÂNSITO faz de seus intérpretes profetas e profecias, que enunciam em cena sonhos e lembranças, documentos oníricos, fabulações a partir de quem são, de onde falam, do que veem, do que os atravessa, de como querem atravessar a vida, a cidade, o mundo. Fragmentos de relatos vão costurando-se em imagens, o público é convidado a compor com seus corpos e vozes, a diferença está presente e é também dela que se fala. E “falar é inventar a língua da travessia, projetar a voz numa viagem interestelar”, diz Preciado (p. 25). DESCAMINHOS é travessia – palavra que entre seus significados nomeia um vento contrário à navegação – em seu movimento quase como deriva, sem ponto de chegada; “atravessar é ao mesmo tempo saltar um muro vertical infinito e caminhar sobre uma linha traçada no ar” (p. 33).
Quando Preciado fala da travessia, refere-se (também) ao seu próprio processo de transição. Travessia torna-se, assim, um modo de existência dissidente. E dentro da em TRÂNSITO, é a norma que está à margem: a coletividade é formada por artistas periféricos, LGBTQIAPN+, DEF e/ou não-brancos. A obra é eminentemente política e as identidades atravessam os DESCAMINHOS, mas há algo que opera além. Em uma entrevista para a FOdA/Mídia Ninja, A TRANSÄLIEN diz que “se eu tivesse que pertencer a alguma categoria, seria a que inventei para mim mesma”. E Preciado é “a multiplicidade do cosmos encerrada num regime político e epistemológico binário gritando diante de vocês” (p. 28). A em TRÂNSITO faz de si ser único de múltiplos olhos – e olhares – neste contar de singularidades coletivas.
Visões apocalípticas, os assombros do real, forças ancestrais, o encantar de serpentes; poesias que se cantam, contam, compõem, cortam. Sonhar, encruzilhada: organizar a materialização do onírico é imenso campo de possíveis, compreendendo inclusive a força simbólica dos pesadelos. DESCAMINHOS é contínuo convite aos ritos; imaginá-los, fabular de olhos fechados no meio da cidade, habitar o perigo da travessia; “imaginar e visualizar um outro corpo, outra mente, uma outra realidade, para então vivê-la”, como disse A TRANSÄLIEN para o MUTHA.
O que está em cima é como o que está embaixo e o que está embaixo é como o que está em cima, o acordar e o dormir, o viver e o sonhar. Começo, meio e começo; a confluência proposta por Nêgo Bispo e o princípio da correspondência hermética. Tudo se mistura enquanto o sol decompõe e a rua é movimento de constante busca (de si? do outro? des-caminhos?). Neste sentido, o desafio de DESCAMINHOS é encontrar maneiras estruturantes de costurar os encontros e inquietudes; enquanto encenação, a transição entre as cenas oscila em suas tentativas de manter pulsante a lógica do onírico.
Nossos sonhos se conectam de modos que, enquanto vividos, fazem todo o sentido; na hora de contar, percebemos os lapsos, lacunas, impossibilidades de conexões causais entre o tanto que nos acontece no infinito que se materializa. A trajetória do espetáculo da em TRÂNSITO é um salto de sonho em sonho, pesadelo em pesadelo, descaminho em caminho. Os momentos de interação funcionam, incluindo o público no universo que se constrói dentro de cada subjetividade onírica; mas certas transições e suas necessidades acabam amparadas por um lembrete do elenco de que se trata de uma obra teatral, de uma peça de rua, do concreto que sustenta e demanda fazeres de ordem técnica, objetiva.
Como fazer de todos os DESCAMINHOS amálgama de vigília e sonho, de teatro e de vida? A realidade grita – como no calor do meio dia no calçadão de concreto branco diante do CCBB quando da apresentação da obra na MIACENA 2025 – e como gritar de volta? Como fazer da rua espaço de cortejo-procissão, de gira, de encanto, de acordar e acalmar existências? DESCAMINHOS deseja a todes um ótimo espetáculo quando se aproxima de seu final – sonhar, encruzilhada: depois de iniciada a travessia, nos tornamos para sempre (des)caminhantes.
[colabore com a produção crítica de amilton de azevedo: conheça a campanha de financiamento contínuo para manter a ruína acesa!]
ficha técnica
DESCAMINHOS - se você me vê, não sou eu
em TRÂNSITO
Elenco: Alexya Manente, Calu Batista, Filipe Cipó, Hiar Eliza, Joab Rodrís, Legina Leandro e Lucas de Souza
Dramaturgia: Coletiva
Orientação artística: Cida Almeida, Diogo Granato, Salloma Salomão
Composições musicais: Alexya Manente, Joab Rodrís, Legina Leandro
Sonoplastia: André Papi
Figurino e visagismo: A TRANSÄLIEN, TRASHrealoficial e elenco
Cenógrafa: Calu Batista
Cenotecnia: Zé Da Hora
Serpentes em arame: Italo Iago
Adereço “olhos”: Filipe Cipó
Oficina de arquitetura inflável: Coletivo Flutua
Idealização e argumento: Legina Leandro
Realização: em TRÂNSITO
Duração – 60 minutos
Recomendação etária - Livre

