tornar-se autora de si
crítica de Adulto, com texto e idealização de Fran Ferraretto e direção de Lavínia Pannunzio. o ruína acesa faz parte do projeto arquipélago de fomento à crítica.
Dois homens e duas mulheres se encontram para a leitura de uma dramaturgia que conta de dois casais e suas crises – pessoais e profissionais – da vida adulta. Luzes brancas, uma grande mesa, cadeiras de escritório, roupas alinhadas. Essa frieza e sobriedade dos figurinos e da cenografia contrasta com o temperamento das personagens, e suas carreiras também estão distantes do ambiente corporativo que parece sugerido pela visualidade e pela cena inicial de Adulto.
É sob este enquadramento, que mais parece reunião de pitching do que sala de ensaio, que ocorre o encontro de Sara (Fran Ferraretto) com João (Iuri Saraiva), Vitor (Sidney Santiago Kuanza) e Paula (Jennifer Souza) – ou com seus intérpretes, considerando as fronteiras borradas entre as camadas da ficção que se desdobra.
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Na situação dramática em torno da qual a dramaturgia dentro da encenação de Adulto se desenvolve, Sara é uma revisora de textos que almeja tornar-se autora. Ela vive com João, ator passando por momentos de baixa na carreira, no apartamento da mãe dele. Uma máquina de lavar insistentemente lembrando que está quebrada dificulta a lavação de roupa suja do casal. Em que pesem tentativas de ambos de trazer algum tipo de conserto, eles também não se ajudam de forma aberta e construtiva.
Vitor e Paula, o casal de amigos, é muito melhor resolvido. Falam de seus desejos, realinham seus acordos, comunicam-se. Vitor também é ator; teve suas primeiras oportunidades proporcionadas por João e retribui as chances indicando o amigo para trabalhos. Paula é antropóloga, trabalha em uma fundação que vêm recebendo mais verbas para a pesquisa; critica o machismo de João e serve como espécie de guia para Sara.
Cada personagem tem um monólogo onde sua subjetividade é exposta de forma mais direta e, ainda que Vitor e Paula tenham seus momentos de discutir a própria relação, a função de tais personagens em Adulto é principalmente a de fazer mover as engrenagens do casal protagonista e dar a ver o desenvolvimento de Sara. A figura de Vitor torna-se interessante ao servir para evidenciar os pactos da masculinidade; tanto seus mecanismos externados quanto aqueles subjacentes às ações de aparente camaradagem.
Paula, por outro lado, traz pouca ou nenhuma contradição em sua composição: é personagem de uma lucidez invejável, onde intenções e atitudes, em perspectivas éticas, políticas e pessoais, estão em perfeita harmonia – em seu monólogo, emerge o cansaço de sustentar este tanto. Isso pode gerar no público um efeito similar ao que ocorre com Sara – um desejo de seguir o exemplo – ou um reconhecimento naquela força e nos custos de existir dessa forma absolutamente coerente e combativa.
A obra desenvolve-se a partir de acontecimentos e conflitos, sobretudo os que ocorrem entre Sara e João, ao mesmo tempo em que a encenação tenta fugir do drama escolhendo investir na função metateatral e no campo da ação no palco como espaço de leitura, como construção de uma cena futura. Na razão de ser deste lugar duplo do ensaio e do viver, Adulto é, estruturalmente falando, sobre Sara tornando-se autora de si mesma. A ideia de uma personagem que é sua própria dramaturga pode simultaneamente complexificar e proteger idiossincrasias da ficção.
Isso porque nas situações dramáticas, a composição das personagens opera na lógica de tal linguagem, e Adulto faz da identificação um recurso caro à relação entre peça e público. Há, então, um investimento na verossimilhança naquelas construções, ao mesmo tempo em que se vislumbra que se tratam de personagens sendo criadas a partir do olhar de uma delas; uma dramaturga não-confiável. Talvez por isso Paula, “personagem farol dessa peça”, como escreve a diretora Lavínia Pannunzio no programa do espetáculo, se apresenta exemplar: é quase como a personificação daquilo que a protagonista não conseguiu, ainda, ser. Bem sucedida na carreira que escolheu, bem resolvida em suas questões amorosas; as estruturas sociais que a circundam e oprimem parecem gerar apenas exaustão, mas nenhuma outra dificuldade emerge.
Ao colocar em cena dois casais heterossexuais, um branco e um preto, Adulto busca tensionar questões de raça e gênero. Para tanto, sua dramaturgia é esquemática ao dar a ver seus atravessamentos e sobreposições, criando uma espécie de contra-hierarquia social que almeja carregar uma potência restitutiva da lógica das relações não apenas amorosas mas também interpessoais. Ao mesmo tempo em que o texto de Ferraretto desdobra de forma eficaz seus temas, algo de contradição parece faltar na constituição de Vitor e Paula. Não se trata de problematizar a coadjuvância do casal negro, mas ressaltar que há um risco de que suas presenças, em especial de Paula, sejam vistas como acessório, quase mágico, ao drama branco.
A encenação de Pannunzio busca jogar com a iluminação de Gabriele Souza e o cenário de Mira Andrade para fazer deslizarem as realidades que se desdobram a partir daquele ambiente sóbrio, quase-corporativo, dando a ver as casas dos casais, lugares acalorados em seus debates e afetos. Em harmonia e com precisão, o elenco transita pela história sendo lida e a história sendo escrita, contada, vivida. Além dos momentos onde efetivamente se distingue qual a ficção sendo vista (leitura ou situação), há também algumas interrupções a fim de mudar os tons de certas falas, quando personagens-atores leem rubricas de personagens-personagens. Tais gestos, assim como quebras da quarta parede, solilóquios e a proposta metateatral como um todo parecem tentativas de implodir o drama, ainda que isso efetivamente não se dê.
No imiscuir das camadas, o gesto de construção das ficções dá lugar à impressão que resultam ali mais certezas do que dúvidas. A sala de leitura revela aos poucos que, sim, tudo deu certo, ou está dando certo – Adulto, após encarar a complexidade do tornar-se seu título, parece optar por encontrar uma resolução positiva dos conflitos apresentados. A imagem final reforça essa impressão, quando Sara, vitoriosa, posa como girlboss, não apenas assenhorada da própria narrativa, mas obtendo sucesso no seguir de seus sonhos. Diante dos insolucionáveis da vida, agarrar-se nas possibilidades de invenção.
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ficha técnica
ADULTO
Texto e idealização: Fran Ferraretto
Direção: Lavínia Pannunzio
Elenco: Iuri Saraiva (João), Sidney Santiago Kuanza (Vitor), Fran Ferraretto (Sara) e Jennifer Souza (Paula)
Desenho de luz: Gabriele Souza
Trilha sonora e operação de som: Rafael Thomazini
Cenário: Mira Andrade
Figurino: Anne Cerutti
Design gráfico: Murilo Thaveira
Fotos: Julieta Bacchin
Visagismo: Louise Helène
Operação de luz: Carol Dourado
Técnico de montagem: Diego França
Assessoria de imprensa: Canal Aberto - Marcia Marques, Daniele Valério e Carina Bordalo
Estratégia Digital & Social Media: Alexandre Ammano
Gestão de mídias: Enzo Salomão
Direção de produção: Paula Malfatti
Coordenação de produção: FATTO Realizações
Gestão administrativa: Mava Produções
Assessoria jurídica: José Otávio V. de S. Ferreira S.I. Advocacia
Apoio: Oficina de Atores Nilton Travesso, LIVO e Salão Pier A

