destaque, teatro

Forrest Pulp sentido Jalapemba

crítica de A Culpa é dos Javalis, dA Motosserra Perfumada.

Um ponto de ônibus no meio do nada, provavelmente próximo de alguma periferia urbana; zonas meio rurais mas ainda dentro de cidades grandes, com terrenos baldios, projetos de loteamento e espaços de eventos. Nos fundos, andaimes e tiras de plástico, algo de um canteiro de obras, mas certamente não há nada em construção por ali. Uma cabeça de javali fincada no topo da estrutura metálica parece servir de espantalho; espantar dali qualquer possibilidade de humanidade. O contraluz no chão pode até sugerir os faróis do Terminal Jalapemba que teima em não passar por ali, mas quando ele acende o que se move é a narrativa, a partir da chegada de mais um canalha naquele pardieiro desolado de onde ninguém consegue sair. A Culpa é dos Javalis, comédia dA Motosserra Perfumada, é um espetáculo desgraçado, onde cinco infelizes se encontram na saída de uma festa meio bosta meio apoteótica, e seus destinos são cruzados pela mesma infame mulher.

Tudo começa e vai se desenvolvendo num insistente papo de doido. Bernardo (Bernardo Mendes) já está ali sentado, tomando seu champanhe, quando chega o playboy neurótico Gael (Victor Moretti). Depois, vão aparecer o artista meio escroto meio psicopata Vander (Carcarah), Maurício (Afonso Bispo Jr.), um homem preto libertino, e Epaminondas (Ernani Sanchez), proprietário-herdeiro do sítio que recebe o casamento. São personagens facilmente reconhecíveis em suas estereotipias, construídos pela dramaturgia e direção de Biagio Pecorelli de forma a investir com a mão pesada nas próprias contradições destes tipos sociais. Não são a representação de outsiders, ou de figuras marginalizadas, mas o puro suco da masculinidade patriarcal e as imbecilizações que caminham junto com a insistente manutenção de tais valores. O discurso não faz curva, e Pecorelli não se interessa em poupar nada, muito menos ensinar alguma coisa ou encampar alguma mensagem edificante. A Culpa é dos Javalis não oferece nenhuma moral ou horizonte otimista: o que sobra é o extermínio; acabar com essa praga do mesmo modo que se lida com espécies invasoras como os javaporcos.



A Betty Braite de Camila Ríos, diferentemente da professora homônima da PUC-SP, não está interessada em nenhuma teoria ou análise do discurso. Definida desde a sinopse da obra como feminista radical, tudo que se relata sobre ela são atos de vingança, restitutivos, ainda que Betty esteja absolutamente imersa na cocainômana insanidade que permeia todos os acontecimentos de A Culpa é dos Javalis. Fosse mais sóbria, algo nela ecoaria a protagonista de Bela Vingança (Promising Young Woman, 2020), de Emerald Fennell, ainda que sem grande objetividade, planejamento ou coerência. Nesse ponto de ônibus abandonado por Deus, não há espaço pra nada disso.

Quando Betty e Gael trazem a coreografia de Pulp Fiction (1994), a referenciação pop é tão esdrúxula quanto precisa. O nome do filme é a celebração tarantinesca dessa subliteratura, das revistas pulp, violenta, engraçada, descompromissada. E antes já se podia pensar que Bernardo, naquele banco, é um Forrest Gump (1994) doido de praça, portador de uma consciência assertiva, iluminada, permeada pelo senso comum e enunciada com a certeza de um taxista em seu acúmulo de clichês. Encenada no Cemitério de Automóveis, A Culpa é dos Javalis me fez lembrar de uma crítica que adoro reler de tempos em tempos, de Tânia Brandão sobre Killer Joe, com direção de Mario Bortolotto e Carcarah no elenco. Ela abre o texto chamando a peça de “horrível” e, por isso, “um grande sucesso”. A dramaturgia de Pecorelli pouco tem a ver com a de Tracy Letts, ainda que em A Culpa é dos Javalis também haja um quê de “um primor de baixaria”. Também, Tânia vai apontar que “falar em cena crua significa dizer à plateia para ter cuidado com os próprios sentimentos”

Espécie de subtítulo, descrição de bio, slogan (?) ou algo assim, do grupo A Motosserra Perfumada é Teatro Anfíbio, Borderline e Sem Manteiga. Não parece, portanto, que haja uma grande preocupação no sentido de A Culpa é dos Javalis ser agradável. Muito pelo contrário. A construção do cômico, nos discursos do (e em torno do) patético do masculino e num cutuquento chafurdar na banalização e consequente esvaziamento de discursos (progressistas) faz com que a plateia oscile entre o riso solto, o riso constrangido e o cenho franzido de “o que está acontecendo aqui?”. A Cupa é dos Javalis é um convite para se sentar no meio de um bando de desgraçados, aguentar o papo do Forrest Pulp, gargalhar e ficar escandalizado com esses homens que existem pra caralho enquanto esperamos a porra do Terminal Jalapemba que, óbvio, não passa de domingo.

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serviço
A CULPA É DOS JAVALIS

Datas: 23 de janeiro a 08 de fevereiro
Horários: Sextas e sábados às 21h | Domingo às 20h
Local: Cemitério de Automóveis – Rua Francisca Miquelina, 155, São Paulo
Duração: 70min

Ingressos: Inteira R$ 50 | Meia R$ 25 - Compre no Sympla

ficha técnica
A CULPA É DOS JAVALIS
A Motosserra Perfumada

TEXTO E DIREÇÃO: Biagio Pecorelli
ELENCO: Camila Ríos, Bernardo Mendes, Victor Moretti, Carcarah, Afonso Bispo Jr e Ernani Sanchez
ASSISTÊNCIA DE DIREÇÃO: Fernanda Comenda
PREPARAÇÃO DE ELENCO: Brunna Martins
COREOGRAFIA: Marcio Filho
CENOGRAFIA: Rafael Bicudo
FIGURINO: Mariana Cypriano
DESENHO DE SOM: Dugg Mont
DESENHO DE LUZ: Biagio Pecorelli
PRODUÇÃO: Jessica Oehlerick
FOTOS: Léo Pinheiro
ARTE: Bruno Caetano
TRILHA ORIGINAL: Ernani Sanchez, com participação de Jonnata Doll e Edson Van Gogh
APOIO: Corpo Rastreado, Cemitério de Automóveis, Josefa Restaurante